Polarização transforma crise climática em disputa ideológica
A crise climática deixou de ser apenas um desafio ambiental para se tornar um teste decisivo da coesão democrática. Em diferentes partes do mundo, a forma como cidadãos interpretam dados científicos sobre aquecimento global está cada vez mais associada à identidade política. A polarização ideológica passou a funcionar como filtro cognitivo: antes mesmo de avaliar evidências, muitos escolhem em quem confiar com base em afinidades partidárias.
Estudo conduzido em 26 países aponta que a confiança nas evidências científicas sobre mudanças climáticas varia conforme o alinhamento ideológico. Em nações ocidentais industrializadas, pessoas que se identificam com posições à direita tendem a demonstrar menor confiança em cientistas do clima. Esse padrão não é universal, mas revela uma tendência preocupante: quando a ciência é percebida como bandeira de um campo político, sua legitimidade passa a ser contestada não por dados, mas por identidade.
O impacto dessa dinâmica é profundo. A descrença seletiva corrói a base necessária para políticas públicas urgentes, atrasando respostas coletivas a eventos extremos, secas prolongadas e enchentes cada vez mais frequentes. Em vez de debate sobre soluções, instala-se disputa sobre fatos.
Brasil: ciência sob ataque e erosão da confiança
No Brasil, a polarização climática ganhou contornos explícitos durante o governo Bolsonaro. Dados oficiais sobre desmatamento foram questionados publicamente, e o trabalho do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais sofreu ataques retóricos que repercutiram na confiança pública. Quando instituições técnicas são colocadas sob suspeita por razões políticas, a ciência deixa de ser referência comum e se transforma em arena de confronto.
Ainda assim, experiências internacionais mostram que a polarização não é inevitável. Em países onde a pauta ambiental é tratada como interesse nacional compartilhado, e não como marca ideológica, o ceticismo tende a ser menor. O enquadramento político importa. Quando o meio ambiente é associado a prosperidade, saúde pública e segurança econômica, e não apenas a restrições ou sacrifícios, a adesão social cresce.
A crise de confiança, porém, não nasce apenas da retórica política. Ela se alimenta de fatores econômicos estruturais.

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Desigualdade, PIB e ressentimento social
A Teoria da Privação Econômica sugere que grupos que percebem perda relativa de renda ou status tendem a desenvolver ressentimento contra instituições e elites políticas. Em contextos de desigualdade crescente, parte da população passa a ver políticas ambientais como ameaça adicional a empregos e estabilidade.
A dependência quase exclusiva do Produto Interno Bruto como métrica de sucesso contribui para esse cenário. O PIB mede produção e consumo, mas ignora distribuição de renda, qualidade de vida e impactos ambientais. Crescimentos concentrados em pequenos segmentos da sociedade ampliam disparidades e alimentam hiper-nacionalismo e radicalização.
Nesse ambiente, propostas de transição ecológica podem ser percebidas como imposições de elites urbanas desconectadas da realidade de trabalhadores em setores intensivos em carbono. A polarização floresce onde há sensação de abandono.
A crítica ao chamado capitalismo verde também emerge desse contexto. Projetos ambientais que deslocam comunidades no Sul Global ou reforçam padrões neocoloniais aprofundam desconfianças históricas. Sem justiça social, sustentabilidade torna-se discurso frágil.
Transição justa como antídoto
Para enfrentar essa fragmentação, especialistas defendem estratégias de transição justa. A ideia é simples e poderosa: políticas climáticas precisam proteger trabalhadores e comunidades afetadas pela mudança econômica, garantindo alternativas concretas antes de encerrar atividades intensivas em carbono.
A Nova Zelândia criou uma Unidade de Transição Justa para mediar o impacto do fim de licenças de exploração de petróleo e gás. O processo incluiu oficinas participativas em regiões como Taranaki, envolvendo trabalhadores, empresas e comunidades indígenas na construção de planos de futuro. Ao substituir decisões verticais por cocriação, o governo buscou transformar metas climáticas em projeto coletivo.
Na Europa, o Fundo de Transição Justa da União Europeia opera com lógica semelhante, direcionando recursos para regiões mais dependentes de combustíveis fósseis. O objetivo é evitar que a transição verde se torne gatilho de revolta social.
Outro eixo estratégico envolve repensar métricas de progresso. A Economia do Bem-Estar propõe que governos priorizem dignidade, natureza, conexão social, justiça e participação cidadã. Países como Nova Zelândia, Escócia, Islândia, País de Gales e Finlândia formaram a parceria Wellbeing Economy Governments para trocar experiências sobre orçamentos orientados a indicadores de bem-estar.
A Economia Donut, concebida por Kate Raworth, oferece estrutura visual complementar. Entre a base social que garante direitos básicos e o teto ecológico que define limites planetários, encontra-se espaço seguro e justo para humanidade. Esse modelo desloca foco do crescimento ilimitado para equilíbrio entre necessidades humanas e capacidade ambiental.
No Brasil, indicadores alternativos já existem. O Índice de Desenvolvimento Humano amplia análise para educação e longevidade. O Indicador de Progresso Verdadeiro incorpora distribuição de renda e custos ambientais. Medidas como o Coeficiente de Gini expõem desigualdades invisíveis ao PIB. A proposta de adotar painel de indicadores, combinando bem-estar, sustentabilidade e equidade, ganha força entre economistas críticos do modelo tradicional.
Reconstruir confiança exige mais do que novos números. Requer participação social genuína na formulação de políticas. Comunidades que se sentem ouvidas tendem a confiar mais em decisões coletivas. Transparência científica e diálogo público consistente são pilares para reverter erosão institucional.
Polarização não é fenômeno natural do debate climático; é produto de escolhas políticas e estruturas econômicas. Transformar crise climática em base comum de ação demanda coragem para enfrentar desigualdade e abandonar métricas estreitas de sucesso.
Se o desafio ambiental é global, a resposta precisa ser socialmente inclusiva. Sem justiça e participação, políticas climáticas continuarão a ser vistas por parte da população como ameaça, não como oportunidade. Reduzir polarização significa, em última instância, reconstruir contrato social capaz de sustentar ação coletiva diante da maior crise do século.