70º Encontro Anual da SBPC – Sociedade Brasileira Para o Congresso da Ciência

 

A abertura do 70º Encontro Anual da SBPC – maior encontro científico do país, foi realizada pela primeira vez em Maceió, no Centro Cultural e de Exposições Ruth Cardoso, em Jaraguá, teve um forte tom político.

 Ao chegar ao campus de Maceió da UFAL, Gilberto Kassab, ministro da Ciência, Tecnologia, Inovação e Comunicações foi recebido por autoridades acadêmicas sob protesto de servidores que pediam mais concursos na área, inclusive para a reposição daqueles que se aposentaram, e a recuperação de verbas para o setor.

A jornalistas, o ministro disse entender e apoiar as reivindicações dos pesquisadores e servidores da área de ciência e tecnologia e afirmou que seu ministério é um dos que menos sofreu com os cortes. 

“Essas mobilizações, por vagas e contra os cortes, têm o nosso apoio. Não há país do mundo que consiga ter crescimento, desenvolvimento econômico e criação de empregos sem o avanço da pesquisa, da ciência e inovação. E esse avanço se dá cada vez mais com a participação do capital privado, mas é imprescindível, sempre foi e vai continuar sendo, a participação dos recursos públicos”.

O ministro também falou sobre a fusão dos ministérios realizada pelo governo Temer, que uniu as áreas de Ciência, Tecnologia e Inovação com Comunicações. A ação é vista como um retrocesso pelos pesquisadores. Para Kassab, houve um resultado positivo para ambas as áreas, com um ganho de visibilidade para as demandas e maior proximidade entre setores estratégicos. 

“O ministro é ministro das duas áreas em conjunto, dificilmente ele teria outra opinião”, afirma Ildeu de Castro Moreira, presidente da SBPC. “A criação do Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação foi uma conquista brasileira depois de décadas de luta, e ele vinha funcionando muito bem. Nós achamos que a fusão não ajudou em nada e trouxe alguns prejuízos. Não se concentrou tanto na ciência quanto deveria”.

“Nós continuamos com a posição de que é mais interessante fazer a separação dos ministérios, já que eles têm objetivos, estruturas e lógicas diferenciadas. É mais justo para o país, pela importância que a área tem. No entanto, nós estamos muito preocupados com uma questão maior de fundo, que é o desmonte do sistema de Ciência e Tecnologia com a redução drástica de recursos”.

O orçamento do MCTI em 2009 era de R$ 7,9 bilhões (R$ 13,4 bilhões em valores atuais). Atualmente o valor disponível é de R$ 4,6 bilhões. 

Na abertura oficial do encontro, estudantes, servidores e pesquisadores vaiaram a participação do ministro da Educação Rossieli Soares da Silva e de representantes do MCTIC e protestaram contra o corte de verbas para os projetos de pesquisa. Também houve manifestações pedindo que o ex-presidente Lula, preso em Curitiba, seja libertado.

O presidente da SBPC, Ildeu de Castro Moreira, deu as boas-vindas ao público destacando que esta edição tem uma carga muito especial por celebrar os 70 anos de vida da instituição, que congrega 140 sociedades científicas de todas as áreas do conhecimento entre suas afiliadas. Mesmo assim, esta é a primeira vez que a reunião é realizada em Alagoas, promovendo uma interação entre a comunidade científica do estado e a nacional.

“A reunião tem sempre esse papel de congraçamento e discussão da comunidade científica, também provoca a interrelação de Alagoas com a comunidade nacional, ao mesmo tempo que fomenta, discute, debate as questões locais e envolve mais a sociedade com a ciência. Nós vivemos um momento muito difícil: a ciência está sofrendo com os cortes drásticos de recursos, então estamos também discutindo na SBPC propostas de políticas públicas para os próximos governos.”, afirmou Ildeu de Castro.

Para o presidente da SBPC, Ildeu de Castro, o objetivo do encontro em Maceió é de desenvolver a produção científica local. “Desejamos que o encontro traga um legado em torno do debate da ciência, tecnologia, educação para o estado. Por isso convidamos toda a população a participar, o encontro é gratuito. O segundo objetivo é debater a situação do país. Somos uma entidade nacional e precisamos pontuar o momento que o Brasil se encontra no que concerne ao período eleitoral e as políticas públicas diante da grave crise que vivemos nas instituições de pesquisas em todo o país”, destacou.

