Natureza ameaçada coloca economia global em risco trilionário


Natureza no vermelho: quando o lucro ameaça a própria base da economia

A economia global sempre se orgulhou de sua capacidade de inovação, adaptação e crescimento. No entanto, há décadas ela vem corroendo silenciosamente o alicerce que sustenta toda atividade produtiva: a natureza. O alerta, que antes era visto como bandeira de ambientalistas, ganhou contornos incontornáveis após a recente avaliação da Plataforma Intergovernamental sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos, a IPBES, endossada por mais de 150 governos. O recado foi direto: ou o setor privado lidera a transição para uma economia sustentável ou arrisca sua própria extinção.

Não se trata de retórica alarmista. Cinco anos atrás, o economista Partha Dasgupta já havia descrito o sistema econômico como um organismo que se alimenta dos próprios órgãos vitais, consumindo ecossistemas como se fossem infinitos, enquanto quase nada investe em sua regeneração. Desde então, pouco mudou na essência. A degradação ambiental segue avançando em ritmo superior à capacidade de reposição da Terra. Se nada for feito, as perdas podem alcançar US$ 2,15 trilhões nos próximos cinco anos.

A natureza como ativo invisível

O paradoxo é evidente. Nenhum conselho de administração toleraria a dilapidação de ativos estratégicos sem reposição. Empresas não queimam caixa indefinidamente, não desmontam suas fábricas sem investir em manutenção, nem esgotam talentos sem formar substitutos. Contudo, quando o ativo em questão é a natureza — solos férteis, água doce, florestas, biodiversidade — o comportamento tem sido exatamente esse.

Desde 1992, o capital produzido por pessoa mais que dobrou no mundo. No mesmo período, o estoque de capital natural caiu cerca de 40%. A conta não fecha. O sistema contábil tradicional não incorpora de forma adequada o valor dos serviços ecossistêmicos. Assim, destruir ainda é, no curto prazo, mais rentável do que preservar. Subsídios bilionários continuam financiando atividades que degradam florestas, contaminam rios e exaurem o solo.

O risco já foi reconhecido por fóruns que raramente soam alarmes infundados. O Fórum Econômico Mundial posiciona a perda de biodiversidade como o maior risco global de longo prazo, à frente de conflitos geopolíticos e tensões comerciais. No Reino Unido, autoridades de segurança nacional alertam que o colapso de ecossistemas pode gerar escassez de alimentos, secas prolongadas e ondas migratórias desestabilizadoras.

Não é apenas uma crise ambiental; é uma ameaça sistêmica. Cadeias de suprimentos atravessam fronteiras, e a natureza tampouco respeita limites políticos. O desmatamento na Amazônia impacta regimes de chuvas que alimentam lavouras e reservatórios muito além da floresta.

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Oportunidade bilionária além do risco

Se o risco é gigantesco, a oportunidade também é. As Nações Unidas estimam que entre US$ 563 bilhões e US$ 5,7 trilhões em potenciais lucros farmacêuticos ligados a medicamentos oncológicos ainda podem estar escondidos em espécies marinhas não estudadas. Cada ecossistema preservado pode ser um laboratório vivo de inovação.

No setor de alimentos, a transformação já começou. O Good Food Institute contabiliza mais de 2.000 empresas dedicadas a proteínas alternativas, buscando cadeias produtivas mais resilientes, com menor uso de terra, água e emissões de carbono. A motivação é pragmática: garantir insumos estáveis num mundo de extremos climáticos e volatilidade.

Grandes companhias começam a reconhecer que reputação não é suficiente; é preciso integrar a natureza à estratégia central. Mais de 600 empresas já se comprometeram a adotar relatórios relacionados à natureza, enquanto 150 organizações trabalham com metas científicas para reduzir impactos ambientais. A União Europeia deu um passo relevante ao exigir que empresas divulguem seus impactos sobre a natureza pela primeira vez.

Investidores também se movimentam. O Deforestation Investor Group pressiona por mitigação de riscos associados ao desmatamento dentro de portfólios financeiros. O Instituto de Liderança em Sustentabilidade de Cambridge, o CISL, em parceria com bancos asiáticos e com apoio da Monetary Authority of Singapore, desenvolve metodologias para traduzir dependências ambientais em decisões concretas de crédito e concessão de empréstimos.

Natureza como estratégia de sobrevivência

Apesar dos avanços, relatórios e compromissos voluntários não bastam. Transparência é ponto de partida, não linha de chegada. Sem mudanças estruturais nos incentivos de mercado, a lógica de curto prazo continuará prevalecendo.

A IPBES sintetizou um amplo conjunto de evidências científicas e conhecimentos indígenas para oferecer caminhos práticos ao setor privado e financeiro. O desafio é transformar complexidade em ação. Empresas já lidam diariamente com volatilidade cambial, ciberataques e instabilidade geopolítica. Incorporar risco ambiental à gestão não deveria ser diferente.

Alguns líderes empresariais já reconhecem essa urgência. Dave Lewis, CEO da Diageo, escreveu recentemente que conselhos de administração precisam tratar o risco relacionado à natureza como central para a viabilidade e lucratividade do negócio. A mensagem é clara: proteger ecossistemas não é filantropia, é estratégia competitiva.

Isso implica revisar cadeias de suprimentos, investir em modelos regenerativos e usar influência corporativa para pressionar governos. Políticas públicas continuam desempenhando papel crucial. Reformar subsídios que premiam a degradação, punir desmatamento ilegal e poluição, direcionar compras governamentais para fornecedores sustentáveis e simplificar regulações que viabilizem soluções ambientais são medidas indispensáveis.

Foto: MMA/X

 

 

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Um novo pacto econômico com a natureza

A discussão já ultrapassou fronteiras ideológicas. O que está em jogo é a própria base material da economia. A natureza não é um setor isolado; ela é o sistema operacional invisível de todas as indústrias. Sem polinizadores, não há agricultura. Sem florestas, não há estabilidade climática. Sem oceanos saudáveis, não há pesca nem reservas genéticas para inovação farmacêutica.

Empresas que ignorarem essa realidade podem enfrentar escassez de matérias-primas, aumento de custos, perda de acesso a capital e erosão da confiança do consumidor. Investidores começam a exigir estratégias ambientais robustas como critério para financiamento. Competitividade de longo prazo já está sendo associada à capacidade de operar dentro dos limites planetários.

O momento exige abandonar a visão de natureza como estoque infinito e reconhecê-la como ativo estratégico crítico. Proteger florestas, restaurar ecossistemas e preservar biodiversidade não são apenas agendas ambientais; são decisões racionais de gestão de risco.

A escolha é binária e urgente: liderar a transição para um modelo econômico regenerativo ou assistir à erosão gradual da própria base de prosperidade. No fim, a natureza não negocia prazos. Ela responde a estímulos físicos, químicos e biológicos. A economia, por sua vez, terá de aprender que lucro e preservação não são forças opostas, mas faces da mesma equação de sobrevivência.


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