Manejo sustentável de ostras

Por Vitor Barros Fotos Acervo do Pesquisador

Não são poucas as pesquisas que têm se debruçado sobre o litoral brasileiro e sobre a pressão atual em relação aos seus recursos naturais. Por essa área ter dimensões continentais e por possuir cerca de 700 mil pescadores em atividade, estes estudos buscam verificar quais são os fatores que levam à escassez desses recursos, na tentativa de visualizar soluções para frear sua diminuição. Na Região Amazônica, o crescimento dos centros urbanos e a alta procura pelos recursos pesqueiros provocaram a intensificação da pesca. Combinada à tecnológica, a atividade resultou no aumento da exploração dos recursos pesqueiros.

Como alternativa, a Fundação das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO) adotou a maricultura como uma das estratégias para frear a pressão sobre os recursos marinhos de uso comum em todo o mundo. Apesar de esta prática ainda ser pouco difundida no litoral amazônico, composto por uma extensa floresta de manguezais, o local se mostra propício para tal cultivo.

A Vila de Lauro Sodré, que pertence ao município de Curuçá, no nordeste paraense, é um exemplo de que o manejo sustentável é uma prática viável. A experiência dos catadores de ostras do lugar é relatada pelo mestre em Ecologia pela Universidade Federal do Pará (UFPA) Rafael Diaz, na dissertação As populações pesqueiras e a maricultura: um olhar sobre os processos de diminuição dos recursos pesqueiros no litoral paraense – Resex Mãe Grande de Curuçá. O trabalho foi orientado pela professora Voyner Cañete e apresentado ao Programa de Pós-Graduação em Ecologia Aquática e Pesca (ICB/UFPA).

Rafael Diaz, formado em Oceanografia, tem uma relação afetiva com o litoral paraense de longa data, desde a graduação. Esse interesse o levou a estudar a relação das pessoas com os recursos naturais. No mestrado, ele pôde pesquisar os moradores de Lauro Sodré, cuja principal atividade econômica se baseia no extrativismo e no cultivo de ostras. “O meu trabalho foi conversar com as pessoas que fazem parte de uma associação de catadores de ostras e entender como, de certa forma, elas estão colaborando para a manutenção do recurso ambiental (ostra) no litoral paraense”, completa o pesquisador.

Pesquisador analisou logística e comercialização 

O estudo faz uma reflexão da relação dos associados da Cooperativa Associação de Aquicultores da Vila de Lauro Sodré (Aquavila) com o extrativismo e outras formas de manejo dos recursos pesqueiros à luz dos conceitos da Ecologia Humana e da Ecologia Política. “Percebo a ecologia não apenas com os parâmetros biofísico-químicos do ambiente. A pesquisa deve considerar as pessoas que moram e estão inseridas no contexto estudado. Afinal, a política e a organização social, além dos aspectos ambientais, interferem também na manutenção dos ecossistemas”, avalia Rafael Diaz.

Para a concretização dessa pesquisa, Rafael fez observação direta, colhendo os dados no local. Foram quatro viagens, com estada de uma semana no local. Foram aplicados questionários e realizadas entrevistas com membros da cooperativa. O pesquisador teve a oportunidade de acompanhar o processo completo: do cultivo, passando pela coleta e extração, até a venda dos mariscos. Assim, pôde analisar a logística e as formas de comercialização do produto.

O autor observou duas famílias cujos membros constituem a maior parte dos associados – as famílias Pinheiro e Galvão. “O trabalho de campo possibilitou conhecer melhor essas famílias e seu cotidiano, objetivando entender suas estratégias de manejo dos recursos comuns, sua relação com os mercados e a forma de comercialização dos produtos”, destaca.

São duas as formas de obtenção de ostras, em Lauro Sodré: uma pelo extrativismo e outra pelo cultivo, ambas são formas de manejo. Porém, por vários motivos, incluindo o rápido retorno financeiro e a disponibilidade ainda abundante do recurso, na Vila, a maioria das pessoas opta pelo extrativismo.

Aquicultores temem a exploração desordenada 

Os associados revelam diferentes formas de manejo e o cultivo vem se tornando uma estratégia eficaz para frear a diminuição dos recursos naturais na localidade. De acordo com a dissertação, “os aquicultores entendem o extrativismo como de suma importância para os moradores da vila de Lauro Sodré e acreditam que, quando a atividade extrativista decair, em razão da exploração desordenada, quem vive dessa prática terá que buscar a solução na aquicultura”.

Diante das diferenças na logística de venda e no manejo das ostras, o pesquisador diz que existe uma racionalidade ambiental entre os associados, cuja atividade possui um conjunto de regras, que apresenta aspectos sustentáveis.

Mas esses dados são capazes de mensurar realmente a sustentabilidade desse manejo? Rafael Diaz responde que, considerando o tempo em que se trabalha a maricultura em Lauro Sodré (apenas seis anos), é importante ter cautela ao usar a palavra sustentabilidade. “Observa-se o esforço dos associados para difundir o cultivo e a dedicação na busca por novos pontos. Isso nos faz acreditar em um próspero futuro para esta associação, cujo objetivo é diminuir o extrativismo”, afirma.

Quando a associação foi fundada em 2006, a Aquavila contava com 42 associados, que foram desistindo ao encontrarem obstáculos. Atualmente, a Aquavila apresenta apenas 13 associados (sete homens e seis mulheres), com faixa etária entre 20 e 60 anos. “A falta de incentivos por parte do Estado e a atividade extrativista, ainda muito presente na vila de Lauro Sodré, são vistas como principais fatores para o afastamento dos associados”, acrescenta Rafael Diaz.

A ostra adulta é o principal produto de venda da Aquavila. Os compradores mais assíduos são de Terra Alta, Castanhal, Outeiro e Mosqueiro. Apenas um associado vende para localidades mais distantes, como Marabá e Imperatriz (MA). Há também a venda de ostras na própria vila de Lauro Sodré.