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Durante muito tempo, o agronegócio brasileiro foi embalado por uma narrativa sedutora: a de que o país era um protagonista inevitável na alimentação global. A vastidão territorial, a fartura de água e a capacidade de produzir em escala pareciam garantir que o Brasil estivesse sempre no centro da mesa, nutrindo o planeta em expansão demográfica. Mas esse enredo confortável começa a ruir diante de um cenário internacional cada vez mais instável, onde a geopolítica substitui a lógica da eficiência e os mercados se movem de forma imprevisível.
Marcos Jank, coordenador do Insper Global Agribusiness Center e um dos mais respeitados especialistas do setor, descreve essa mudança com franqueza: “A gente parte de uma ideia que o mundo quer o Brasil e precisa do Brasil para se alimentar. Mas isso não é verdade. Os países não querem depender de comida importada.” O mito do “celeiro indispensável” perde força quando confrontado com as estratégias das grandes potências, que veem segurança alimentar como questão estratégica e buscam reduzir dependências externas.
O agronegócio brasileiro, acostumado a surfar no otimismo, agora precisa lidar com a incerteza. Não basta mais ser eficiente no campo; é preciso aprender a gerir riscos em um tabuleiro global onde as regras mudam em meio ao jogo.
O mito do Brasil inevitável
O salto produtivo brasileiro é inegável. Em poucas décadas, o país saiu da condição de importador crônico para liderar exportações de soja, carne, milho e açúcar. A tropicalização da agricultura, a ciência adaptada às condições locais e a integração de sistemas como lavoura-pecuária transformaram o Brasil em referência. Mas a crença de que essa condição nos torna insubstituíveis é um mito perigoso.
A China exemplifica esse paradoxo. Embora dependa do Brasil para parte significativa da soja, é autossuficiente em arroz e trigo, investiu em produtividade de milho e busca fornecedores alternativos sempre que possível. Segurança alimentar, para eles, não é uma questão de mercado — é de soberania. Para o Brasil, cuja dependência da Ásia já representa dois terços das exportações do agro, isso significa viver sob constante vulnerabilidade.
A nova desordem internacional
O que Jank chama de “nova desordem internacional” aprofunda essa instabilidade. Instituições multilaterais que sustentaram o comércio global no pós-guerra perderam força. A OMC não julga disputas, a ONU é incapaz de deter guerras, a OMS fracassou na pandemia. O comércio internacional se assemelha a um jogo sem árbitro, sem placar e sem regras estáveis.
Nesse ambiente, a eficiência deixa de ser o critério dominante. O que impera é a geopolítica: alianças, rupturas, disputas de influência. Como observa Jank, é como se o avião do comércio global tivesse trocado de piloto: quem controlava antes era guiado pela lógica econômica; agora quem assume é o copiloto da geopolítica, definindo rumos com base em interesses estratégicos e não em custos ou produtividade.
Trump e a reinvenção da barganha
A guinada se tornou evidente com Donald Trump. Ele não apenas ampliou tarifas, mas também reinventou o método de negociação. Dispôs-se a conversas diretas, muitas vezes ignorando governos, e tratou tudo como transação. O resultado é um ambiente de imprevisibilidade, em que ameaças tarifárias se transformam em moeda de troca.
Jank lembra do caso europeu: a tarifa para entrada nos EUA saltaria de 3% para 30%. Após negociações, fixou-se em 15%, e a Europa celebrou como vitória. Na prática, houve perda significativa de competitividade, mas o jogo político distorceu a percepção de sucesso.
Esse é o modelo que tende a se reproduzir: negociações assimétricas, voláteis e cada vez mais baseadas em poder político e militar, não em previsões econômicas.
Brasil entre pressões e dependências
Para o Brasil, o cenário é ainda mais delicado. De um lado, a dependência estrutural da China; de outro, a pressão dos Estados Unidos. Trump misturou disputas comerciais com embates políticos internos brasileiros, envolvendo até a relação entre o governo Bolsonaro e o Supremo Tribunal Federal. Ao mesmo tempo, a presença chinesa na América do Sul, com investimentos robustos e a liderança no BRICS, despertou reação direta de Washington.
