Largada para descarbonizar a economia brasileira

Em todas as atividades produtivas, há emissão de gases do efeito estufa (GEE). Mas qual será o custo para empresas e consumidores neutralizarem esse dano? A resposta é essencial para alavancar investimentos na economia verde.

Com o Acordo de Paris já ratificado, o Brasil tem o desafio de concretizar os compromissos assumidos no grande esforço mundial para evitar que a temperatura da Terra se eleve além de 1,5o. C, frente ao parâmetro pré-Revolução Industrial. “É hora de agir para que a economia verde ganhe escala no país. A riqueza dos nossos ativos naturais permite-nos recuperar a competitividade e exercer uma posição de protagonismo na nova ordem econômica que começa a se impor globalmente. Mas precisamos mapear soluções de negócios de baixo carbono e desenvolver propostas objetivas para o setor produtivo, governos e sociedade civil”, afirma Lília Caiado, coordenadora da Câmara Temática de Energia e Mudança de Clima do Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS).

O CEBDS é um dos integrantes da Iniciativa Empresarial em Clima (IEC), que lançou, em 21 de setembro, o Posicionamento sobre Mecanismos de Precificação de Carbono no Brasil – 2016, documento aberto, ao qual a iniciativa privada pode aderir, desde já, pelo endereço https://pt.surveymonkey.com/r/J2QXN83. A IEC é formada ainda pelo Carbon Disclosure Program (CDP), Envolverde, GVCes, Instituto Ethos e Rede Brasil do Pacto Global das Nações Unidas.

Descarbonizar a economia exigirá, em nível global, investimentos anuais da ordem de US$ 5,7 trilhões até 2020, como informa o documento, com base em dados do World Resources Institute (WRI), organização de pesquisa com presença mundial. Além do investimento direto na mitigação do efeito estufa, a IEC aponta a necessidade de precificação do carbono no Brasil, como estímulo à escolha de produtos, serviços e sistemas produtivos menos poluentes. China e Estados Unidos, os dois principais emissores mundiais de gases de efeito estufa (GEE), já possuem instrumentos para essa precificação. E o Brasil também precisa avançar nesse sentido.

O primeiro passo é inventariar as emissões nas diversas cadeias produtivas, incluindo as do setor agropecuário, o maior emitente de GEE no país. A partir daí, o governo pode adotar, dentre outros, o sistema cap-and-trade. Na prática, o poder público estabelece o máximo de emissões em cada cadeia produtiva e distribui “direitos” de emissão para as empresas. Quem otimizar sua produção de modo a emitir menos GEE pode vender o excedente de sua cota para outros ambientalmente menos eficientes. Assim, empresas com processos menos poluentes conseguem manter-se em sua cota ou até mesmo comercializar parte dos seus direitos de emissão, tornando-se naturalmente mais competitivas do que as concorrentes que precisam comprar cotas suplementares.

“A precificação do carbono afetará a maneira de fazer negócios e investimentos, impulsionando um modelo de desenvolvimento favorável à descarbonização. Precificar o carbono é fundamental para um pacto nacional em favor da economia verde, que traz inúmeras oportunidades ao país, inclusive de uma participação mais qualificada no mercado internacional”, acrescenta Lília.

Sua opinião é compartilhada por Glauco Paiva, gerente executivo de Relações Externas, da Shell Brasil, um dos 70 grandes conglomerados nacionais que integram o CEBDS: “Há muito tempo a Shell incentiva os governos a criarem mecanismos de precificação de carbono que apresentem um custo razoável para as emissões de CO2. Esses mecanismos oferecem uma maneira eficaz de estimular o desenvolvimento de tecnologias de baixo carbono e oferecem novas opções energéticas aos consumidores; incentivando a implantação de energias renováveis e a captura e armazenamento de carbono (CAC)”, ele afirma.

O posicionamento da IEC defende, por exemplo, o comércio de emissões, o mínimo de regulações setoriais, tratamentos diferenciados por portes de empresa, reconhecimento dos esforços empresariais para a redução de GEE e monitoramento para evitar “fugas de carbono” por descompassos regulatórios entre os diferentes estados da União.

Linda Murasawa, superintendente executiva de Sustentabilidade do banco Santander, avalia que “incorporar o custo do carbono à dinâmica do mercado permitirá à sociedade fazer escolhas”. Isso porque “a precificação adequada de produtos e serviços, considerando suas externalidades, impulsionará a economia de baixo carbono pelo surgimento de novos modelos de negócio, mais eficientes e rentáveis. A mudança exigirá esforços. E o setor financeiro pode contribuir de maneira fundamental para essa discussão, em virtude do amplo conhecimento de mecanismos de precificação e de formação de mercado, além de ser motor para o desenvolvimento dessa nova geração de negócios”.

Segundo Maria Eugenia Sosa Taborda, gerente de sustentabilidade do banco Itaú Unibanco, a discussão é muito relevante à medida que propõe novas variáveis de risco e de oportunidades de mercado, que precisam ser incorporadas aos modelos do setor financeiro. “Nos últimos cinco anos, as discussões sobre precificação de carbono‎ foram se intensificando. Após o Acordo de Paris, tornou-se uma questão sem volta e é preciso avaliar os impactos nos diferentes setores econômicos. O diálogo entre governo, iniciativa privada e sociedade sobre os parâmetros para a precificação de carbono é essencial nessa transição para a economia de baixo carbono”, diz ela.

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