CEBDS reúne empresários para debater desafios de sustentabilidade

A necessidade de implementação de um mercado de carbono e a urgência do melhor uso e tratamento dos recursos hídricos são, atualmente, alguns dos principais desafios que o Brasil enfrenta para alcançar um modelo sustentável de crescimento nos próximos anos. Essas foram algumas das principais conclusões entre os participantes do Congresso Sustentável 2018, realizado recentemente, pelo Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS), no Teatro Santander, em São Paulo.

Durante o evento, que reuniu a mais alta de liderança de grandes empresas brasileiras – responsáveis por gerar mais de 1 milhão de postos de trabalho no Brasil em diversos segmentos –, foi apresentada a Agenda CEBDS por um País Sustentável.

O documento, que pode ser baixado no http://cebds.org/ , contém 10 propostas elaboradas pelos CEOs das próprias empresas associadas à organização e destinadas aos candidatos à Presidência da República. Aumento da participação de fontes renováveis na matriz energética, segurança hídrica, expansão do saneamento básico, soluções para transição a uma economia de baixo carbono, mecanismos financeiros de estímulo a práticas sustentáveis e equidade de gênero mercado de trabalho são alguns dos temas abordados.

“Independentemente da polarização e das paixões políticas, o momento das eleições é para questionarmos: para onde estamos indo? Essa crise tem solução? Tem algo que eu possa fazer?”, provocou a presidente do CEBDS, Marina Grossi, durante a abertura do evento, destacando que a transição para um modelo de desenvolvimento sustentável depende conjuntamente do indivíduo, do coletivo, da empresa e do governo. “A viabilidade do velho modelo econômico está ultrapassada. O setor empresarial brasileiro tem demonstrado na prática que é possível ampliar os investimentos em processos mais sustentáveis e economicamente viáveis”, afirmou.

Mercado de carbono

A adoção do modelo de mercado de carbono como instrumento eficiente para estímulo à redução de emissões foi um dos consensos entre os empresários participantes do congresso.   A falta de um engajamento maior do setor público para a aplicação de um sistema, contudo, foi mencionada como um obstáculo a ser superado.

 “Somos a favor da precificação de carbono, e entendemos que a melhor forma de fazer isso é olharmos para o crédito de carbono como uma solução que movimenta a economia. O CEBDS tem liderado essa discussão para que metas de intensidade e previsibilidade para o investimento sejam reguladas e mensuradas”, disse André Lopes de Araújo, presidente da Shell Brasil.

Saneamento

O presidente do Santander Brasil, Sérgio Rial, destacou o alto engajamento da sociedade durante as eleições deste ano, que propicia conscientização da população sobre o seu papel no processo de transformação. O executivo destacou, contudo, que o Estado precisa estabelecer condições básicas para garantir a segurança dos investimentos a serem feitos pelo setor privado, e citou o setor de saneamento como exemplo.

“Por que o setor elétrico cresce? Porque existe um arcabouço confiável e claro e, assim, as empresas vêm investir com retorno aceitável. Por que questão financeira é conturbada quando se trata do saneamento? Porque esse problema não está na nossa tela, mas temos milhões de brasileiros sem água e esgoto”, disse Rial. “É impossível investir no setor sem ter que negociar com 5.600 municípios brasileiros. Assim, o Estado não provê algo fundamental, que é saneamento básico. Não falta dinheiro, não faltam investidores, por isso a sociedade deve se mobilizar”.

As falhas nos sistemas existentes de tratamento de água foram colocadas pela presidente da BRK Ambiental, Teresa Vernaglia.  Ela lembrou que são despejados em rios, mananciais e córregos o equivalente a seis mil piscinas olímpicas de esgoto bruto em todo o País, enquanto 27% dos reservatórios monitorados pela Agência Nacional de Águas (ANA) estão secos.

“A considerar a baixa evolução que tivemos no saneamento nos últimos 10 anos, vamos ter uma grande frota de carros elétricos andando em ruas com esgoto a céu aberto. Essa é a dicotomia, entre tecnologia avançada de energia, por exemplo, e o uso da água”, comparou a executiva.