Esse embaralhamento geopolítico gerou até inversões curiosas: enquanto no governo anterior a Argentina se aproximava da China e o Brasil dos EUA, agora os papéis se inverteram. Buenos Aires colhe benefícios do alinhamento a Washington, inclusive no agro, e o Brasil equilibra-se entre forças contraditórias.
Riscos inesperados e vulnerabilidade estrutural
A lista de choques dos últimos anos é um inventário de imprevistos: pandemia global, guerra na Ucrânia, recrudescimento de conflitos no Oriente Médio, eventos climáticos extremos. Para o produtor rural brasileiro, a lição é clara: não basta aumentar produtividade ou reduzir custos; é essencial diversificar riscos e planejar para cenários em que barreiras comerciais ou embargos surjam de um dia para o outro.
O peso asiático e a pressão demográfica
Dois terços das exportações brasileiras do agro vão para a Ásia, com a China absorvendo sozinha um terço. A equação demográfica explica: a região concentra mais da metade da população mundial, mas tem apenas 20% da água doce e 15% das terras agricultáveis. O descompasso entre população e recursos faz da importação uma necessidade inevitável.
A urbanização chinesa reforça o movimento. De um país majoritariamente rural nos anos 1970, passou a 65% urbano hoje. Essa transição alterou o consumo: quem deixa a roça para viver na cidade compra mais alimentos, diversifica a dieta e demanda proteínas de origem animal. É nesse contexto que o Brasil se firmou como fornecedor estratégico.
Mas a concentração é perigosa. Se por um lado garante escala, por outro nos torna excessivamente expostos a decisões de um único parceiro.
O mito da liderança absoluta
Dentro de casa, repete-se que o Brasil é “o maior do mundo” no agro. Mas Jank é direto: não somos o maior produtor, nem o maior consumidor, nem o maior exportador se considerada a União Europeia como bloco. O que lideramos é a exportação de commodities agrícolas. Essa é a nossa fortaleza. No entanto, em valor agregado, em marcas globais, em produtos processados, ainda estamos muito aquém. O mito da liderança plena mascara uma realidade mais complexa e, de certo modo, frágil.
Tecnologia e sustentabilidade como saídas possíveis
Apesar do cenário turbulento, há motivos para otimismo pragmático. A bioeconomia, os biocombustíveis, a biomassa, os bioinsumos e a integração lavoura-pecuária tendem a avançar não apenas por pressão ambiental, mas porque são soluções economicamente viáveis. A sustentabilidade, nesse caso, caminha junto com a eficiência — e essa pode ser a maior vantagem comparativa brasileira.
O país já provou que consegue inovar em ambientes tropicais, antes vistos como limitadores. Esse capital científico e produtivo pode se converter em trunfo geopolítico, se bem articulado com uma diplomacia que compreenda as novas regras do jogo.
Do mito ao pragmatismo
O recado de Jank é incisivo: é hora de superar os mitos e adotar uma visão pragmática. O Brasil não é insubstituível, não é o maior em tudo, não está imune às rupturas globais. É relevante, sim, mas precisa assumir que sua relevância depende de estratégia, diversificação e capacidade de adaptação.
As guerras comerciais do passado mostram que raramente há vencedores. Normalmente, há perdas difusas, recessão e retração do comércio. O fantasma da década de 1930 — com tarifas americanas a 50% e queda de 60% no comércio global — assombra qualquer excesso de otimismo.
O agro brasileiro, para continuar protagonista, terá de trocar a narrativa confortável pela gestão de riscos, abandonar os mitos e enxergar a realidade nua: o jogo mundial não é mais sobre eficiência, mas sobre poder. E nesse tabuleiro, só quem compreender a nova geopolítica terá condições de garantir que o Brasil continue alimentando o planeta sem ser refém de sua própria retórica.
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