Redução dos investimentos e aumento do custo de capital pressionam a oferta de combustíveis

Após o afundamento dos preços do petróleo e derivados em 2020 causado pelo severo avanço da pandemia da covid-19, veio a vertiginosa escalada dos preços das commodities.

Tal qual um tsunami, onde num primeiro momento o mar recua, a “onda gigante” de preços chegou e tomou conta dos mercados globais. Apesar dos fortes traços conjunturais, este pode ser um movimento frequente na esteira da transição energética.

conferência climática COP26, em Glasgow (Escócia), expôs o tradicional senso de urgência sobre as mudanças climáticas e uma grande ambição na redução do consumo de energia fóssil no mundo, com muitas promessas de neutralidade de carbono até 2050.

Com certa ironia, à porta da conferência de Glasgow, estava uma crise de energia atingindo a Europa e a Ásia.

O desequilíbrio entre oferta e demanda, em um mercado ainda atípico e impactado pela pandemia, causou uma disparada nos preços do gás natural e do carvão, fazendo com que a China impusesse um racionamento de eletricidade e fechamento de fábricas locais.

As cadeias de suprimento cambalearam, a escassez de variados materiais, dependentes da produção chinesa, aumentou.

Na Europa, a crise de energia foi agravada pela menor produção de energia eólica no Mar do Norte. Ventou menos do que o esperado e a geração de eletricidade das turbinas eólicas offshore precisou ser compensada por outras fontes.

Os preços do gás, carvão e energia dispararam.

O GNL ficou até sete vezes mais caro. Com custos repentinamente elevados de energia, muitas fábricas europeias pararam de produzir, por não terem como arcar ou repassar os custos adiante. A complexa teia energética global gerou um efeito cascata.

Acompanhando os demais combustíveis, os preços do petróleo alcançaram a faixa de US$ 80, com a OPEP agindo de forma coordenada para manter a oferta e demanda estreitas. Os preços dos derivados atingiram níveis preocupantes.

A pressão motivou o governo dos EUA, de Joe Biden, a pedir, sem sucesso, à Arábia Saudita e à Rússia que colocassem mais petróleo no mercado.

Na busca por alívio, o governo dos EUA anunciou a liberação de parcela relevante de sua reserva estratégica de petróleo, em coordenação com outros países, para moderar os preços. Medida que não se sustenta nos médio e longo prazos.

O estresse de preços é uma constante no mercado de petróleo desde a sua origem. O cenário atual, contudo, é diferente.

As metas de redução de carbono na atmosfera amplificam as incertezas e têm reduzido o financiamento e o investimento global em óleo e gás de forma prematura.

O choque de energia de 2021 é resultado de uma conjunção de circunstâncias? Ou é a primeira de várias crises que se terá pela frente em virtude de uma redução da oferta de fósseis antes de se reduzir a demanda?

Segundo dados da Rystad (OGJ, 2021), os investimentos em E&P caíram à metade desde o último pico observado em 2014, conforme gráfico da figura 1.

Essa queda no capex, associada a bancos europeus e instituições financeiras internacionais “banindo” o financiamento aos hidrocarbonetos, traz preocupações sobre a oferta futura de óleo e gás.

As fontes renováveis teriam que crescer mais rápido e a preços menores do que o declínio da oferta de hidrocarbonetos, caso contrário os preços da energia como um todo terão viés de alta.

Figura 1 – Histórico de investimentos em E&P no mundo de 2010 a 2021. Fonte: Rystad Energy, em OGJ (2021)
Figura 1 – Histórico de investimentos em E&P no mundo de 2010 a 2021. Fonte: Rystad Energy, em OGJ (2021)

A precificação do carbono

Na conferência de Glasgow apontou-se para o mercado de créditos de carbono como um acelerador da transição energética.

Ainda incipiente, um mercado global de carbono poderá surgir nos próximos anos. O Brasil, por exemplo, tem um programa setorial que é o Renovabio, que pode ser o embrião de um programa nacional.

A Europa está se movendo para estabelecer uma tarifa sobre o carbono nos produtos comercializados no continente, avaliando a quantidade de carbono emitida na fabricação de um produto.

O bloco vê essas tarifas como uma forma de garantir que suas políticas e valores sobre as mudanças climáticas sejam adotados globalmente, ao mesmo tempo em que oferece proteção às indústrias europeias, sujeitas a custos mais elevados devido ao preço do carbono.

precificação do carbono está começando sobre um número limitado de produtos, mas a lista deve expandir nos próximos anos.

Diversos países estão refletindo sobre o valor do carbono emitido na atmosfera. Para muitas nações em desenvolvimento, as medidas europeias significam produtos mais caros e com impacto inflacionário.

A transição da escassez

Ao longo da história, as transições de energia têm sido difíceis e a atual é ainda mais desafiadora do que qualquer mudança anterior. As transições de energia anteriores foram “adições de energia” – uma fonte somando-se a outra.

O viés era aumentar a oferta de energéticos concorrentes a preços competitivos. A atual transição de energia almejada aparenta ser totalmente diferente.

Em vez de um acréscimo de energia, supõe-se que seja uma mudança quase completa da base energética da atual economia mundial, que obtém 83% de sua energia derivada do carbono (ver figura 2).

Pretende-se que haja um sistema de energia livre de carbono líquido em menos de 30 anos. A depender da condução, pode-se limitar a oferta de fósseis a ponto de se ter uma transição marcada pela escassez da oferta, enquanto se almeja que ela ocorra por redução natural e econômica da demanda.

Figura 2 – Consumo primário de energia no mundo. Fonte: BP, 2021
Figura 2 – Consumo primário de energia no mundo. Fonte: BP, 2021

Existem sinais apontando que o que se está construindo é uma redução da oferta de fósseis antes que se tenha condições de reprimir a demanda de forma econômica.

Redução dos investimentos, encarecimento do crédito, precificação de carbono, entre outros, pressionam a oferta de combustíveis fósseis.

A persistir, ter-se-á um constante choque de energia cara no mundo, agravando o acesso à energia e a desigualdade social.

Seria esse seja o preço a se pagar para se evitar mudanças climáticas ainda mais severas? Se o mar recuar, fique atento. A próxima onda de choque deve estar a caminho.

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