Pará cruza a fronteira do discurso e entra no jogo global do carbono
O Pará acaba de dar um passo que reposiciona o estado no centro do debate climático internacional. Ao receber a aceitação formal do Architecture for REDD+ Transactions (ART), por meio do padrão TREES, o governo paraense avançou decisivamente para emitir créditos de carbono jurisdicionais no mercado voluntário — um movimento que transforma compromissos ambientais em ativos econômicos de alta integridade.
A confirmação enviada pelo ART atesta que os documentos de registro e monitoramento apresentados pelo Estado estão completos e atendem aos requisitos exigidos nesta fase do processo. Na prática, isso significa que o Pará superou uma das etapas mais rigorosas da certificação internacional, abrindo caminho para a publicação oficial dos dados e o início das fases seguintes de validação.
O reconhecimento internacional não surge do nada. Ele é resultado de uma combinação entre monitoramento ambiental, governança climática e uma estratégia de longo prazo para estruturar um sistema jurisdicional de REDD+ capaz de dialogar com o mercado global sem abrir mão de critérios socioambientais.
O que está em jogo: 38 milhões de toneladas e um novo patamar de credibilidade
Os documentos submetidos pelo Pará comprovam a redução de 38 milhões de toneladas de dióxido de carbono equivalente (CO₂) apenas no ano de 2023. Esse volume, por si só, já coloca o estado entre os principais potenciais ofertantes de créditos jurisdicionais do mundo no mercado voluntário.
Mais do que o número absoluto, o que diferencia o caso paraense é a escala jurisdicional. Ao contrário de projetos isolados, o Sistema Jurisdicional de REDD+ do Pará abrange todo o território estadual, integrando políticas públicas, monitoramento oficial e compromissos assumidos pelo poder público. Esse modelo reduz riscos de dupla contagem, aumenta a transparência e fortalece a confiança de compradores internacionais.
Com base nos resultados já alcançados e na estruturação institucional em curso, a projeção do governo estadual é ambiciosa: alcançar até 260 milhões de toneladas em créditos de carbono até 2027. Se confirmada, essa escala colocará o Pará como um dos principais protagonistas globais no fornecimento de créditos florestais de alta integridade.
Esse avanço é coordenado pela Secretaria de Meio Ambiente e Sustentabilidade do Pará (SEMAS), que lidera a implementação das políticas climáticas e a articulação com organismos internacionais de certificação.

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Do mercado à floresta: dinheiro só vem depois da escuta
Apesar do avanço técnico e institucional, a comercialização dos créditos não ocorrerá de forma imediata. O governo do Pará estabeleceu como شرط central a conclusão das Consultas Livres, Prévias e Informadas (CLPIs), conforme determinam tratados internacionais e a legislação brasileira sobre os direitos de povos indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais.
Atualmente, o estado conduz o maior processo de consultas prévias de sua história. Estão previstas 47 consultas em diferentes regiões, das quais 15 já foram realizadas. O objetivo é garantir que os grupos diretamente impactados pelo Sistema Jurisdicional de REDD+ compreendam o modelo, participem das decisões e tenham seus direitos respeitados.
Essa etapa não é apenas um requisito formal. Ela define a legitimidade social do sistema e a própria sustentabilidade política do mercado de carbono no estado. Sem escuta qualificada, não há crédito confiável. Sem participação social, não há integridade ambiental reconhecida.
A experiência recente mostra que compradores internacionais estão cada vez mais atentos a critérios sociais, exigindo garantias de repartição justa de benefícios e respeito aos modos de vida tradicionais. O Pará parece ter entendido esse recado ao colocar as CLPIs como condição prévia à venda dos créditos.
Acordos, bilhões e o novo papel do Pará no mercado climático
O potencial econômico desse movimento já começou a se materializar. Em 2024, durante a Semana do Clima de Nova Iorque, o Pará firmou um acordo inédito para a venda de 12 milhões de toneladas em créditos de carbono jurisdicionais. O valor estimado da transação se aproxima de R$ 1 bilhão, tornando-se uma das maiores negociações do gênero envolvendo um governo subnacional.
Considerando as 38 milhões de toneladas certificadas referentes a 2023, isso significa que ainda restam cerca de 26 milhões de toneladas disponíveis para futura comercialização, condicionadas à conclusão das consultas e às etapas finais da certificação internacional.
O reconhecimento do ART – Architecture for REDD+ Transactions é um selo que vai além do aspecto técnico. Ele sinaliza ao mercado que o Pará está disposto a jogar segundo regras rígidas, com transparência, monitoramento contínuo e compromissos públicos verificáveis.
No cenário global, em que o mercado voluntário de carbono busca se recredibilizar após críticas sobre greenwashing e baixa integridade, experiências jurisdicionais como a do Pará tendem a ganhar centralidade. O estado deixa de ser apenas um território pressionado pelo desmatamento e passa a ocupar um lugar estratégico como fornecedor de soluções climáticas.
O desafio agora é transformar esse avanço institucional em benefícios concretos para a população local, garantindo que os recursos gerados pelo carbono retornem em forma de proteção florestal, desenvolvimento sustentável e fortalecimento das comunidades que historicamente mantiveram a floresta em pé.