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Há vinte anos, a China lançou um conceito que transformou sua maneira de lidar com a relação entre economia e meio ambiente: “águas límpidas e montanhas verdejantes são tão valiosas quanto montanhas de ouro e prata”. Hoje, esse princípio se tornou uma política de Estado e encontrou no Parque Nacional de Sanjiangyuan, no sul da província de Qinghai, seu maior laboratório. É lá, no alto do Planalto Tibetano, que nascem os rios Yangtze, Amarelo e Lancang (Mekong), responsáveis por sustentar a vida de milhões de pessoas na Ásia.
O governo chinês entendeu cedo que proteger essas nascentes era proteger o futuro de todo um continente. Em 2021, durante visita à região, o presidente Xi Jinping reforçou essa ideia ao declarar que cuidar da ecologia local é “uma questão de grande importância nacional”. A frase ganha peso diante do fato de que mudanças climáticas já afetam a região, conhecida como o “Terceiro Polo da Terra” pela grande concentração de gelo e água doce fora da Antártida e do Ártico.
O Parque Nacional de Sanjiangyuan foi criado justamente para responder a essa ameaça. A experiência chinesa mostra que é possível conciliar conservação, desenvolvimento sustentável e melhoria de condições de vida. A região, antes pressionada pela exploração predatória, agora vê aumento da cobertura vegetal, recuperação de espécies nativas e novas oportunidades econômicas em torno do turismo ecológico e da gestão ambiental.
E por que isso interessa ao Brasil? Porque aqui também temos “torres de água” que sustentam milhões de pessoas. A Amazônia, o Cerrado e até áreas da Mata Atlântica cumprem papel semelhante ao de Sanjiangyuan, alimentando rios que regulam o clima e garantem água e energia para grande parte da população. No entanto, enquanto a China avança em políticas integradas de proteção, nós ainda convivemos com o desmatamento ilegal, a grilagem de terras e a poluição crescente dos nossos cursos d’água.
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Imagine se tratássemos o Aquífero Guarani ou a nascente do Rio São Francisco com o mesmo status que os chineses deram a Sanjiangyuan. O impacto seria enorme: segurança hídrica, redução de conflitos pelo uso da água e fortalecimento de comunidades locais como protagonistas da preservação. A lógica de curto prazo, que muitas vezes guia decisões econômicas no Brasil, daria lugar a uma visão de longo prazo que valoriza o equilíbrio entre desenvolvimento e natureza.
Há lições diretas a serem absorvidas. Primeiro, a de que conservação não é obstáculo ao progresso, mas condição para ele. Segundo, a de que a gestão integrada de parques nacionais pode gerar riqueza não apenas em biodiversidade, mas também em turismo, pesquisa científica e inovação em tecnologias verdes. Terceiro, que dar protagonismo às comunidades locais é chave para o sucesso, exatamente o que já se mostra em experiências brasileiras, como em reservas extrativistas na Amazônia.
Celebrar os 20 anos do conceito chinês é, portanto, também uma oportunidade de reflexão para o Brasil. Se a China conseguiu transformar um princípio ecológico em política nacional, por que não podemos adotar a mesma ousadia?
Enquanto aqui muitas vezes discutimos preservação como um custo, Sanjiangyuan prova que ela pode ser um investimento de altíssimo retorno. Lá, montanhas verdejantes e águas límpidas não são apenas paisagens bonitas: são riqueza real, sustentando economias inteiras e garantindo qualidade de vida às futuras gerações. O Brasil, dono de alguns dos maiores patrimônios hídricos e florestais do mundo, não pode se dar ao luxo de continuar tratando seus recursos naturais como se fossem infinitos.
Em tempos de crise climática, olhar para o exemplo chinês é também olhar para o espelho. A defesa das nascentes dos Três Rios é um lembrete de que o futuro se constrói agora. E talvez esteja na hora de o Brasil assumir que suas florestas, rios e aquíferos são tão valiosos quanto qualquer jazida de ouro ou campo de petróleo.
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