Emergência climática ameaça a espinha dorsal da saúde global
Ondas de calor letais, tempestades mais intensas, enchentes e tornados não estão apenas transformando paisagens e rotinas: estão colocando em risco direto a capacidade dos sistemas de saúde de funcionar. Um novo alerta internacional aponta que um em cada 12 hospitais no mundo já corre o risco de interromper suas atividades devido a eventos climáticos extremos, um cenário que expõe a fragilidade da infraestrutura sanitária diante do avanço da crise climática.
Os dados constam do relatório Saúde e Mudanças Climáticas: Implementando o Plano de Ação em Saúde de Belém, lançado durante a COP30, em Belém, pelo Ministério da Saúde em parceria com a Organização Mundial da Saúde (OMS). O documento aprofunda o primeiro plano internacional de adaptação climática dedicado exclusivamente à saúde e escancara uma realidade preocupante: as mudanças climáticas já são uma crise sanitária global.
Atualmente, mais de 540 mil pessoas morrem todos os anos em decorrência do calor extremo, enquanto bilhões vivem em regiões altamente vulneráveis a desastres climáticos. A pressão não se limita à demanda por atendimento médico: hospitais e unidades básicas também estão mais expostos a danos estruturais, falhas energéticas, interrupções de abastecimento e colapsos em sistemas de informação.
Hospitais sob pressão: quando o clima interrompe o cuidado
O relatório revela que hospitais enfrentam hoje 41% mais risco de danos climáticos do que em 1990, uma tendência que pode se agravar rapidamente. Sem uma transição acelerada para economias de baixo carbono, o número de unidades de saúde ameaçadas pode dobrar até meados do século.
Eventos recentes ilustram essa vulnerabilidade. No Brasil, tempestades associadas a sistemas climáticos extremos destruíram unidades de saúde, interromperam vacinação, atendimento de gestantes e o acesso a medicamentos. Em alguns casos, até os sistemas digitais de prontuários e dispensação farmacêutica ficaram fora do ar por dias, ampliando o impacto sobre populações já fragilizadas.
Segundo o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, mais de 60% da população mundial já sente os efeitos das mudanças climáticas na saúde, seja por doenças relacionadas ao calor, problemas respiratórios agravados pela poluição ou interrupções no acesso a serviços essenciais. A crise climática atua como um multiplicador de desigualdades, atingindo com mais força comunidades pobres, regiões periféricas e países com menor capacidade de adaptação.

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O paradoxo da saúde: vítima e emissora de carbono
O documento também chama atenção para um paradoxo incômodo: o próprio setor da saúde é responsável por cerca de 5% das emissões globais de gases de efeito estufa. Hospitais altamente dependentes de energia, cadeias de suprimentos longas e uso intensivo de insumos descartáveis fazem do sistema de saúde um ator relevante na crise que ele tenta combater.
Apesar disso, os investimentos globais em adaptação climática para a saúde seguem irrisórios. Apenas entre 6% e 7% dos cerca de US$ 22 bilhões destinados ao enfrentamento das mudanças climáticas são aplicados na adaptação dos sistemas de saúde. O contraste é ainda mais grave quando se observa que bilhões de pessoas vivem em áreas classificadas como altamente vulneráveis aos impactos do clima.
O relatório destaca também lacunas importantes nos planos nacionais de adaptação em saúde. Embora 54% desses planos avaliem riscos às unidades de saúde, menos de 30% consideram a renda como fator de vulnerabilidade, apenas 20% abordam desigualdades de gênero e menos de 1% incluem pessoas com deficiência. Esses dados evidenciam que a adaptação climática ainda ignora dimensões sociais fundamentais.
Caminhos para adaptação: da infraestrutura ao engajamento comunitário
Apesar do cenário alarmante, o relatório sustenta que já existem soluções eficazes, de baixo custo e alto impacto, capazes de fortalecer a resiliência dos sistemas de saúde. Entre 2015 e 2023, o número de países com sistemas nacionais de alerta precoce dobrou, chegando a 101 nações e cobrindo cerca de dois terços da população mundial. Ainda assim, apenas 46% dos países menos desenvolvidos e 39% dos pequenos Estados insulares contam com sistemas realmente eficazes.
O Plano de Ação em Saúde de Belém propõe uma mudança estrutural na forma como saúde e clima são tratados nas políticas públicas. Entre as recomendações centrais estão a integração de metas de saúde às Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs) e aos Planos Nacionais de Adaptação, o uso das economias geradas pela descarbonização para financiar a adaptação sanitária e a capacitação de profissionais.
Outro eixo fundamental é o investimento em infraestrutura de saúde resiliente, capaz de resistir a enchentes, ondas de calor e eventos extremos, além da modernização de sistemas de informação que integrem dados climáticos e epidemiológicos. O relatório também destaca o papel estratégico do conhecimento local e do empoderamento comunitário, reconhecendo que respostas eficazes precisam dialogar com a realidade de cada território.
A mensagem central do documento é direta: adiar ações custa vidas. A crise climática já está moldando o presente da saúde global, e a adaptação deixou de ser uma escolha para se tornar uma necessidade urgente. Proteger hospitais, profissionais e pacientes é, cada vez mais, uma das frentes decisivas da luta contra as mudanças climáticas.