Diversidade de algas calcárias no Brasil é maior do que o esperado e ainda pode aumentar

Um grupo de pesquisadores apoiado pela FAPESP propôs um novo número de espécies de algas calcárias vermelhas que ocorrem na costa do país. Com aparência mais próxima de rochas do que de plantas, esse grupo é um importante formador de recifes, servindo de abrigo para inúmeras espécies marinhas, além de acumular carbono em sua estrutura, contribuindo para mitigar as mudanças climáticas.

Os trabalhos foram publicados na revista Coral Reefs e no European Journal of Phycology.

O sequenciamento genético de exemplares coletados ao longo do litoral e das ilhas oceânicas brasileiras apontou que pelo menos 79 espécies ocorrem no Brasil. O trabalho possibilitou ainda mapear a distribuição dessas algas e apontar regiões com maior importância para conservação. O grupo também descreveu sete novas espécies e um novo gênero, cujos nomes homenageiam povos originários de cada região em que as algas foram encontradas.

Os pesquisadores esperam descrever outras espécies no futuro próximo. Como a maior parte das coletas tem sido realizada em águas rasas, há toda uma diversidade desconhecida em profundidades maiores.

“Essas algas são as maiores formadoras de recifes do Atlântico Sudoeste. O único atol do Brasil, o das Rocas [no Rio Grande do Norte], por exemplo, é majoritariamente construído por elas, diferentemente de outros que são formados por corais”, conta Marina Nasri Sissini, primeira autora do artigo publicado na Coral Reefs. Ela realizou os trabalhos como parte de seu doutorado no Programa de Pós-Graduação em Ecologia na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

A pesquisadora acrescenta, ainda, que ao longo da plataforma continental do Brasil há extensos bancos de rodolitos, nódulos de algas calcárias que vivem soltas no substrato marinho, que ocupam cerca de 230 mil quilômetros quadrados de extensão, segundo estimativas.

“As algas calcárias depositam carbonato de cálcio nas suas paredes celulares e por isso ficam duras. Podem ter diferentes formas, entre elas a versão ramificada, como outras algas mais conhecidas, porém, com os ramos rijos. Podem ainda formar crostas aderidas a pedras, cascos de tartaruga, baleias e mesmo outras macroalgas”, explica Mariana Cabral de Oliveira, professora do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (IB-USP), uma das coordenadoras dos estudos.

Os rodolitos, por sua vez, se formam quando as algas aderem a algo como um pedaço de concha e formam um nódulo que vai crescendo, tornando-se uma esfera muito parecida com uma pedra, porém viva.

O estudo integrou o projeto “Diversidade e filogenia de algas vermelhas (Rhodophyta) de importância econômica e ecológica”, apoiado pela FAPESP no âmbito do Programa BIOTA e coordenado por Oliveira.

Plantas rígidas

Analisar estruturas e diferenciar um espécime de outro de um organismo duro como pedra e com formatos muito parecidos entre si pode ser uma tarefa e tanto. Não à toa, muitos inventários de algas da costa brasileira feitos nas últimas décadas deixaram de lado as algas calcárias.

“Foram feitos muitos levantamentos das algas presentes em determinadas regiões, mas normalmente excluindo as algas calcárias”, lembra Oliveira, que estuda algas há mais de 30 anos.

Entre as técnicas para estudar essas plantas marinhas, uma consiste em descalcificar cada exemplar com um solvente especial e cortá-lo cuidadosamente, a fim de visualizar estruturas internas, como as reprodutivas, que normalmente diferenciam uma espécie de outra.

Estudos usando técnicas como essa, somados a outros com ferramentas moleculares, permitiram estabelecer 73 espécies para a costa brasileira, 30 delas descritas apenas nos últimos dez anos. Porém, ainda restam muitas incertezas.

“Espécimes que visualmente eram idênticos, na verdade, tinham até 10% de diferença quando comparadas as sequências genéticas, o que é mais do que suficiente para separá-los em mais de uma espécie”, relata Sissini.

