Monitoramento por satélite gera dados que expõe disputa por soberania


A nova fronteira do ESG auditável

O avanço do chamado ESG mensurável transformou dados ambientais em ativo estratégico. Investidores, conselhos administrativos e reguladores exigem métricas auditáveis para comprovar compromissos climáticos e sociais. Nesse cenário, satélites, drones e sistemas de inteligência artificial passaram a sobrevoar o campo com a missão de produzir evidências: mapas de desmatamento, índices de restauração, padrões de uso do solo e rastreabilidade da cadeia produtiva.

O monitoramento remoto tornou-se peça-chave para atender exigências internacionais como o Regulamento da União Europeia sobre produtos livres de desmatamento. Empresas brasileiras que exportam commodities precisam comprovar a origem de seus produtos com precisão geográfica. A pressão por rastreabilidade total intensificou a digitalização do território rural.

O que antes era observado a olho nu agora é capturado por sensores orbitais e algoritmos de deep learning. Dados de alta resolução são processados por plataformas privadas, convertendo paisagens em gráficos e relatórios destinados a investidores globais. A promessa é evitar greenwashing e aumentar a transparência.

Mas a mesma tecnologia que fortalece a credibilidade ambiental também inaugura uma disputa silenciosa: quem controla os dados produzidos sobre a terra?

Assimetria tecnológica e dependência digital

Embora o sensoriamento remoto seja fundamental para sistemas de monitoramento, relato e verificação, existe uma desigualdade evidente no acesso às informações. Pequenos produtores raramente dispõem da infraestrutura ou dos recursos necessários para acessar imagens de alta resolução ou interpretar análises complexas.

Na prática, empresas e plataformas que lideram iniciativas de rastreabilidade assumem a posição de controladoras de dados. São elas que definem como as informações serão coletadas, armazenadas, processadas e compartilhadas. O produtor, ainda que titular de dados pessoais vinculados à propriedade, muitas vezes não tem acesso direto aos relatórios detalhados gerados sobre sua própria terra.

Essa assimetria cria dependência tecnológica. Se um algoritmo identifica suposta irregularidade ambiental ou classifica determinada área como prioritária para restauração, o agricultor pode ter dificuldade para contestar o diagnóstico. Mapas de oportunidade produzidos remotamente nem sempre refletem nuances locais, como práticas tradicionais de manejo ou sazonalidade específica.

Empresas especializadas em soluções ambientais e conglomerados do agronegócio estruturam cadeias de dados que envolvem armazenamento em nuvem, softwares de gestão e compartilhamento com investidores. Quando há múltiplos parceiros tecnológicos, surge o regime de co-controle, ampliando a complexidade sobre quem responde juridicamente pelo tratamento das informações.

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LGPD, RGPD e a redefinição de responsabilidades

No Brasil, a Lei Geral de Proteção de Dados, a LGPD, alterou profundamente o modo como empresas devem estruturar sistemas de monitoramento. A legislação estabelece a figura do controlador, responsável pelas decisões sobre tratamento de dados pessoais, e impõe obrigações de transparência, finalidade específica e segurança.

Na Europa, o Regulamento Geral de Proteção de Dados, o RGPD, segue lógica semelhante e influencia diretamente empresas brasileiras que operam no mercado europeu. A rastreabilidade exigida por compradores internacionais precisa respeitar não apenas critérios ambientais, mas também regras de privacidade.

Isso significa que dados coletados em propriedades rurais — como registros de acesso, informações cadastrais e até dados sensíveis em atividades de ecoturismo — devem ser protegidos com rigor. Empresas são obrigadas a adotar medidas técnicas e administrativas para prevenir acessos não autorizados, vazamentos e usos indevidos.

Os titulares têm direito à confirmação da existência de tratamento, ao acesso, à portabilidade e à eliminação dos dados quando a finalidade for alcançada. No papel, trata-se de uma arquitetura robusta de proteção. Na prática, o desafio está em operacionalizar esses direitos em territórios extensos, com infraestrutura digital limitada e múltiplos intermediários tecnológicos.

Segurança cibernética torna-se componente essencial da agenda ambiental. Sistemas de monitoramento remoto são alvos potenciais de ataques que podem comprometer informações estratégicas e sensíveis. A governança de dados passa a integrar a própria estratégia ESG das corporações.

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Algoritmos, reputação e impacto social

A digitalização acelerada do campo trouxe também o risco de decisões automatizadas baseadas em proxies e modelos estatísticos. Quando a medição direta é complexa, empresas recorrem a indicadores indiretos para estimar impacto socioambiental.

Se o algoritmo falha ou opera com base em dados incompletos, o prejuízo pode recair sobre o elo mais frágil da cadeia. Um relatório impreciso pode comprometer a reputação de um produtor, gerar barreiras comerciais ou restringir acesso a financiamento.

Grandes propriedades costumam contar com monitoramento detalhado e suporte técnico permanente. Já pequenas áreas podem apresentar lacunas de dados que aumentam a margem de erro das análises. A desigualdade informacional se transforma em risco sistêmico.

Além do impacto econômico, existe dimensão social. Comunidades tradicionais podem ter práticas agrícolas classificadas equivocadamente como ineficientes ou ambientalmente inadequadas. Conhecimentos transmitidos por gerações são convertidos em dados processados por sistemas externos, sem que haja clareza sobre como essas informações serão monetizadas.

Protocolos de agricultura regenerativa incorporam critérios culturais e sociais, mas a captura digital do saber local levanta questões sobre propriedade intelectual e consentimento. Se o saber fazer vira ativo de mercado, quem participa dos benefícios?

Transparência com participação

A resposta não está em rejeitar tecnologia, mas em reequilibrar governança. Especialistas defendem que monitoramento remoto seja complementado por validação em campo e auditorias independentes. Preferências e conhecimentos locais precisam integrar ferramentas de análise multicritério.

Transparência não pode significar apenas abertura de relatórios para investidores. Deve incluir comunicação clara com produtores e comunidades, explicando como algoritmos funcionam e como decisões são tomadas.

A soberania de dados no campo não é apenas questão jurídica. É disputa por poder em uma economia cada vez mais orientada por evidências digitais. Se ESG mensurável pretende fortalecer confiança, precisa garantir que a base de dados que sustenta suas promessas seja construída com inclusão, equidade e respeito aos direitos.

Satélites podem ampliar a visão sobre a terra, mas a legitimidade do monitoramento depende de algo que não cabe em imagens orbitais: confiança social. Sem ela, a rastreabilidade que promete transparência corre o risco de aprofundar desigualdades e alimentar novos conflitos no território rural.


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