Um espetáculo botânico que só acontece uma vez
Quem atravessa o Parque do Flamengo neste fim de ano encontra algo que não se repete em uma vida inteira. Palmeiras gigantes, de copa aberta como fogos de artifício vegetais, entraram em floração depois de mais de seis décadas de silêncio. São as palmeiras Talipot, nome popular da espécie Corypha umbraculifera, nativa do sul da Índia e do Sri Lanka, que floresce apenas uma vez antes de morrer.
A floração transforma o horizonte do Aterro do Flamengo em uma cena rara mesmo para botânicos experientes. As inflorescências surgem no topo das palmeiras, alcançando entre cinco e sete metros de altura, formando uma estrutura monumental composta por milhares de pequenas flores. O processo é lento, quase cerimonial. Primeiro desponta o eixo floral, depois as flores se abrem, amadurecem, formam sementes e frutos. Todo esse ciclo leva mais de um ano e marca o fim da vida da planta.
O fenômeno ocorre justamente quando o parque completa 60 anos, inaugurado em 1965, criando uma coincidência simbólica entre o tempo da paisagem e o tempo da natureza. As Talipot plantadas ali começaram sua jornada na década de 1960 e agora encerram seu ciclo diante de uma cidade que cresceu ao redor delas.
O legado vivo de Roberto Burle Marx no Aterro do Flamengo
As palmeiras Talipot fazem parte da concepção original do Parque do Flamengo, idealizado pelo paisagista Roberto Burle Marx. O projeto transformou uma grande área aterrada da Baía de Guanabara em um dos mais emblemáticos parques urbanos do século 20, reunindo arte, botânica e urbanismo em uma escala inédita no Brasil.
Burle Marx concebeu o parque como um verdadeiro laboratório botânico a céu aberto. Mais de 350 espécies vegetais foram selecionadas para compor a paisagem, combinando plantas ornamentais, espécies tropicais e árvores nativas. Hoje, o parque abriga cerca de 17 mil árvores, distribuídas em 11 setores, com aproximadamente 40 espécies de palmeiras.
A importância do projeto é reconhecida por instituições como o Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Rio de Janeiro, cujo presidente, Sydnei Menezes, afirmou em cerimônia recente que o parque simplesmente não existiria sem a visão de Burle Marx. O Aterro do Flamengo tornou-se referência internacional de paisagismo modernista, integrando lazer, ecologia e identidade urbana.
Artista múltiplo, Burle Marx foi também pintor, escultor, cantor e defensor incansável da conservação ambiental. Ele esteve entre os primeiros a reivindicar a preservação das florestas tropicais brasileiras e organizou diversas expedições científicas que resultaram na descoberta de novas espécies. Mais de 30 plantas carregam seu nome como homenagem.

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Uma planta que floresce para se despedir
A Talipot pertence ao grupo das plantas monocárpicas, aquelas que florescem apenas uma vez ao longo de toda a vida. Segundo Marlon Souza, gestor da Coleção Botânica e Paisagística do Sítio Roberto Burle Marx, a idade exata da floração varia conforme o ambiente, o solo e o clima, mas costuma ocorrer entre 40 e 80 anos.
No Brasil, curiosamente, o ciclo parece ser mais curto. As palmeiras do Aterro do Flamengo começaram a florescer por volta dos 40 anos, o que pode estar relacionado às condições tropicais úmidas e ao ambiente urbano favorável ao desenvolvimento da planta. Após a floração, a palmeira entra em declínio e morre cerca de um ano depois.
Esse caráter efêmero confere ao fenômeno uma dimensão emocional. Há alegria pelo espetáculo visual, mas também uma melancolia silenciosa ao saber que aquele será o último ato da planta. No próprio Parque do Flamengo, já houve florações registradas no início dos anos 2000 e em 2019, o que permitiu o surgimento de novas mudas a partir das sementes.
Conservação, ciência e continuidade da paisagem
O cuidado com esse patrimônio vegetal envolve instituições científicas e culturais. O Sítio Roberto Burle Marx, hoje administrado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, abriga mais de 3.500 espécies vegetais e funciona como espaço de aclimatação, pesquisa e preservação do legado do paisagista.
No local, a primeira Talipot floresceu em 1994, poucos dias após a morte de Burle Marx, e morreu em 1997. Desde então, novas palmeiras foram plantadas, e atualmente o sítio mantém cinco exemplares adultos da espécie, além de diversas mudas que garantem sua continuidade.
A mesma lógica orienta o manejo no Parque do Flamengo. De acordo com especialistas do Jardim Botânico do Rio de Janeiro, a estratégia é substituir gradualmente as palmeiras que morrem por novos exemplares, mantendo viva a composição paisagística original. Para a curadora Thaís Hidalgo, a floração da Talipot é um evento raro, imprevisível e profundamente simbólico. Um espetáculo que poucos veem duas vezes.
Assim, a floração das Talipot no Aterro do Flamengo não é apenas um acontecimento botânico. É um encontro entre tempo, memória, paisagem e cidade. Um lembrete silencioso de que algumas belezas existem justamente porque são passageiras.