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Agrotóxicos aprofundam desigualdades sociais e raciais no Brasil

Foto: Ministério do Desenvolvimento Social

Foto: Sergio Amaral/MDS

O veneno que segue o mapa da desigualdade

A contaminação por agrotóxicos no Brasil não se distribui de forma aleatória. Ela acompanha linhas históricas de desigualdade social, racial e territorial, atingindo com mais intensidade populações que já convivem com a fome, a precarização do trabalho e a ausência de políticas públicas estruturantes. Essa leitura é defendida pela arquiteta e urbanista Susana Prizendt, integrante da Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida e do coletivo MUDA-SP, que há anos atua na interface entre alimentação, território e justiça social.

Segundo a especialista, o uso intensivo de pesticidas no país reproduz um padrão de injustiça ambiental: os danos se concentram sobre trabalhadores rurais, comunidades periféricas e populações negras e indígenas, enquanto os benefícios econômicos permanecem nas mãos de grandes conglomerados do setor agroalimentar. Para ela, não é possível discutir o impacto dos agrotóxicos sem considerar quem são as pessoas mais expostas a esse modelo produtivo.

Na avaliação de Prizendt, a frase “se a fome tem gênero, raça e endereço, o veneno também” sintetiza um fenômeno estrutural. Quem aplica os produtos nas lavouras, quem mora próximo às plantações pulverizadas e quem consome alimentos de baixa qualidade nutricional são, majoritariamente, os mesmos grupos sociais historicamente excluídos do acesso à terra, à renda e à alimentação saudável.

Corpos expostos, lucros concentrados

A crítica ao modelo agroindustrial foi reforçada durante o São Paulo Food Film Fest 2025, evento que exibiu o documentário O Veneno Está na Mesa II, do cineasta Sílvio Tendler. A sessão foi seguida de uma homenagem ao diretor, que morreu aos 75 anos e deixou uma filmografia marcada pelo compromisso com temas sociais, políticos e ambientais.

O documentário expõe como o uso indiscriminado de agrotóxicos se tornou parte central da lógica de produção de alimentos no Brasil. Enquanto grandes empresas acumulam lucros bilionários, trabalhadores rurais lidam diariamente com substâncias tóxicas, muitas vezes sem equipamentos adequados de proteção, e comunidades vizinhas às lavouras convivem com a contaminação do solo, da água e do ar.

Para Prizendt, esse cenário revela uma contradição profunda: o país que se apresenta como potência agrícola global é o mesmo que expõe parte de sua população a riscos sanitários silenciosos. Ela destaca que descendentes de povos negros e indígenas seguem sendo a principal força de trabalho no campo e, ao mesmo tempo, os mais afetados pelos impactos dos venenos agrícolas. São também esses grupos que encontram mais obstáculos para acessar alimentos agroecológicos e livres de contaminação.

A obra de Tendler dialoga com uma tradição crítica inaugurada por pensadores como Josué de Castro, autor de livros fundamentais sobre a fome no Brasil e no mundo. Assim como Castro denunciou a fome como fenômeno político e não natural, O Veneno Está na Mesa II trata a contaminação alimentar como resultado de escolhas econômicas e institucionais.

Foto: Reuters/Davi Pinheiro

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Quando o alimento saudável não chega à mesa

Além da exposição direta aos agrotóxicos, a população vulnerabilizada enfrenta outro problema crescente: a falta de acesso a alimentos in natura e a expansão acelerada dos ultraprocessados. Em muitos territórios, especialmente nas periferias urbanas e em áreas rurais empobrecidas, a oferta de alimentos frescos é limitada, enquanto produtos industrializados dominam prateleiras e feiras.

Prizendt observa que, em diversos locais, sequer há opção de escolha. O avanço dos ultraprocessados substitui frutas, legumes e verduras por alimentos embalados, ricos em açúcar, gordura e aditivos químicos. Esse processo não é fruto de decisões individuais isoladas, mas de uma lógica de mercado que privilegia produtos de longa duração, baixo custo de produção e alto retorno financeiro.

Estudos liderados por pesquisadores da Universidade de São Paulo mostram que a participação dos ultraprocessados na alimentação dos brasileiros mais que dobrou desde os anos 1980. O crescimento está associado a estratégias agressivas de marketing, ao poder das grandes corporações globais de alimentos e à fragilidade das políticas públicas de abastecimento e segurança alimentar.

O dado mais alarmante é que a presença de agrotóxicos não se restringe aos alimentos frescos. Pesquisas demonstram que resíduos dessas substâncias também estão presentes em produtos industrializados amplamente consumidos, inclusive por crianças.

O veneno invisível nos ultraprocessados

Um estudo conduzido pelo Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor revelou que mais da metade dos alimentos ultraprocessados analisados continha resíduos de pelo menos um tipo de agrotóxico. A pesquisa, intitulada Tem Veneno Nesse Pacote, avaliou 27 produtos e encontrou contaminação em categorias como cereais matinais, biscoitos, salgadinhos, bebidas à base de soja e produtos destinados ao público infantil.

Todos os itens que tinham trigo como ingrediente apresentaram resíduos, o que reforça a ideia de que o problema está enraizado na cadeia produtiva e não apenas no consumo final. Para Prizendt, esse dado desmonta a falsa sensação de segurança associada aos alimentos industrializados e evidencia a urgência de repensar o sistema alimentar como um todo.

Ela defende que o combate aos agrotóxicos precisa caminhar junto com políticas de incentivo à agroecologia, à produção local e ao acesso democrático a alimentos saudáveis. Sem isso, o país continuará reproduzindo um modelo em que os riscos recaem sobre os mais pobres, enquanto os lucros seguem concentrados.

A discussão, portanto, não é apenas sobre veneno, mas sobre justiça social, direito à saúde e o futuro da alimentação no Brasil.

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