Preguiça-real reaparece em áreas urbanas da Mata Atlântica - Imagem gerada por IA
A cena parece saída de um documentário: um morador abre a janela de manhã e vê, bem ali na árvore do quintal, uma preguiça-real pendurada e imóvel. Essa cena inusitada está se tornando cada vez mais comum em regiões urbanizadas próximas a fragmentos de mata. Pouco conhecida, a preguiça-real (Bradypus torquatus) é um símbolo da biodiversidade brasileira e também um alerta silencioso sobre os impactos da urbanização.
A preguiça-real é uma das três espécies de preguiça existentes no Brasil e a única restrita à Mata Atlântica. É facilmente reconhecida por sua pelagem longa e espessa, com um colar escuro ao redor do pescoço — o que lhe confere o nome “real”. Ela mede cerca de 60 cm e pesa em torno de 4 a 6 quilos, sendo levemente menor que a preguiça-comum.
Seu comportamento é calmo, quase meditativo. Passa a maior parte do tempo pendurada nos galhos altos, movendo-se lentamente entre as árvores. Seus hábitos silenciosos e seu modo de vida discreto explicam por que ela passa despercebida até mesmo por quem vive próximo ao seu habitat.
Nos últimos anos, pesquisadores e moradores têm notado um fenômeno curioso: o reaparecimento da preguiça-real em áreas urbanas do litoral da Bahia, Espírito Santo e sul do Rio de Janeiro. Isso acontece por dois fatores principais: a expansão da cidade sobre áreas de Mata Atlântica e a própria resiliência da espécie, que tenta se adaptar mesmo diante da pressão urbana.
Em muitos bairros com remanescentes florestais, é possível encontrar preguiças cruzando fios elétricos, sendo resgatadas em muros de residências ou caminhando lentamente por calçadas. Apesar do charme da cena, ela revela um problema sério: a perda de habitat e a fragmentação florestal estão forçando o animal a circular por ambientes perigosos e incompatíveis com sua natureza.
A adaptação da preguiça-real ao espaço urbano não significa que ela esteja segura. Muito pelo contrário. As ameaças são diversas: atropelamentos, choques elétricos, ataques de cães, queimadas e até mesmo o tráfico de animais silvestres. Muitas vezes, ao avistar uma preguiça, moradores bem-intencionados tentam ajudá-la, mas acabam colocando a própria vida do animal em risco por falta de conhecimento técnico.
ONGs e centros de reabilitação de fauna recebem constantemente preguiças machucadas, desnutridas ou órfãs. O resgate é uma medida emergencial, mas o ideal seria conservar os corredores ecológicos e fragmentos de mata nativa que permitem a circulação desses animais com segurança.
Se você encontrar uma preguiça-real em seu bairro ou jardim, mantenha a calma. A primeira recomendação é não tentar manusear o animal. Embora pareça inofensiva, a preguiça pode se estressar com facilidade e se defender com garras afiadas. O melhor a fazer é entrar em contato com a Secretaria de Meio Ambiente local ou com órgãos ambientais como o Ibama ou a Polícia Ambiental. Eles têm equipes treinadas para realizar o resgate sem prejudicar o animal.
Em casos onde a preguiça está em área segura, como uma árvore ou um jardim cercado, o ideal é apenas observar à distância e aguardar que ela siga seu caminho. A presença da preguiça-real é um indicativo de que ainda há vida silvestre resistente nos entornos urbanos.
Apesar do nome e do comportamento lento, a preguiça-real tem um papel fundamental na cadeia ecológica. Ao se alimentar de folhas, ela ajuda na poda natural das árvores e contribui para o equilíbrio da flora. Sua pelagem serve de abrigo para algas, fungos e microfauna, funcionando como um pequeno ecossistema ambulante. Ela também é presa de animais maiores, como onças e harpias — embora essas já estejam praticamente extintas em áreas urbanas.
A conservação da preguiça-real ajuda a proteger um conjunto muito maior de espécies e mantém viva a diversidade da Mata Atlântica, um dos biomas mais ameaçados do planeta.
Encontrar uma preguiça-real é, para muitos, uma experiência quase espiritual. Sua presença transmite calma, paciência e um ritmo de vida desacelerado — tudo aquilo que falta no cotidiano urbano. Ela nos lembra que é possível viver com menos pressa, com mais silêncio e em harmonia com o ambiente ao redor.
Preservar a preguiça-real é, acima de tudo, preservar o nosso próprio equilíbrio com a natureza. E, quem sabe, inspirar novas formas de coexistência entre cidades e florestas.
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