Interligações ampliam acesso à energia na Amazônia Legal


Energia para além dos rios e estradas

Na Amazônia, levar energia elétrica nunca foi apenas uma questão técnica. É uma operação que envolve rios extensos, comunidades dispersas, floresta densa, altos custos logísticos e dependência histórica de geradores movidos a diesel. Durante décadas, milhares de famílias viveram à margem do Sistema Interligado Nacional (SIN), abastecidas por sistemas isolados caros, poluentes e vulneráveis.

Desde 2023, o programa Energias da Amazônia tenta redesenhar esse cenário. Lançada pelo Governo do Brasil, a iniciativa já realizou 13 interligações ao SIN, beneficiando mais de 500 mil consumidores na Amazônia Legal. A proposta é acelerar a transição energética em áreas isoladas, substituindo gradualmente fontes fósseis por soluções renováveis, como energia solar e sistemas híbridos.

O desafio é estrutural. A região concentra comunidades ribeirinhas, cidades de médio porte e localidades remotas que não se conectam facilmente às grandes linhas de transmissão. O custo de transportar combustível por longas distâncias encarece a geração elétrica e pressiona as contas públicas por meio de subsídios.

Ao ampliar as interligações e incentivar novos modelos de geração, o programa busca reduzir a dependência do diesel, diminuir emissões de gases de efeito estufa e aumentar a segurança do fornecimento. Trata-se de uma política que combina infraestrutura, planejamento energético e inclusão social.

Interligações e novos investimentos

O ciclo 2023-2027 prevê um conjunto de interligações concluídas e programadas, consolidando a expansão do SIN sobre áreas antes atendidas por sistemas isolados. A integração não significa apenas estabilidade elétrica, mas também redução de custos operacionais e ambientais no médio prazo.

Em 2025, o leilão de sistemas isolados contratou 50 megawatts de potência, com investimento de R$ 312 milhões. Os projetos devem atender cerca de 30 mil pessoas em localidades remotas do Amazonas e do Pará. A estratégia combina geração renovável com soluções híbridas, adaptadas às condições locais.

Os leilões são um dos quatro instrumentos legais que estruturam o programa. Além deles, estão a sub-rogação da Conta de Consumo de Combustíveis (CCC), que permite reequilibrar custos da geração nos sistemas isolados, e o Pró-Amazônia Legal, que articula políticas de desenvolvimento regional. Também integram o conjunto os leilões de transmissão, fundamentais para expandir a rede física.

Segundo o Ministério de Minas e Energia (MME), o foco está em fortalecer sinergias entre diferentes políticas públicas, evitando ações fragmentadas. A lógica é transformar planejamento em entrega concreta: obras executadas, linhas energizadas, comunidades conectadas.

Ao integrar novos empreendimentos ao SIN, o programa cria condições para substituir progressivamente geradores a diesel por fontes renováveis. Em áreas onde a interligação não é viável no curto prazo, a aposta recai sobre sistemas solares com armazenamento e soluções híbridas que combinam diferentes matrizes.

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Transição energética com dimensão social

A secretária substituta de Transição Energética e Planejamento do MME, Lorena Perim, tem destacado que a Amazônia impõe desafios únicos. Logística complexa, dispersão territorial e custos elevados exigem soluções específicas. A redução do uso de diesel representa não apenas corte de emissões, mas também maior previsibilidade no abastecimento e menor vulnerabilidade a falhas no transporte de combustível.

Para a diretora do Departamento de Transição Energética do MME, Karina Araújo, o programa entra agora em fase decisiva. A etapa inicial de estruturação institucional e criação de instrumentos regulatórios abre espaço para consolidar resultados e ampliar impactos permanentes.

A transição energética na Amazônia tem dimensão social explícita. Energia elétrica está associada a serviços de saúde, refrigeração de vacinas, funcionamento de escolas, conectividade digital e geração de renda local. Em muitas comunidades, a instabilidade do fornecimento limita atividades produtivas e compromete a qualidade de vida.

Ao reduzir interrupções e melhorar a segurança do suprimento, o programa cria ambiente mais favorável ao desenvolvimento econômico regional. Pequenos negócios, cooperativas e serviços públicos dependem de energia estável para operar. A expansão do SIN pode, portanto, desencadear efeitos indiretos sobre educação, saúde e bioeconomia.

Reprodução

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Governança e cooperação internacional

Os avanços do Energias da Amazônia foram debatidos no Workshop Energias da Amazônia, realizado em Manaus pelo Ministério de Minas e Energia em parceria com a Aliança Global de Energia para Pessoas e Planeta (GEAPP) e a Fundação Amazônia Sustentável (FAS). O encontro aprofundou discussões sobre a dimensão social da transição energética e sobre caminhos para torná-la justa e inclusiva.

A cooperação com a GEAPP sinaliza a inserção do programa em uma agenda internacional mais ampla, voltada a ampliar acesso à energia limpa em regiões vulneráveis. Já a atuação da FAS reforça o diálogo com organizações que conhecem a realidade amazônica no território.

Criado para enfrentar a histórica dependência de sistemas isolados, o programa opera em um contexto de transformação global do setor elétrico. A transição energética deixou de ser apenas pauta ambiental e passou a integrar estratégias de desenvolvimento e competitividade.

Na Amazônia, essa transição assume contornos próprios. Não se trata apenas de substituir fontes fósseis por renováveis, mas de integrar comunidades dispersas a uma rede nacional de infraestrutura. A ampliação das interligações ao Sistema Interligado Nacional reduz desigualdades regionais e fortalece a coesão territorial.

O sucesso do programa dependerá da capacidade de manter investimentos, garantir execução eficiente e adaptar soluções às especificidades locais. A experiência acumulada no ciclo 2023-2027 poderá orientar novas etapas, ampliando o alcance das interligações e consolidando a matriz renovável.

A Amazônia, historicamente associada a desafios energéticos e custos elevados, passa a ocupar papel estratégico na agenda de transição energética brasileira. Ao beneficiar mais de 500 mil consumidores, o programa demonstra que políticas públicas articuladas podem transformar limitações geográficas em oportunidades de inovação e inclusão.


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