“É de uma importância tamanha, por ser a maior reunião científica de um país e porque não dizer da América Latina. Estamos no septuagésimo encontro da SBPC e comemorando essa data em Maceió, em Alagoas, é um motivo de muito orgulho. De fato, uma oportunidade de conhecer grandes nomes da ciência para nós que fazemos parte da Educação do município”, salientou a titular da Secretaria Municipal de Educação, Ana Dayse Dorea.

Em sessão comemorativa dos 70 anos da SBPC, Kassab reconheceu perante o público de acadêmicos que falta apoio político para a ciência brasileira. 

“Falta apoio político, falta convicção, falta melhor relação com a sociedade para nos ajudar nessa importante missão de mostrarmos para nossas autoridades do campo da economia que eles têm uma visão errada em relação aos resultados que a ciência brasileira pode trazer para a recuperação da nossa economia”.

O físico e ex-presidente da SBPC Sérgio Mascarenhas pediu a palavra e disse para o ministro que ele poderia ser o defensor da ciência nacional, já que está dentro da “ditadura civil do governo Temer”.

“A democracia tem muito a ver com a verdade. E a verdade é que há um desgaste completo da ciência. Não só dela, mas da educação, da inovação. Vossa excelência falou que a inovação está crescendo no país, mas ela está sendo destruída por esse governo. Seria uma coisa maravilhosa se vossa excelência pudesse ser o herói dessa luta e representar verdadeiramente [a ciência]. Gostaria que vossa excelência fosse o herói de acabar com esse marco ilegal da ciência [referindo-se ao slide que mostra a queda de investimentos ao longo dos anos]. Falo como um admirador de sua gestão de acabar com  o marco ilegal da ciência que nós estamos vivendo”.

O ministro não respondeu a Mascarenhas e voltou à Brasília.

Antes, ele, acompanhado de assessores e servidores do MCTIC, visitou os estandes das diversas entidades que participam do evento, como Finep, Marinha, Agência Espacial Brasileira, Cemaden, Inpa, entre outros.

A cada Reunião Anual, a SBPC promove homenagens a cientistas que contribuíram para o desenvolvimento das ciências e da própria Sociedade. Neste ano, os homenageados foram os professores Ana Maria Fernandes e Elisaldo Carlini, o cientista pernambucano José Leite Lopes e a psiquiatra alagoana Nise da Silveira.

Ao entregar a placa aos familiares de Nise, a reitora Valéria Correia destacou sua contribuição à ciência, abrindo as portas da luta antimanicomial. “É preciso imaginação, garra, força e sonho para fazermos as mudanças que Nise pensou para um mundo melhor”, disse a sanitarista Maria José de Almeida Lins, que fez a apresentação da história de Nise da Silveira durante a solenidade.

Assembleia Geral de Sócios da SBPC aprova nove moções

As moções são propostas pelos sócios ativos e votadas na Assembleia Geral de Sócios da SBPC, instância máxima deliberativa da entidade. Os textos aprovados serão revisados pela Diretoria e encaminhados aos dirigentes dos órgãos competentes. Confira abaixo as moções aprovadas:

1)Pela revogação da Lei do Ensino Médio e pela revisão da BNCC do Ensino Médio e pela garantia do cumprimento das metas do PNE  (aprovada por unanimidade);

2)Em defesa da autonomia didático-científica das universidades brasileiras (aprovada por maioria, com 3 abstenções);

3)Repúdio a tentativas de censura, intimidação e restrição da autonomia e liberdade docente (aprovada por maioria, com três abstenções);

4)Em defesa da liberdade de cátedra! Suspensão da Comissão de Sindicância investigativa da UFABC (aprovada por unanimidade);

5)Em defesa dos 25% do Fundo Social do Pré-sal para a Ciência & Tecnologia (aprovada por maioria, com uma abstenção);

6)Contra a privatização das estatais: em defesa da Embraer, Eletrobras e Petrobras (aprovada por unanimidade);

7)Pela descriminalização do aborto (aprovada por maioria, com uma abstenção);

8)Moção pelo fim da guerra às drogas (aprovada por unanimidade); e,

9)Sobre a democracia no Brasil e a prisão de Lula (aprovada por maioria, com duas abstenções e alterações posteriores a serem feitas no texto).

 

Encerramento

No “Dia da Família da Ciência”, a SBPC realizou a cerimônia de encerramento da 70ª edição de sua Reunião Anual, sediada na Universidade Federal de Alagoas (Ufal), em Maceió. Durante a semana, o evento mobilizou toda a comunidade acadêmica, bem como público local. Mais de 12 mil pessoas visitaram a Universidade para participar das atividades do maior evento científico da América Latina. “As pessoas querem, sim, vir para universidade pública”, celebrou a pró-reitora de Extensão da Ufal e coordenadora da SBPC Jovem, Joelma Albuquerque, em seu discurso na cerimônia.

