Plataforma digital enfoca a circulação cultural transatlântica e seu papel no processo de globalização

Decifrar a dinâmica dos intercâmbios culturais que se desenvolveram entre a Europa, a África e as Américas desde o final do século 18 é o objetivo da plataforma digital Transatlantic Cultures, apresentada pela primeira vez ao público brasileiro em evento realizado recentemente na Universidade de São Paulo (USP). O lançamento na França ocorreu em novembro do ano passado. A plataforma continua e continuará sendo desenvolvida, mas já pode ser acessada e dispõe de muito conteúdo interessante.

Com textos em quatro línguas (português, espanhol, francês e inglês), fotografias, ilustrações e vídeos, a plataforma se volta para a circulação cultural transatlântica e seu papel no processo de globalização contemporâneo. Os temas vão de conceitos a esportes, de religião a viagens, do papel dos intelectuais à educação. Literatura, música, artes cênicas, cinema, artes visuais e fotografia são modalidades artísticas contempladas. Mas a plataforma também trata de memória, cidades e diplomacia cultural, dentre outros assuntos.

Buscando escapar de uma periodização concentrada no período moderno (do século 16 ao século 18), fortemente marcado pelo tráfico escravista e pelo chamado comércio colonial, temas já bastante investigados pela tradicional História Atlântica, a plataforma procura compreender o que veio depois: o período propriamente contemporâneo (de fins do século 18 ao século 21).

projeto foi lançado em 2016 pela USP, no Brasil, e pelas universidades Paris-Saclay e Sorbonne Nouvelle, na França, após ser aprovado em uma chamada para cooperação internacional promovida pela FAPESP e pela Agence Nationale de la Recherche. A coordenação é de Gabriela Pellegrino Soares (Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, FFLCH-USP), Anaïs Fléchet (Centre d ́Histoire Culturelle des Sociétés Cotemporaines, Université de Versailles Saint-Quentin-en-Yvelines) e Olivier Compagnon (Institut des Hautes Etudes en Amérique Latine, Université Sorbonne Nouvelle).

“A circulação transatlântica mesclou e mescla tradições culturais distintas. E nosso enfoque na plataforma é deixar para trás a perspectiva eurocêntrica, que enxerga o mundo a partir da Europa, e praticar uma descentralização do olhar, em busca de um determinado tipo de mundialização. Os temas tratados, marcados pelo movimento anticolonial, pelo movimento anti-imperialista, pelo movimento negro e pelo movimento indígena, tensionam as relações coloniais estabelecidas na época moderna e se abrem para o mundo contemporâneo”, diz Soares.

Os artigos publicados procuram combinar o rigor acadêmico, pela chave das ciências humanas, com a forma mais ágil e acessível da comunicação digital. Três exemplos, entre os vários textos já disponíveis na plataforma: “Pan Americanism”, de Richard Cándida Smith (University of California, Berkeley); “Ruy Guerra, o ‘cineasta viajante’”, de Vavy Pacheco Borges (Universidade Estadual de Campinas, Unicamp); “Susan Sontag: uma intelectual pública”, de Priscila Dorella (Universidade Federal de Viçosa).

A equipe de pesquisadores e editores no Brasil reúne Eduardo Morettin (Escola de Comunicação e Artes, ECA-USP), Marcos Napolitano (FFLCH-USP), Tania Regina de Luca (Faculdade de Ciências e Letras da Universidade Estadual Paulista, Unesp), Nelson Schapochnik (Faculdade de Educação, FE-USP), Luiz Felipe de Alencastro (Centro de Estudos do Atlântico Sul, Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getúlio Vargas, EESP-FGV) e Henri Arraes Gervaiseau (ECA-USP).

Soares afirma que, embora a produção artística seja um veio muito importante explorado pela plataforma, esta não se propõe a publicar, em primeira mão, textos literários, fotografias, desenhos etc. “O objetivo não é veicular essas manifestações culturais, que já têm outros canais de expressão, mas discorrer reflexivamente sobre elas. Estamos fazendo um exercício de adaptar a escrita acadêmica ao formato digital, investigando as complexas relações culturais entre a África, as Américas e a Europa em uma perspectiva pluridisciplinar, pela óptica de historiadores, antropólogos, sociólogos, cientistas políticos e especialistas em música, literatura, artes, teatro e cinema. Muitos autores já escreveram para além de suas áreas estritas de especialização. E os resultados têm sido bastante instigantes”, conta.

Mas a coordenadora reconhece que ainda há muito trabalho a ser feito. A plataforma está assentada, principalmente, no binômio Brasil-França, com uma participação já expressiva de intelectuais norte-americanos. Mas a presença africana se resume, por enquanto, à do historiador senegalês Moustapha Sall (Université Cheikh Anta Diop de Dakar). E Portugal, que é um ponto nevrálgico na conexão atlântica, ainda não tem representantes. “São redes de colaboração acadêmica que vamos procurando consolidar, embora essas regiões estejam fortemente presentes nas circulações culturais que as pesquisas já publicadas iluminam”, diz.

O desenvolvimento técnico da plataforma foi feito na França, por uma equipe liderada pelo engenheiro Cyrille Suire. E resultou em um objeto com design elegante e navegação amigável. Atualmente, todos os textos são publicados na língua original do autor, com tradução em inglês. Na medida em que os financiamentos permitirem, novas traduções serão feitas, para contemplar as três outras línguas do projeto: português, espanhol e francês.

A plataforma digital Transatlantic Cultures pode ser acessada em: www.transatlantic-cultures.org/pt/home.