Capítulo 3: A UNIVERSIDADE DO OUTRO LADO DO RIO

“…Não conheço detalhes sobre as universidades brasileiras, mas nos Estados Unidos elas estão entre as instituições mais lentas a reconhecer as mudanças em curso no mundo do trabalho…”

Não é meu objetivo desenvolver um tratado sobre Administração de Empresas. Pretendo discordar de alguns mestres da administração que, no limiar do século XXI, continuam pregando teorias do século XIX. Uma empresa, para ser fundada, necessita de Trabalho, Organização e Capital?

Estamos em plena “revolução da informação”. Acabou aquele Brasil de JK, que buscava, por meio de seu plano de metas, substituir as importações atraindo gigantescas multinacionais. Logo após, com a ditadura militar, tivemos a criação de estatais nos setores de infraestrutura: energia, siderurgia, telecomunicações, petroquímica.

A maior meta de um jovem de classe média era deixar a universidade e buscar um bom emprego, com um bom salário, numa grande empresa multinacional ou estatal.

Hoje, não temos mais o muro de Berlim, a URSS foi para o espaço, o socialismo deixou como maior legado as conquistas sociais dos trabalhadores do capitalismo. Presenciamos cair por terra a máscara do Estado, com seu peso de elefante e velocidade de tartaruga.

A incompetência nas gestões provoca um grande movimento estatizante que se alastra pelo mundo. A globalização econômica interessa aos países ricos e desenvolvidos, que seguem buscando novos mercados. Hoje, já se come em McDonalds e já se bebe Coca-Cola até na China comunista. A globalização obriga as empresas a buscar a excelência. Só sobreviverá quem conseguir produzir com “3M”: Mais, Melhor e por Menos. Essa concorrência acirrada exige profissionais bem formados e treinados, capazes de propor soluções criativas e inteligentes.

A reengenharia, a terceirização, os programas de qualidade total e a automação de processos vêm cortando custos, cargos, funções e empregos formais, apavorando muitos com a tão alardeada crise.

Apesar desse quadro, as universidades brasileiras, “do outro lado do rio”, insistem em formar profissionais despreparados e desempregados para as grandes empresas.

Precisamos mudar o sistema educacional para que formemos profissionais com capacidade e habilidade para criar e gerir pequenos negócios. Nossa educação privilegia o desenvolvimento do hemisfério cerebral esquerdo, que é o responsável pelas habilidades matemáticas, verbais, analíticas, racionais. Essas são sempre cobradas no processo de avaliação escolar, ficando pouco estimulado o desenvolvimento do hemisfério direito, que é o criativo, imaginoso, artístico.

O consultor americano William Bridges/autor do best-seller Transitíons Making Sense of Life’s Changes, traça o perfil dos novos executivos empreendedores e de suas habilidades básicas:

“…As pessoas terão de ser capazes de ver o mundo como um mercado e enxergar pessoas à sua volta como clientes que precisam de produtos e serviços. Deve-se, portanto, desenvolver uma constante visão de marketíng. Será também preciso desenvolver um senso muito aguçado do que empregados tradicionais tínham sobre o que se pode oferecer a um cliente. Outro requisito é a habilidade de combinar aquilo que o mercado precisa com o que se oferece. Além disso, recomendo aos executívos pensar na vida e na carreira como se estívessem administrando um pequeno negócio próprio…”

A frustração de um jovem idealista, recém-formado, aluno brilhante, dedicado, cheio de ideias teóricas ao buscar uma disputadíssima vaga no mercado de trabalho, é descobrir que sem experiência não terá um lugar ao sol. Desiludido, ele volta à universidade para fazer sua pós-graduação. Ao terminar, contínua faltando-lhe lhe o conhecimento prático, o que acaba por levá-lo a se tornar um professor universitário. Vítimas do sistema, continuarão ensinando o que leram nos livros e o que ouviram falar. Assim, a universidade segue sozinha, do outro lado do rio, formando desempregados e frustrados das grandes empresas. E a juventude, que antes era a “esperança do futuro”, agora se torna “problema social”.

Educar é ensinar a pensar. É claro que eu reconheço: a universidade objetíva educar e alicerçar o acadêmico para o treinamento, que hoje é buscado fora dela. Será, com certeza, medida de economia e inteligência conseguir educar e treinar simultaneamente. Isso podemos chamar de formação, ou seja, prover o indivíduo de recursos de forma que ele possa entrar em ação.

Justíça seja feita, já existem algumas universidades buscando integrar “empresa-escola” justamente para distorcer essa miopia, embora ainda seja muito tímida tal iniciatíva. O salário de professor e a proposta arcaica desmotívam os melhores, que poderiam contribuir mais. Estes acabam sendo absorvidos pela iniciatíva privada ou deixando nosso Brasil em busca de novas oportunidades em países do Primeiro Mundo.

Temos uma iniciativa pioneira implantada no Sebrae-Minas pelo empresário Stefan Bogdan Salej. Antecipando o futuro, ele buscou na Áustria uma parceria: fundou e implantou a Escola Técnica de Formação Gerencial (ETFG), objetivando formar empreendedores, isto é, educar e treinar simultaneamente. Ao término de quatro anos, o jovem sai com habilidades para assumir, com eficácia e profissionalismo, as funções executivas gerenciais, além de falar fluentemente inglês e espanhol. São atitudes como essa que fazem uma economia de escala, pois educam e treinam o aluno simultaneamente.

Agora eu quero falar com você, meu jovem, que pertence à seleta elite dos brasileiros formada em curso superior. Será que você não está saindo da universidade em busca de um emprego onde possa ficar “escorado”? Por que não sair em busca de um empreendimento capaz de gerar empregos para um contingente cada vez maior de pessoas comuns que não tiveram as mesmas oportunidades de fazer um curso superior como você?

Nós, os formados, precisamos fazer alguma coisa em favor da comunidade. Mas, se estudamos em universidade pública, é nossa obrigação moral retribuir os investimentos pagos com o dinheiro do povo.

 


Autor:

Professor Flávio de Almeida oferece, em especial, a todos os profissionais de áreas afins, satisfaz todas as condições estéticas exigíveis em um trabalho desta natureza, uma vez que nos leva a ter foco no mercado, sem perder a flexibilidade, ou seja, foco nas oportunidades e não nos problemas.


Capítulo 3

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