O cenário geral de cortes orçamentário e crise no País não atrapalhou o sucesso desta Reunião Anual. De fato, o balanço geral do evento mostra que o contexto atual incentivou uma mobilização ainda mais intensa de toda a comunidade, para mostrar a pujança da ciência feita no Brasil e, principalmente, para debater os problemas do País e os rumos para a retomada do desenvolvimento científico e social.

Só de inscritos, esta edição teve mais de 4 mil, oriundos de 355 cidades de toda a Federação – 25 estados e Distrito Federal. Um destaque foi a participação na sessão de pôsteres, que teve uma taxa recorde de trabalhos apresentados: 95%. Normalmente as abstenções giram em torno de 10 a 12%. Além disso, a qualidade das apresentações foi bastante ressaltada pelos avaliadores e visitantes, conforme contaram os organizadores.

As atividades da programação científica, sem contar os minicursos, contabilizaram mais de 11 mil participantes. Ou seja, em média, cada sessão teve quase 100 pessoas assistindo. As conferências, em particular, tiveram uma média de público de 135 pessoas a cada apresentação. “Foi um sucesso estrondos esta Reunião”, declarou o secretário-geral da SBPC, Paulo Hoffman, ao apresentar o balanço da semana.

Os coordenadores locais das atividades da Reunião Anual também apresentaram um balanço individual das sessões SBPC Educação, SBPC Jovem, SBPC Afro e Indígena e SBPC Cultural.

Segundo contou a coordenadora da SBPC Educação e pró-reitora de graduação da Ufal, Sandra Regina Paz, mais de 2500 pessoas participaram das atividades realizadas nos campi da Ufal em Arapiraca, Delmiro Gouveia e Maceió, entre os dias 19 e 21 de julho. No total, foram oferecidas 100 atividades, além da apresentação de 270 trabalhos.

Sobre a SBPC Jovem, Joelma Albuquerque estima que 12 mil pessoas visitaram as atividades.

Para a diretora do Núcleo de Estudos Afro-brasileiros (Neab) da Ufal e coordenadora geral da SBPC Afro e Indígena, Lígia Ferreira, realizar este evento dentro da SBPC, nos três campi da Ufal, com 74 atividades científicas e culturais, além de um espaço infantil, foi um desafio possível apenas graças às colaborações e parcerias. “Tivemos 2800 pessoas inscritas. Isto nos dá a noção da importância de um evento como este dentro da SBPC. As comunidades indígenas, quilombolas e do movimento negro ocuparam a nossa Universidade”, afirmou.

Legado

 

“Os frutos desta Reunião Anual da SBPC não vão ser colhidos agora: eles vão amadurecer e se multiplicar muito pelos próximos anos”, avaliou o vice-reitor da Ufal e coordenador da comissão local da RA, José Vieira Cruz. “A Ufal foi aberta à comunidade”, ressaltou.

A reitora da Universidade, Valéria Correia acrescentou que a RA da SBPC foi um “presente” para a Ufal, especialmente neste contexto difícil por que passa o Brasil. “A gente se tornou uma vitrine para o País. O impacto deste evento é imensurável”. Correia também ressaltou a qualidade dos debates, dos temas levantados, que incentivaram a participação massiva dos estudantes e de toda a comunidade nas discussões. Ela também elogiou a coragem da SBPC de propor e conduzir discussões sobre a política nacional atual e a publicação, durante o evento, do “Manifesto SBPC em defesa da CT&I, da Educação, do Desenvolvimento Sustentável e da Democracia no País”. “Esse documento me emocionou. Foi uma SBPC militante em defesa da CT&I, mas principalmente em defesa da educação e das universidades”, afirmou.

Para o presidente da SBPC, essa Reunião teve um papel importante de promover na Ufal uma discussão sobre a política nacional, ao apresentar as propostas de políticas públicas e convidar presidenciáveis para debatê-las.

O “Debate com os presidenciáveis” foi um dos destaques da programação desta Reunião Anual. “A nossa entidade é apartidária, mas não é apolítica. A gente espera que, com essas discussões democráticas envolvendo toda a sociedade, a gente reverta o retrocesso que estamos vivendo em vários domínios da vida social brasileira e construa um país melhor para todos”, enfatizou Moreira.

COMPARTILHAR