A última década consolidou um movimento promissor: confiar na natureza para garantir o futuro da água potável no planeta. É o que revela um novo relatório global elaborado pela The Nature Conservancy (TNC) e pela Forest Trends, que aponta que os investimentos em soluções baseadas na natureza (SbNs) voltadas para a segurança hídrica mais do que dobraram entre 2013 e 2023, saltando de US$ 22,4 bilhões para US$ 49 bilhões.
A análise, que reuniu dados de 140 países ao longo de dez anos, mostra que a confiança na natureza como parceira estratégica na gestão hídrica está mais sólida do que nunca, e cada vez mais diversificada. O número de iniciativas cresceu significativamente, somando mais de 1.600 projetos implementados ao redor do mundo. Esses projetos vão desde a recuperação de florestas e áreas úmidas, até o uso de inteligência artificial para prever riscos de deslizamentos e inundações.
Embora o setor ainda seja dominado por recursos públicos (97%), o crescimento de investidores privados e de usuários diretos dos serviços de bacias hidrográficas é um dos destaques. O financiamento privado aumentou 30 vezes em uma década, e o apoio direto de empresas e serviços públicos triplicou — um sinal claro de que quem depende da água também está disposto a investir na sua proteção.
Segundo Daniel Shemie, Diretor Global de Resiliência da Água Doce da TNC, os números refletem uma virada de chave. “É animador ver que não apenas o discurso mudou, mas que o dinheiro está efetivamente fluindo para onde pode causar impacto. Mesmo com pressões econômicas, como a pandemia, o ritmo de crescimento continuou forte, especialmente no setor privado”, afirma.
O Brasil, com sua vasta rede de bacias hidrográficas e desafios estruturais no saneamento básico, é um terreno fértil para ampliar esses investimentos. Samuel Barrêto, da TNC Brasil, aponta que uma pequena fração dos R$ 500 bilhões estimados para a universalização do saneamento até 2040, se aplicada em SbNs, poderia fortalecer a resiliência hídrica de forma duradoura e complementar. “Essas ações não apenas garantiriam o abastecimento de água como trariam ganhos sociais e econômicos para as comunidades e atividades produtivas”, destaca.
Entre os motivos que mais impulsionaram os investimentos, estão a mitigação de riscos de inundações e a melhoria da qualidade da água. As intervenções mais comuns envolvem reflorestamento, recuperação de nascentes, restauração de margens de rios e proteção de áreas naturais estratégicas. E não se trata de soluções alternativas, como explica Gena Gamie, da Forest Trends: “As SbNs estão deixando de ser plano B para se tornarem parte da infraestrutura principal de segurança hídrica”.
Globalmente, a África desponta como a região com o crescimento mais acelerado (cinco vezes), enquanto a China lidera em volume absoluto, com US$ 26 bilhões aplicados apenas em 2023. A Ásia, excluindo a China, também avança rapidamente, com destaque para Japão, Índia, Vietnã e Coreia do Sul. A Europa dobrou seus investimentos desde 2016, especialmente em controle de enchentes e qualidade da água, com forte apoio da União Europeia.
Na América Latina e Caribe, o investimento em SbNs mais do que duplicou desde 2016, atingindo US$ 390 milhões em 2023. O crescimento foi impulsionado por financiamentos multilaterais e programas nacionais que destinam mais de US$ 1 milhão cada. No Brasil, o Fundo de Água de São Paulo mostra o potencial da integração entre infraestrutura verde e cinza. Com quase 23 mil hectares conservados e restaurados em três bacias, a iniciativa reúne esforços públicos e privados e já ultrapassou R$ 29 milhões em investimentos.
Nos Estados Unidos e no Canadá, os SbNs também ganham espaço, com US$ 9,3 bilhões investidos em 2023. Embora o financiamento venha, em sua maioria, de governos, crescem os mecanismos orientados por usuários e iniciativas de mercado, como programas de serviços ambientais e fundos florestais.
Na Oceania, Austrália e Nova Zelândia lideram com programas de grande escala que combinam conservação e inclusão econômica, como o “Jobs for Nature”, que direciona investimentos ambientais para geração de empregos. A liderança indígena também desempenha papel fundamental na modelagem dessas soluções.
O relatório, intitulado Doubling Down on Nature: State of Investment in Nature-based Solutions for Water Security, 2025, traz ainda recomendações sobre como acelerar e diversificar os investimentos no setor. Entre elas estão o fortalecimento de políticas públicas, a criação de modelos de receita resilientes e o protagonismo das lideranças locais.
Em tempos de mudanças climáticas e escassez hídrica, a mensagem é clara: proteger a natureza é investir no futuro da água. E, cada vez mais, governos, empresas e comunidades estão entendendo que a conta fecha melhor quando a natureza entra na equação.
O relatório completo pode ser acessado no site da TNC Brasil. Para conhecer mais iniciativas em andamento, acesse: https://resilientwatersheds.nature.org
O campo que resiste dentro da cidade Localizado na Estrada da Ceasa, no bairro Curió-Utinga,…
Quando a ciência começa dentro da favela As mudanças climáticas já não são uma abstração…
Quando a noite não apaga mais o cuidado com a vida Até pouco tempo atrás,…
Cientistas brasileiras no centro das decisões climáticas globais A ciência do clima é, hoje, um…
A margem equatorial como nova fronteira energética do Brasil A extensa faixa do litoral brasileiro…
This website uses cookies.