Meio Ambiente

Trabalhar juntos para frear o desmatamento: por que precisamos de mudanças sistêmicas nos sistemas agroalimentares

O desmatamento e a degradação florestal estão entre as maiores crises do nosso tempo. Milhões de hectares de floresta desaparecem todos os anos, minando esforços globais para enfrentar a mudança climática, proteger a biodiversidade e garantir a segurança alimentar. Ao mesmo tempo, as florestas seguem sendo indispensáveis para bilhões de pessoas no mundo, sobretudo para comunidades rurais que delas dependem para sobreviver. Diante dessa realidade, soluções pontuais já não bastam: é preciso transformar de forma sistêmica os sistemas agroalimentares que hoje pressionam esses ecossistemas.

A urgência é evidente. Os compromissos internacionais sobre clima, biodiversidade e desenvolvimento sustentável só podem ser cumpridos se conseguirmos frear o desmatamento. Florestas regulam chuvas, armazenam carbono e abrigam biodiversidade em escala inigualável. Também sustentam a produção de alimentos, ao evitar erosão do solo, garantir polinização e equilibrar microclimas.

Entretanto, a agricultura, justamente o setor que mais depende das florestas, figura como um dos principais motores de sua destruição. A expansão de áreas para soja, óleo de palma, cacau ou gado bovino, além da extração insustentável de lenha, compromete a base da própria segurança alimentar global. O que está em jogo, portanto, não é apenas uma questão ambiental, mas um desequilíbrio estrutural entre ganhos econômicos de curto prazo e a estabilidade ecológica de longo prazo.

A boa notícia é que alternativas existem e já estão em prática. Agricultores adotam modelos de agroflorestas, comunidades manejam seus territórios de maneira sustentável e governos testam políticas que conciliam proteção e produção. O problema não é a falta de ideias, mas de coerência, escala e alinhamento com as causas profundas do desmatamento. Daí a importância de promover mudanças sistêmicas: só elas conseguem atacar a raiz da questão, conectando diferentes dimensões da crise.

Agrofloresta em Melgaço no Marajó – Agência Pará

VEJA TAMBÉM: Agroflorestas unem renda e conservação na reserva de desenvolvimento do Uatumã

Cultivo sem a necessidade do desmatamento

Especialistas apontam seis transformações centrais para esse processo. A primeira é fortalecer a governança da terra, enfrentando a insegurança fundiária, a corrupção e as lacunas de políticas públicas, garantindo que povos indígenas e comunidades locais participem das decisões. A segunda envolve ampliar modelos agrícolas sustentáveis, como agroecologia, agroflorestas, sistemas silvipastoris e restauração de áreas degradadas, de modo a aliviar a pressão sobre as florestas e, ao mesmo tempo, aumentar produtividade e renda.

O terceiro passo é promover consumo e comércio responsáveis, assegurando transparência nas cadeias de suprimento e políticas de mercado que priorizem a sustentabilidade. A quarta transformação propõe a criação de incentivos econômicos para manter a integridade florestal, como pagamentos por serviços ecossistêmicos, finanças mistas ou subsídios reorientados para valorizar mais a floresta em pé do que derrubada.

O quinto eixo trata da necessidade de sistemas de informação mais confiáveis e acessíveis, que empoderem governos, empresas e comunidades com dados de qualidade para decisões acertadas. Por fim, o sexto ponto é melhorar os meios de vida rurais, combatendo pobreza, desigualdade de gênero e falta de oportunidades que levam tantas famílias a optar pela derrubada da floresta como último recurso.

Para conectar essas dinâmicas, a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), em parceria com governos e instituições como o Ministério da Agricultura, Florestas e Pesca do Japão e o Programa ONU-REDD, desenvolveu a ferramenta Solutions-tree: uma árvore de soluções voltada para interromper o desmatamento por meio da transformação dos sistemas agroalimentares. O instrumento organiza respostas segundo os seis eixos, oferecendo comparações, estudos de caso e estratégias adaptáveis a diferentes contextos.

A FAO, em colaboração com parceiros como o Fundo Verde para o Clima e o ONU-REDD, já iniciou testes da ferramenta em diversos países. O protótipo será apresentado oficialmente até o fim deste ano e, até lá, a organização convida governos e instituições a somarem experiências, publicações e casos concretos.

Os resultados iniciais já foram compartilhados em grandes encontros internacionais. No Japão, durante a 9ª Conferência Internacional de Tóquio sobre o Desenvolvimento da África (TICAD 9), destacou-se a importância de integrar agricultura e florestas para acelerar o desenvolvimento sustentável no continente. O Benin, por exemplo, relatou que o uso da Solutions-tree ajudou a alinhar sua estratégia de REDD+ de uma visão fragmentada para uma abordagem sistêmica. Mais recentemente, em Bangcoc, governos da Ásia-Pacífico e mais de 20 organizações parceiras discutiram desafios e avanços, reforçando a confiança e a cooperação como elementos-chave da transformação.

Esses marcos demonstram que a Solutions-tree vai além de um quadro conceitual: ela se consolida como uma plataforma colaborativa que se fortalece a cada contribuição, aproximando o mundo de um novo equilíbrio. Um equilíbrio capaz de assegurar segurança alimentar, proteger a biodiversidade e sustentar meios de vida para as próximas gerações.

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