Economia

Como financiar a circularidade da cadeia de fornecedores com incentivos fiscais

Apesar de frequentemente associada apenas à reciclagem, a economia circular é um conceito muito mais abrangente e estratégico para as práticas ESG (Ambiental, Social e Governança).

A Economia Circular: Muito Além da Reciclagem

Jamile Balaguer, especialista em economia circular e diretora da Grand Thornton, explica que o modelo circular busca eliminar o desperdício, manter os materiais em uso pelo maior tempo possível e regenerar os sistemas naturais.

Fonte: Agência de Notícias da Indústria

Segundo ela, é importante compreender a diferença entre:

  • Lixo: não possui tratamento possível.

  • Resíduo: pode ser tratado e tem valor.

  • Rejeito: não pode ser tratado e precisa ser descartado corretamente.

Além da reciclagem, outros “Rs” ganham destaque, como o reuso (crescimento dos brechós) e o repensar (evitar o consumo desnecessário).

Desafios e Avanços: O Panorama no Brasil e no Mundo

A economia circular ainda avança lentamente no mundo. Segundo a Circle Economy, apenas 7,2% da economia global é de fato circular. Países como os nórdicos alcançam índices entre 80% e 90%, enquanto outros mal atingem 1%. No Brasil, a reciclagem de resíduos sólidos urbanos gira entre 4% e 7%.

Ainda assim, o país apresenta bons exemplos. A reciclagem de latas de alumínio, por exemplo, atinge quase 99%, graças principalmente à atuação de catadores e cooperativas, mais do que a políticas ambientais robustas.

Leis de Incentivo: Uma Ferramenta Estratégica para a Circularidade

O Brasil vem adotando medidas regulatórias que ajudam a fomentar a economia circular:

  • Crédito de Reciclagem: Obriga empresas a reciclarem parte das embalagens que colocam no mercado (22% no caso de bens de consumo), o que gera um mercado de compra de créditos junto a cooperativas.

  • Lei de Incentivo à Reciclagem: Lançada recentemente, permite que pessoas físicas (até 6%) e empresas (até 1%) destinem parte do Imposto de Renda para projetos de reciclagem aprovados pelo Ministério do Meio Ambiente.

Essas iniciativas representam não apenas um avanço ambiental, mas também oportunidades de financiamento estratégico para empresas comprometidas com a sustentabilidade.

Sustentabilidade e Lucro: Desbloqueando o Valor Econômico da Circularidade

Para que as empresas adotem práticas circulares, é essencial que a sustentabilidade seja economicamente viável. Jamile Balaguer ressalta a importância de mostrar benefícios financeiros, como redução de custos e geração de receita. Exemplo disso é o redesenho de moldes em confecções, que reduz desperdício de tecido em até 30%.

O desafio é maior quando se trata de medir ganhos intangíveis, como imagem da marca ou fidelização do cliente. O envolvimento do CFO, figura essencial nas decisões estratégicas, é indispensável para integrar a circularidade ao orçamento.

Imagem: Shutterstock

Cadeia de Fornecimento: O Complexo Escopo 3 da Sustentabilidade

Um dos maiores obstáculos à circularidade está na gestão da cadeia de fornecedores, chamada de Escopo 3 pela GRI (Global Reporting Initiative). Aplicar critérios de sustentabilidade na cadeia exige que fornecedores adotem práticas como:

  • Tratamento correto de resíduos.

  • Uso de energia limpa.

  • Reaproveitamento de água.

Esse processo, embora desafiador, é essencial para a consolidação de cadeias produtivas circulares.

Casos de Sucesso: Iniciativas que Inspiram

Diversas empresas e modelos mostram que a economia circular pode ser aplicada de forma eficaz:

  • Compras Sustentáveis: Seleção de fornecedores com critérios de circularidade.

  • Ciclo de Vida de Embalagens: Marcas como Unilever e Johnson & Johnson recolhem embalagens para reuso.

  • Economia do Compartilhamento: Bibliotecas e aplicativos substituem a posse pela utilização.

  • Produto como Serviço: Netflix e Spotify substituem produtos físicos por acesso digital.

  • Desfibramento Têxtil: Transformação de retalhos em novos fios para a indústria.

Empresas brasileiras como Farmax, Heineken, Coca-Cola Brasil e o Instituto CPFL já aplicam essas práticas com destaque em suas operações.

Educação e Conscientização: O Pilar da Transformação

Para Jamile, a base da transformação está na educação. Comunicar corretamente os conceitos, integrar boas práticas e conscientizar a sociedade são medidas essenciais para que a economia circular ganhe escala e se torne um novo motor da economia brasileira.

Ela finaliza com uma mensagem clara: “Todo mundo é responsável pelos seus resíduos”.

Fonte: Green Business Post

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