O sonambulismo pode ter surgido como um mecanismo de defesa

Em 1987, o canadense Kenneth Parks, de Toronto, dirigiu 23 quilômetros e assassinou a sua sogra. Aparentemente, ele estava em um estado de sonambulismo, uma teoria reforçada pelo fato de ele não se lembrar do ato e de ter uma excelente reação com a mãe de sua esposa. Já em 2008, um adolescente inglês saltou do 8º andar também enquanto estava dormindo.

O sonambulismo é uma condição que afeta cerca de 4% dos adultos, de acordo com pesquisas recentes. Na maioria das vezes, é algo inofensivo. Tem gente até que faz coisas incríveis nesse estado, como é o caso do artista britânico Lee Hadwin, que produz suas obras enquanto está dormindo.

Nos últimos anos, o número de sonâmbulos está crescendo em todo o mundo, principalmente pelo uso irrefreável de fármacos que induzem o sono. Mas por que será que isso acontece? Por que alguns se tornam perigosos enquanto outros despertam o talento? A ciência tenta descobrir e já possui algumas pistas.

Remédios para dormir ajudam a potencializar o sonambulismo

Sistema de sobrevivência arcaico

Nesses estados, foram observadas áreas ativas em regiões do cérebro envolvidas com o sistema emocional (no sistema límbico) e também na atividade motora (dentro do córtex cerebral). Isso é muito semelhante a quando estamos acordados.

O que diferencia mesmo é que regiões do córtex frontal e do hipocampo, que controlam a racionalidade e a memória, permanecem dormentes. Ou seja, é como se apenas metade de nosso cérebro acordasse e não tivéssemos controles sobre algumas ações. “A parte racional está em estado de sono e não exerce seu controle normal sobre o sistema límbico e o sistema motor”, explica o neurocientista italiano Lino Nobili.

Dessa forma, é como se nosso corpo ativasse um sistema de sobrevivência bastante arcaico, algo que pode ser visto em situações de fuga ou durante uma luta, por exemplo. Mas por que o cérebro se comporta dessa maneira ao invés de acordar por completo? A resposta pode estar em nossos antepassados.

Córtex frontal e hipocampo permanecem dormindo em estados de sonambulismo

Pronto para a ação

Lá no passado, quando ainda vivíamos em tribos nômades, estávamos à mercê de diferentes predadores. Por isso, a hora do sono necessitava de muito mais atenção do que atualmente. Hoje, nossos quartos nos protegem, mas o instinto de preservação inato permanece. Entretanto, quando dormimos em algum lugar novo pela primeira vez, um hemisfério de nosso cérebro permanece mais ativo que o outro, pronto para reagir a qualquer potencial perigo.

Esses surtos de atividade em áreas relacionadas ao sistema motor e límbico podem ocorrer mesmo quando não existe o sonambulismo. “Durante o sono, podemos ter uma ativação do sistema motor, por isso, embora você esteja dormindo e não se movendo, o córtex motor pode estar em um estado igual ao acordado, ou seja, pronto para agir”, diz Nobili. “Se algo realmente der errado e te colocar em perigo, você não precisa da racionalidade do seu lobo frontal para escapar. Você só precisa de um sistema motor pronto”, complementa.

O processo de avisar o corpo qual a hora de acordar em caso de perigo parece não funcionar muito bem em casos de pessoas que sofrem de sonambulismo constanemente, mas esse não deixa de ser um interessante traço da evolução de nossa espécie.

Estado de constante vigília

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