Blockchain alterando o mainstream da governança

                                                            Anderson Godzikowski e Bruno Dequech Ceschin*

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Muito se fala das tecnologias de blockchain, tokens, ICOs etc. Mas o que elas podem impactar na temática governança corporativa? Para tentar apontar caminhos vale equalizar alguns conceitos. Inobstante a existência de blockchains privadas, blockchain pode ser considerada uma tecnologia que permite manter um registro histórico imutável de transações realizadas e validadas por todos os participantes de uma rede.

 

A arquitetura blockchain possui informação completa sobre endereços e transações realizadas por participante, escritas e validadas, publicamente verificáveis, contendo o momento exato em que foram acordadas. É pública, mas anônima. É vista como a principal inovação tecnológica por trás do Bitcoin, pois é a prova inegável, inviolável e incorruptível de todas as transações feitas nessa rede.

 

Imagine o nível de controle e histórico que será possível obter das decisões tomadas em um conselho. Por exemplo: anos depois, quem decidiu exatamente o quê sobre a compra da refinaria de Pasadena pela Petrobras?

 

Internet é comunicação, blockchain é governança.

Se a revolução da internet foi causada pela descentralização da comunicação, a revolução a seguir, em magnitude similar ou maior, será causada pela blockchain na governança. Chegamos à era da “internet do valor”. Evoluímos muito na comunicação pela internet, mas ainda governamos o mundo de maneira completamente analógica ou, no máximo, versões analógicas digitalizadas (escaneadas) de decisões, ritos, transações, enquetes e votações acontecidas no mundo real e transcritas para o digital.

 

Imagine uma nova arquitetura de fundamentos de governança sobre políticas de uso da informação, transparência, controle, relações com investidores e confidencialidade. Num futuro breve, decisões automaticamente executarão consequências. O avanço das tecnologias de comunicação associado à blockchain permitirá maior abertura dos conselhos, mais colaboração, melhores decisões, mais rápidas e com maior segurança. Assim como num clique mandamos uma mensagem, gatilhos digitais irão disparar transações automáticas.

 

Como blockchain pode mudar a governança do mundo?

Em um sistema político de democracia direta, todos têm poder de voto direto sobre todas as pautas, no sistema político de democracia representativa o voto direto elege um representante para atuar em seus nome por um mandato temporário e a votar em todas as pautas de seu melhor interesse.

 

A direta garante poder de voto igual para todos, embora não funcione quando se pensa em escala. A representativa por sua vez, garante governabilidade, mas origina o conflito entre agente e principal. Nessa cena, a blockchain muda o jogo e permite a realização de uma antiga utopia ou mito político: de que existe um meio-termo entre ambos os formatos democráticos, a democracia líquida, que é a evolução do sistema que torna o antigo obsoleto.

 

O conceito de democracia líquida consiste em ter o poder de votar em todos os temas e, ao mesmo tempo, o poder de delegar seu poder de voto em cada votação (ou cada grupo de votações) para quem você confia em cada tema. No ambiente da governança corporativa, significa dizer que os acionistas ou beneficiários finais de uma companhia podem votar em todas as decisões a serem tomadas e/ou delegar as decisões a um executivo ou rede de executivos para cada tema.

 

Contudo, não de maneira ampla e por tempo de mandato e, sim, de forma específica e dinâmica, tema por tema, revogável a qualquer tempo. Viveremos em um mundo com bem menos necessidade de centralização de poder, pois poderemos, tecnologicamente, operar de forma mais peer-to-peer, descentralizada, sem que as organizações se tornem um caos desgovernado e anárquico.

 

E com registros imutáveis, todas as suas decisões como gestor serão registradas, analisadas, comparadas e automatizadas. O Jupter, um ecossistema de inovação em Curitiba, está desenvolvendo, prototipando e testando um sistema de registro de decisões em assembleia de acionistas, conselhos e comitês. As decisões, registradas na blockchain, são verificáveis por qualquer participante.

 

Atualmente em fase de testes, esse sistema permite a criação de moções e votações a qualquer tempo, com registro distribuído dos votos, de maneira que o histórico da vida societária da empresa possa ser analisado por um computador. Em um mundo em que são cada vez maiores os riscos reputacionais e a hiperexposição, será possível, por exemplo, avaliar a quantidade e a qualidade de decisões tomadas e seu impacto na valorização de longo prazo, bem como avaliar quem são os melhores tomadores de decisão para cada área/assunto/ fórum e até automatizar a tomada de decisões com inteligência artificial.

 

Blockchain é um dos dez fatores de pressão da nova economia sobre a governança, apresentados pelo livro ‘’Governança & Nova Economia’’. As tecnologias descentralizarão processos de tomada de decisão coletiva abrindo um novo universo de estruturas, jogos de poder, formatos e incentivos que afetarão a governança e o compliance tanto em organizações como em startups.

 

*Anderson Godzikowski é investidor, advisor e conselheiro de Administração e membro do Comitê Macroeconômico do ISAE – Escola de Negócios. Bruno Dequech Ceschin é Co-founder, CFO da Jupter e membro do Comitê Macroeconômico do ISAE – Escola de Negócios.

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