Energia renovável

O presidente da Vestas Brasil & Cone Sul, Rogerio Zampronha, observou que a energia eólica já representa 9% da matriz energética brasileira. “No ano passado, o volume de emissões de carbono que deixou de ocorrer por causa da fonte eólica é o mesmo que se teria se deixassem de circular 16 milhões de veículos, o que equivale a 85% da frota hoje no estado de São Paulo”.

O diretor de Relações Institucionais da Federação Brasileira de Bancos (Febraban), Mário Sérgio Vasconcelos, apresentou um estudo de viabilidade de financiamento para projetos de energia solar fotovoltaica, realizado em parceria com o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e a Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica (Absolar). “A Febraban vem buscando os caminhos possíveis para uma economia de baixo carbono, e temos avançado nos últimos quatro anos. Cerca de 27% dos empréstimos do setor já são destinados a investimentos de baixo carbono”.

A superintendente de Sustentabilidade e Negócios do Banco Itaú, Denise Hills, estimou que nos próximos cinco anos o setor financeiro no Brasil deverá ter um avanço significativo na incorporação de aspectos socioambientais.

Para André Clark, CEO da Siemens, o Brasil caminha para um powerhouse de geração de energia. “A transição energética passa por três coisas: tecnologia, mudanças climáticas e mercado consumidor. O Brasil foi protagonista em estabelecer marcos, estamos no centro dessas mudanças. Estados Unidos, China e Europa, fazem a transição por causa do carvão. Nós fazemos pelo uso da terra e da água”, compara.

O Sustentável 2018 foi patrocinado pelo Santander, Itaú, Braskem, Philip Morris Brasil, Instituto Clima e Sociedade e Instituto Arapyaú, e contou com apoio da Nespresso, Filtros Europa. O evento terá suas emissões de carbono compensadas, através de compra de créditos de carbono ou plantio de árvores, em parceria com a Neutralize Carbono.

CEBDS premia lideranças femininas em causas sustentáveis  

Durante o Sustentável 2018 aconteceu a cerimônia de entrega do prêmio às vencedoras das três categorias do Prêmio Liderança Feminina: Empresas Associadas, Iniciativa Novas Líderes e Voto Popular. O prêmio reconhece a atuação de mulheres de empresas, organizações do terceiro setor e governo que trabalham em sinergia com um ou mais dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), instituídos pela ONU.

Segundo o Fórum Econômico Mundial, homens e mulheres terão salário e representatividade iguais no mercado de trabalho somente em 2234. O relatório “Global Gender Gap Report 2017” ainda destaca que, em muitos dos países pesquisados, o principal motivo para tanta disparidade econômica é a pura discriminação. Mulheres ocupam a mesma função de homens e ganham menos para desempenhar a mesma tarefa.

“O estudo do Fórum Econômico Mundial analisou, além da disparidade salarial entre homens e mulheres, que a renda masculina está aumentando de forma mais rápida. Enquanto a renda anual de uma mulher em 2017 foi de 12 mil dólares, a média do homem foi de 21 mil dólares. Esses dados por si só justificam a premiação voltada para reconhecer o trabalho das mulheres, tantas vezes invisibilizadas em seus locais de trabalho”, analisa a presidente do CEBDS, Marina Grossi.

O tema, inclusive, faz parte das 10 propostas elaboradas pelo CEBDS, e que estão sendo entregues aos presidenciáveis, dentro da Agenda CEBDS por um País Sustentável, elaborada pelos CEOs das empresas associadas. A proposta de número 10 da Agenda propõe ao poder público visibilidade aos dados quantitativos de cargo, escolaridade e remuneração do funcionalismo público no Portal da Transparência para promover a equidade hierárquica e salarial de gênero e raça.

A inclusão dessa parcela da população na economia e na política tem o potencial de gerar ganhos significativos para os setores públicos e privado. Somente considerando a questão de gênero, se as mulheres tivessem papel semelhantes aos dos homens no mercado de trabalho, observaríamos um incremento de pelo menos US$ 28 trilhões no PIB mundial.

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