Jasmín Ordóñez, à esquerda, e Cassandra Garduño colhem acelga cultivada na chinampa de Garduño, uma fazenda construída pelos astecas há milhares de anos, em San Gregorio Atlapulco, um bairro da Cidade do México, em 20 de setembro de 2025. | AP Photo/Felix Marquez
À medida que o planeta enfrenta uma das maiores encruzilhadas de sua história, a fome e a crise climática deixaram de ser problemas isolados. Elas agora se entrelaçam num círculo vicioso que ameaça o bem-estar de bilhões de pessoas. Em novembro de 2025, quando líderes mundiais se reunirem em Belém para a COP30, o debate sobre resiliência e segurança alimentar precisará ocupar o centro das negociações. Garantir sistemas alimentares sustentáveis e justos é, mais do que nunca, um imperativo de sobrevivência — tanto para o planeta quanto para as populações mais vulneráveis.
Segundo o SDG2 Advocacy Hub, alcançar o segundo Objetivo de Desenvolvimento Sustentável — “Fome Zero” — depende de ações que unam clima, agricultura, nutrição e equidade social. Isso exige enfrentar as desigualdades que moldam os sistemas alimentares globais: o acesso desigual à terra e à água, práticas agrícolas predatórias, a concentração de renda e o impacto desproporcional das mudanças climáticas sobre o Sul Global.
Enquanto países ricos investem em tecnologias de adaptação, comunidades inteiras na África, Ásia e América Latina enfrentam colheitas perdidas, safras imprevisíveis e a escalada dos preços de alimentos básicos. Em 2024, o Global Report on Food Crises registrou mais de 295 milhões de pessoas em 53 países vivendo em insegurança alimentar aguda — um número impulsionado por eventos climáticos extremos e instabilidade econômica.
A agricultura, responsável por cerca de um terço das emissões globais de gases de efeito estufa, é também uma das principais vítimas do aquecimento global. Secas prolongadas, enchentes devastadoras e pragas intensificadas estão redesenhando o mapa da produção agrícola mundial. A cada novo desastre, comunidades rurais perdem mais do que suas colheitas: perdem a base de sua segurança, cultura e dignidade.
Um exemplo emblemático é o Ciclone Freddy, que em 2023 destruiu plantações e matou mais de 1,4 milhão de animais em Malawi, segundo dados da Oxfam. Mais de 2 milhões de agricultores foram afetados. Sem seguro, sem reservas financeiras e sem apoio governamental, muitos ficaram sem sementes ou ferramentas para recomeçar. O caso de Malawi não é exceção — é um retrato global de como a crise climática empurra agricultores para um ciclo de pobreza e fome.
E, paradoxalmente, são os pequenos agricultores que sustentam o mundo. Estima-se que eles sejam responsáveis por cerca de um terço de toda a produção alimentar global, mas recebem apenas 0,8% do financiamento climático anual, de acordo com a ClimateShot Investor Coalition. Sem acesso a crédito, tecnologia e políticas de adaptação, eles enfrentam os impactos mais severos do clima com os menores recursos.
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Sediando a COP30, o Brasil está em posição estratégica para liderar uma transformação global nos sistemas alimentares. O país é simultaneamente potência agrícola e guardião da maior floresta tropical do planeta. No entanto, essa dualidade também revela contradições profundas: o avanço da fronteira agrícola, impulsionado por grandes corporações e pela demanda global por carne e soja, é o principal vetor de desmatamento na Amazônia — responsável por cerca de 80% da perda florestal, segundo o MapBiomas.
Essa equação, porém, pode ser redefinida. O Brasil tem o potencial de mostrar ao mundo que é possível produzir alimentos de forma regenerativa, fortalecendo agricultores familiares, valorizando cadeias da sociobiodiversidade e promovendo uma agricultura de baixo carbono. Integrar nutrição, biodiversidade e justiça social à pauta climática é o passo decisivo para uma nova política alimentar global.
Os números escancaram a urgência. O setor de agricultura e alimentação recebe menos de 5% do financiamento climático global, segundo o UNDP. Pesquisas indicam que seriam necessários US$ 1,1 trilhão por ano até 2030 para alcançar sistemas alimentares sustentáveis que gerem empregos, protejam a natureza e cumpram o Acordo de Paris.
Se o mundo não agir agora, quatro consequências são inevitáveis:
O aumento da fome global, com milhões enfrentando insegurança alimentar aguda.
O colapso dos sistemas agrícolas locais, especialmente nos países mais vulneráveis.
O abandono dos pequenos agricultores, sem recursos para adaptação e recuperação.
A continuidade do ciclo destrutivo entre degradação ambiental e desigualdade social.
Investir em resiliência alimentar não é apenas uma estratégia de mitigação climática — é uma política de justiça global. Significa garantir que povos indígenas, agricultores familiares e comunidades tradicionais possam viver da terra sem destruí-la, que o alimento chegue a todos e que a economia da floresta viva tenha valor real.
Em Belém, durante a COP30, o desafio será transformar intenções em compromissos concretos. Isso significa aumentar o financiamento climático voltado à agricultura sustentável, apoiar redes de pequenos produtores e incluir políticas de nutrição e alimentação nas metas de adaptação climática.
A segurança alimentar deve ser tratada como um pilar da ação climática, e não como consequência dela. O futuro da comida — e, por extensão, da humanidade — depende de que governos, empresas e sociedade civil entendam que combater a crise climática e combater a fome são, essencialmente, a mesma luta.
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