Revista Amazonia

Peixes da Amazônia

Essa é  uma compilação geral da diversidade e distribuição geográfica dos peixes da Amazônia, atualizada até o final de 2018. Nosso banco de dados inclui distribuições documentadas de 4214 espécies (da Amazônia e de bacias circunvizinhas), compiladas a partir de informações publicadas e dados originais de coleções ictiológicas. Nossos resultados mostram que a bacia amazônica compreende a mais diversificada assembleia regional de peixes de água doce do mundo, com 2716 espécies válidas (1696 das quais são endêmicas) representando 529 gêneros, 60 famílias e 18 ordens. Esses dados permitem uma visão da diversidade e distribuição dos peixes da Amazônia em escala de bacia, o que por sua vez permite a identificação de padrões biogeográficos congruentes, aqui definidos como distribuições sobrepostas de duas ou mais linhagens (espécies ou grupos monofiléticos).

Reconhecemos 20 padrões de distribuição distintos de peixes da Amazônia, que são aqui delimitados, nomeados e diagnosticados individualmente. Nem todos esses padrões estão associados a barreiras geográficas identificáveis, e alguns podem resultar de restrições ecológicas. Todas as principais subdestragens da Amazônia se encaixam em mais de um padrão biogeográfico. Esse fato revela a complexa história das bacias hidrográficas e mostra que as unidades modernas definidas por bacias contribuem relativamente pouco como fatores explicativos para as atuais distribuições de peixes da Amazônia. Uma compreensão dos processos geomorfológicos e alterações paleográficas associadas da paisagem fornece uma base muito melhor para a interpretação dos padrões observados. Espera-se que nossos resultados forneçam uma estrutura para futuros estudos sobre a diversificação e biogeografia histórica da biota aquática da Amazônia, suas espécies de peixes e as estimativas disponíveis sugerem um número entre 1300 e 3500 espécies.

Apesar dessa clareza conceitual, na prática, a bacia amazônica é a maior drenagem hidrográfica da Terra, cobrindo ~ 6 × 106 km2 (maior ainda se as áreas costeiras estuarinas forem incluídas) (Sioli, 1984; Milliman e Farnsworth, 2011) ou cerca de um terço da América do Sul. Sua descarga também é a maior do mundo, com cerca de um quinto de todo o volume de água doce na superfície do planeta (Callede et al., 2004). Seu vasto tamanho é acompanhado por uma fauna e flora igualmente vastas (Webb, 1995; Patton et al., 2000; Hoorn e Wesselingh, 2010; Cardoso et al., 2017), compreendendo o ecossistema mais rico do mundo. Os peixes são um dos elementos da fauna cuja biodiversidade amazônica atinge números superlativos. Apesar dessa megadiversidade e da atenção que ela atrai, o conhecimento sobre a diversidade e distribuição geográfica dos peixes da Amazônia ainda não é sintetizado em uma estrutura geral que permite generalizações amplas.

O conhecimento sobre a sistemática e a distribuição dos táxons de peixes da Amazônia já acumulou a um grau em que os esforços sintéticos são mais atraentes do que nunca, tanto em níveis específicos quanto suprespecíficos. O objetivo deste artigo é identificar os padrões taxonômicos de distribuição de peixes da Amazônia com base em todos os dados atualmente disponíveis na literatura e em algumas das maiores coleções ictiológicas com propriedades significativas da Amazônia. A lista compilada para este relatório é uma expansão e refinamento do banco de dados publicado em Dagosta e Pinna (2017), o maior já feito anteriormente sobre a distribuição de peixes na Amazônia e fornece a primeira lista abrangente de peixes na Amazônia.

Permite a identificação e delimitação de todos os padrões repetidos de distribuição. Também oferecemos uma discussão sobre as possíveis causas subjacentes a cada um dos padrões e seu potencial como indicadores de uma história biogeográfica geral da bacia amazônica. Esperamos que nosso trabalho forneça uma estrutura geral para a categorização dos dados distributivos futuros (novos registros, novas espécies e novos dados) e facilite o progresso futuro da biogeografia das águas doces da Amazônia.

Materiais e Métodos   

As distribuições de espécies foram compiladas a partir de todas as informações disponíveis na literatura, em um total de mais de 1500 referências (ver Dagosta e Pinna, 2017: apêndices 1–6; e apêndice 1, neste documento, para dados de distribuição sobre espécies de peixes no Amazônia e bacias circunvizinhas), incluindo revisões taxonômicas, descrições de espécies, inventários e listas faunísticas. Além disso, foram obtidos dados primários das coleções ictológicas mais relevantes (em tamanho e cobertura da Amazônia), a saber: Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, Manaus (INPA), Museu Nacional do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro (MNRJ), Museu Paraense Emílio Goeldi, Belém (MPEG), Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo, São Paulo (MZUSP) e Museu Nacional de História Natural, Washington, DC (USNM). Duas coleções menores, LBP (Laboratório de Biologia e Genética de Peixes, Botucatu) e LIRP (Laboratório de Icitologia de Ribeirão Preto, Ribeirão Preto), também foram pesquisadas por causa de suas propriedades únicas de material de partes críticas do Escudo Brasileiro.

A compilação da composição e distribuição geográfica dos peixes da Amazônia é atualizada até o final de 2018. Os mapas apresentados visam representar padrões gerais de distribuição e as parcelas de espécies individuais podem variar um pouco dentro desses limites. A delimitação do Arco Purus segue Sacek (2014). O tipo de água dos rios amazônicos segue Venticique et al. (2016) (Grupo SNAPP da Amazônia Ocidental – Rede de conhecimento da estrutura espacial do ecossistema aquático da Amazônia para biocomplexidade. O relevo sombreado da América do Sul usado nas figuras 5 a 22 é cortesia da NASA / JPL-Caltech.

Esse nosso inventário mostra que a ictiofauna amazônica é composta por 2716 espécies válidas, incluídas em 529 gêneros, 60 famílias e 18 ordens. Tais números fazem da drenagem amazônica, por uma larga margem, a bacia com a mais rica fauna de peixes do mundo (fig. 1), com uma diversidade equivalente à de alguns continentes inteiros (fig. 1). Como comparação, o número estimado (ou seja, não necessariamente descrito) de espécies na segunda bacia mais diversa do mundo (Congo) é menos da metade da da Amazônia.

A maioria dos peixes da Amazônia pertence ao Otophysi, um grupo que representa 80% de todas as espécies da Amazônia. Como em outras bacias neotropicais, as ordens mais ricas em espécies são Characiformes e Siluriformes. A terceira maior ordem nas águas da Amazônia é a Perciformes, em grande parte devido a espécies da família Cichlidae. Das ordens menos diversas, 10 são de linhagens tipicamente marinhas que invadiram secundariamente as águas da Amazônia. A composição familiar também segue um padrão típico da maioria das águas continentais nos neotrópicos, amplamente dominado por pequenas espécies de tamanho corporal. Cinco famílias (Characidae, Loricariidae, Cichlidae, Cynolebiidae e Callichthyidae) concentram a maior parte da diversidade. Ou 56% das espécies da Amazônia), sendo que Characidae sozinho compreende quase um quarto de todas as espécies de peixes da Amazônia. Leia e veja na íntegra em:

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