Dívida em alta e o novo freio aos swaps ambientais
Durante anos, os swaps de dívida voltados à conservação ambiental foram apresentados como uma solução engenhosa para dois problemas históricos dos países em desenvolvimento: o peso do endividamento e a escassez de recursos para proteger ecossistemas estratégicos. A lógica parecia sedutora. Ao renegociar dívidas antigas, muitas vezes consideradas arriscadas, governos poderiam obter melhores condições financeiras e, em contrapartida, destinar parte da economia gerada a projetos ambientais.
Mas o cenário internacional mudou. O rali recente da dívida de mercados emergentes alterou a matemática dessas operações. Com os títulos soberanos em valorização e rendimentos em queda, a troca de passivos deixou de ser financeiramente atraente para muitos países. O que antes representava alívio orçamentário agora exige cálculos mais cautelosos.
Nos últimos 12 meses, índices de dívida emergente registraram ganhos superiores a 10%, refletindo maior apetite por risco e fluxo de capital para essas economias. Em diversos casos, os rendimentos de títulos soberanos passaram a se aproximar — ou até ficar abaixo — dos títulos do Tesouro dos Estados Unidos. Nesse ambiente, substituir dívida antiga por novos instrumentos estruturados com garantias multilaterais nem sempre compensa os custos e as exigências associadas.
A engenharia financeira dos swaps e seus limites
Os swaps de dívida por natureza ganharam novo impulso a partir de 2021, quando banqueiros do então Credit Suisse passaram a estruturar operações com participação de capital privado, em parceria com a organização ambiental The Nature Conservancy. Desde então, instituições como Bank of America, JPMorgan Chase, Standard Chartered e UBS participaram da organização dessas transações.
A estrutura costuma envolver garantias de instituições públicas ou multilaterais, como a US International Development Finance Corporation, para reduzir o risco e atrair investidores privados. Em troca, o país emissor compromete-se a direcionar recursos para metas ambientais específicas, como proteção de áreas marinhas ou preservação de manguezais.
Apesar do entusiasmo inicial, os números mostram limites claros. Estimativas indicavam que mais de 1 trilhão de dólares em dívida poderiam, em tese, ser elegíveis para esse tipo de operação. Na prática, desde 2021, apenas cerca de 6 bilhões de dólares em swaps com capital privado foram efetivamente concluídos.
O processo é complexo e oneroso. Exige meses de preparação técnica, identificação de projetos ambientais viáveis, validação científica, negociação de garantias e pagamento de taxas significativas a consultores e bancos. Em um ambiente de juros elevados e spreads comprimidos, muitos governos passaram a reconsiderar acordos que já estavam em fase avançada.
Bankers Pitching EM Debt Swaps Hit a Wall in a Once-Hot Market – Bloomberg 
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Prioridades sociais e questionamentos políticos
Além da equação financeira, cresce o debate sobre prioridades nacionais. Representantes de finanças públicas e especialistas envolvidos nas negociações relatam que parte dos governos vê com reservas o foco exclusivo em metas ambientais. Em países onde serviços básicos como saúde, educação, água e energia permanecem insuficientes, a percepção é de que a conservação pode não ser a prioridade imediata da população.
Esse questionamento foi ecoado por vozes influentes no debate global. Em discussões recentes sobre desenvolvimento e clima, líderes filantrópicos e autoridades multilaterais ressaltaram a necessidade de equilibrar metas ambientais com melhorias concretas na qualidade de vida.
No âmbito do Banco Mundial, economistas destacaram que uma fragilidade recorrente nos swaps ambientais está na percepção de baixa apropriação nacional. Muitas vezes, as metas são fortemente influenciadas por garantidores externos ou organizações não governamentais. Para que a iniciativa tenha legitimidade e sustentabilidade política, argumentam especialistas, é fundamental que os próprios governos definam onde aplicar as economias geradas.
Essa mudança de perspectiva já se reflete na prática. Países como Quênia e Benin discutem swaps voltados ao desenvolvimento mais amplo, enquanto Angola avalia operações com foco em saúde e educação. O próprio Banco Mundial, sob a presidência de Ajay Banga, sinalizou interesse em ampliar o escopo desses instrumentos para além da conservação ambiental.
O impacto da política americana e o futuro do mercado
Outro fator decisivo é o contexto político nos Estados Unidos. A US International Development Finance Corporation, que desempenhou papel central ao oferecer garantias para swaps ambientais, reduziu sua atuação nesse segmento. Desde o retorno de Donald Trump à presidência, fontes do setor relatam menor prioridade a operações vinculadas à agenda climática.
A retração da DFC afeta diretamente a viabilidade de novos acordos, já que a garantia pública era peça-chave para reduzir custos e atrair investidores. Organizações como a International Union for Conservation of Nature e a The Nature Conservancy reconhecem o momento de desaceleração, mas afirmam continuar explorando alternativas e novos modelos de parceria.
Apesar das dificuldades, gestores de investimento argumentam que o mercado não está encerrado. Mesmo com o rali da dívida emergente, há países que ainda enfrentam custos elevados de financiamento e poderiam se beneficiar de reestruturações estratégicas. Além disso, os swaps podem ajudar a diversificar fontes de recursos e reduzir riscos de refinanciamento.
O que está em curso não é necessariamente o fim dos swaps de dívida, mas uma transformação. A tendência aponta para instrumentos mais flexíveis, menos prescritivos e potencialmente voltados a metas de desenvolvimento social combinadas com sustentabilidade ambiental. O modelo original, centrado quase exclusivamente na natureza, parece ceder espaço a abordagens mais amplas.
No cruzamento entre dívida, clima e desenvolvimento, o mercado atravessa um período de recalibração. A promessa de alinhar finanças públicas e proteção ambiental permanece atraente. Contudo, em um mundo de juros voláteis, tensões geopolíticas e demandas sociais urgentes, cada operação precisa provar que faz sentido não apenas para investidores, mas sobretudo para as sociedades que arcam com suas consequências.