Um dos trabalhos publicados agora serviu justamente para unir os esforços de grupos de pesquisa que realizaram coletas em uma grande extensão do litoral brasileiro para responder quantas espécies, de fato, existem no Brasil. Além de São Paulo e Santa Catarina, os trabalhos têm entre os autores pesquisadores da Bahia e do Rio de Janeiro.

Os sequenciamentos indicaram 79 unidades taxonômicas, equivalentes a espécies. No entanto, ainda é preciso realizar descrições da forma tradicional, comparando a morfologia, buscando descrições antigas e nomes que já foram utilizados.

O estudo apontou ainda que das quatro chamadas ecorregiões da América do Sul, a Leste, que vai do sul da Bahia ao norte do Rio de Janeiro, possui a maior biodiversidade. São 50 espécies nessa região, 21 exclusivas daquelas águas. Para a costa americana do Atlântico, a diversidade marinha nessa região só é menor que a do Caribe.

Algas originárias

No trabalho publicado no European Journal of Phycology, sete novas espécies foram descritas, todas pertencentes ao gênero Roseolithon, também descrito na publicação. Os pesquisadores determinaram, porém, que pelo menos outras 18 espécies compõem o gênero.

Até então, as espécies eram tidas como pertencentes ao gênero Lithothamnion, mas análises moleculares revelaram que uma parte das espécies possui outro ancestral, o que justifica um novo gênero para elas. A descrição de Roseolithon foi possível por meio da análise de exemplares coletados do Atlântico Noroeste e Sudoeste. Ao integrar os dados moleculares com os morfológicos, o grupo propôs as sete novas espécies, mas acrescenta que novas ainda serão descritas.

“Inicialmente, a descrição do gênero Roseolithon foi feita por meio de diferentes marcadores moleculares. Depois, partimos para as análises morfológicas, a fim de encontrar detalhes morfoanatômicos que pudessem ajudar na descrição do novo gênero e das sete espécies descritas no trabalho. A descoberta do novo gênero mostra o quanto o conhecimento sobre diversidade das algas calcárias no Brasil ainda é insuficiente, apesar do seu importante papel ecológico”, diz Luana Miranda Coutinho, primeira autora do artigo, realizado durante doutorado no Museu Nacional, do Rio de Janeiro.

“O próximo passo é descrever e confirmar a existência de outras espécies desse gênero, além da descrição de outros táxons de algas calcárias que já foram definidos nas análises moleculares para a costa do Brasil. Esses trabalhos só foram possíveis graças à colaboração de pesquisadores e alunos”, completa Maria Beatriz Barbosa de Barros Barreto, professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), que coordenou o trabalho.

As novas espécies homenageiam os povos originários das regiões em que foram encontradas. Para nomeá-las, o grupo contou com a colaboração de uma antropóloga. São elas Roseolithon tupiiR. tamoioiR. tremembeiR. potiguaraeR. karaiborumR. purii e R. goytacae.

“Essas algas são também originárias, mais precisamente dos mares do Cretáceo [período geológico entre 145 milhões e 65 milhões de anos atrás]. Elas sobreviveram a extinções em massa, fazem parte dos grupos mais antigos dos mares”, informa Sissini, da UFSC.

Para as pesquisadoras, a descoberta de tamanha diversidade é um lembrete de que as estratégias de conservação precisam considerar as particularidades de cada região, considerando que existe uma conectividade entre elas que precisa ser preservada.

Intensamente exploradas no passado para a extração de calcário, usado para corrigir solos ácidos para a agricultura, essas algas são reconhecidas ainda como grandes depósitos de carbono, uma vez que imobilizam em suas paredes celulares o gás carbônico diluído no oceano e contribuem para mitigar as mudanças climáticas. Ao serem retiradas, mandam de volta o carbono para a atmosfera.

O artigo Diversity, distribution, and environmental drivers of coralline red algae: the major reef builders in the Southwestern Atlantic pode ser lido em: link.springer.com/article/10.1007%2Fs00338-021-02171-1.

A publicação Cryptic diversity in non-geniculate coralline algae: a new genus Roseolithon(Hapalidiales, Rhodophyta) and seven new species from the Western Atlantic está disponível para assinantes no link: www.tandfonline.com/doi/full/10.1080/09670262.2021.1950839.

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