Imagem: Charles Pereira
Apesar de já ser reconhecido mundialmente como um dos países com a matriz energética mais limpa, o Brasil ainda possui um trunfo pouco explorado em seu caminho rumo à economia de baixo carbono: a biomassa.
Derivada de matéria orgânica renovável, como resíduos agrícolas, florestais e urbanos, a biomassa representa uma oportunidade concreta para expandir o uso de energia renovável, reduzir emissões e promover desenvolvimento sustentável em diferentes regiões do país.
Com a proximidade da COP30, marcada para acontecer em Belém, no Pará, em 2025, cresce a expectativa de que o Brasil reforce seu papel de liderança global ao apresentar propostas concretas de transição energética ancoradas em fontes sustentáveis. A biomassa, nesse contexto, ganha espaço como pilar estratégico, especialmente por seu potencial em setores onde a eletrificação direta enfrenta maiores desafios, como a geração de calor industrial e a produção de combustíveis para transporte pesado e aviação.
A biomassa compreende qualquer tipo de matéria orgânica que pode ser utilizada como fonte de energia. No Brasil, são comuns o bagaço de cana-de-açúcar, a palha de milho, o sabugo, restos de madeira, esterco animal, resíduos da indústria de papel e celulose, além de resíduos sólidos urbanos orgânicos. A principal característica dessa fonte é que ela é renovável: o carbono emitido durante sua queima ou conversão é aquele previamente absorvido pelas plantas durante seu crescimento, o que torna o processo praticamente neutro em carbono, desde que manejado de forma sustentável.
Atualmente, a biomassa representa cerca de 8,4% da matriz elétrica brasileira e 7,5% da matriz energética como um todo. Há, no entanto, uma margem ampla para crescimento. O país conta com 622 empreendimentos ativos gerando eletricidade a partir de biomassa, especialmente em áreas próximas às usinas sucroalcooleiras. No entanto, há um potencial não aproveitado em cadeias como arroz, soja, milho, pecuária, silvicultura e até mesmo resíduos urbanos, que poderiam alimentar uma nova onda de geração distribuída e industrial baseada em energia limpa.
De acordo com estimativas do setor, o Brasil produz anualmente:
O país é, portanto, uma potência latente no uso da biomassa — com matéria-prima disponível em quase todas as regiões, o que favorece soluções descentralizadas, adaptadas à realidade local e capazes de impulsionar economias regionais.
O Brasil já domina diversas tecnologias para conversão energética da biomassa. Entre as mais relevantes, destacam-se:
Essas tecnologias já são realidade em projetos-piloto e algumas unidades comerciais no país, mas demandam incentivos, linhas de crédito específicas e regulamentação para alcançar escala nacional.
A geração de calor representa hoje cerca de 50% da demanda de energia do setor industrial brasileiro. No entanto, grande parte desse calor é produzido a partir de fontes fósseis, como gás natural e óleo combustível. A substituição por calor proveniente da queima de biomassa ou biogás é uma das estratégias mais viáveis para descarbonizar a indústria, especialmente nas áreas de alimentos e bebidas, papel e celulose, cerâmica e metalurgia.
No setor de transportes, o Brasil já é pioneiro no uso de biocombustíveis com o etanol e o biodiesel. A biomassa agora abre caminho para uma nova geração de combustíveis, como o etanol de segunda geração (a partir de resíduos), o biometano (em substituição ao diesel em caminhões e ônibus), e o SAF (combustível sustentável de aviação), derivado de resíduos lignocelulósicos. Essas rotas tecnológicas são vistas como fundamentais para a redução de emissões em setores de difícil eletrificação, como a aviação e o transporte pesado de cargas.
Além dos benefícios energéticos, a biomassa se insere em uma lógica de economia circular. O aproveitamento de resíduos evita sua disposição em aterros ou sua queima inadequada, reduzindo emissões de metano, lixiviação de nutrientes e contaminação ambiental. O uso do biochar, por exemplo, devolve carbono ao solo, melhora sua estrutura e fertilidade, e contribui para o sequestro de carbono de longa duração.
Do ponto de vista econômico, a biomassa também oferece oportunidades de geração de renda em áreas rurais, diversificação de atividades agrícolas e criação de cadeias produtivas mais resilientes. Pequenas e médias propriedades podem integrar biodigestores aos seus sistemas produtivos, produzindo energia e biofertilizantes de forma local.
Apesar do potencial, o aproveitamento da biomassa enfrenta desafios importantes. Entre eles:
Por outro lado, a COP30 surge como uma oportunidade para reposicionar a biomassa como vetor da transição energética. O Brasil pode apresentar ao mundo um modelo de descarbonização que alia segurança alimentar, sustentabilidade ambiental e desenvolvimento econômico regional.
Estudos da BloombergNEF e da Agência Internacional de Energia projetam que países com alta disponibilidade de biomassa sustentável, como o Brasil, poderão liderar a produção de combustíveis verdes e exportar tecnologia e know-how. O país também poderá integrar o mercado internacional de carbono com projetos certificados de substituição de fósseis por biomassa, especialmente em setores industriais.
Além disso, ao investir em biocombustíveis avançados e na diversificação de fontes renováveis, o Brasil reforça sua segurança energética e diminui a dependência de fontes voláteis ou poluentes. A descentralização do sistema, por meio de soluções baseadas em biomassa, também contribui para maior resiliência diante de crises climáticas e econômicas.
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