Um novo estudo da consultoria McKinsey mostra que as tarifas protecionistas implementadas pelos Estados Unidos e pela União Europeia podem atrasar significativamente a transição energética global. As medidas, que visam conter o domínio chinês na cadeia de fornecimento de tecnologias limpas, encarecem painéis solares, baterias, turbinas eólicas e veículos elétricos — pilares essenciais para a descarbonização da matriz energética mundial.
O levantamento da McKinsey estima que, mantido o atual cenário de tarifas elevadas, a participação das energias renováveis na matriz dos Estados Unidos poderá ficar estagnada em torno de 49% até 2035. Sem as barreiras comerciais, esse número poderia chegar a 69%. Na União Europeia, o impacto também é expressivo: a meta de 86% de energia renovável na matriz elétrica seria adiada de 2035 para 2037.
Os países do Ocidente argumentam que as tarifas são necessárias para proteger suas indústrias e evitar dependência tecnológica da China. Mas, de acordo com a McKinsey, o efeito colateral é o atraso na adoção de soluções mais sustentáveis, com risco de fortalecer fontes fósseis como o gás natural, que ganha competitividade diante da elevação dos custos das tecnologias limpas.
A análise considera três cenários. O primeiro, chamado de “base”, considera a manutenção das políticas comerciais em vigor até 2024, com tarifas de 50% sobre painéis solares, 25% sobre baterias e 100% sobre veículos elétricos vindos da China para os EUA, além de tarifas de até 35% para veículos elétricos que entram na Europa. É nesse cenário que haveria uma aceleração moderada na produtividade e na capacidade instalada de energia limpa.
O segundo cenário, considerado intermediário, simula uma ampliação das tarifas: 20% sobre todos os produtos chineses, 25% sobre importações do México e Canadá, e média de 52% sobre módulos solares de países do Sudeste Asiático. Já o terceiro cenário, denominado “escalada das tensões globais”, projeta tarifas de até 60% sobre produtos chineses, 20% para demais países, e taxas recordes na Europa: 140% sobre turbinas eólicas chinesas e quase 48% sobre painéis solares.
É sobre esse último cenário que se concentram as projeções mais preocupantes. A conclusão: a transição energética ocorrerá, mas com atraso, menor alcance e maior custo.
Entre as tecnologias mais impactadas pelas tarifas estão a energia solar, a eólica e os sistemas de armazenamento por bateria. No caso da energia solar, a capacidade instalada nos Estados Unidos poderia ser 9% menor em 2035 no cenário de tensões comerciais, comparado ao cenário base. Na União Europeia, a queda seria de 7%. A energia solar seria a mais afetada devido à dependência de módulos e componentes vindos da China, que domina boa parte da produção global com preços competitivos.
A energia eólica, por sua vez, sentiria o maior impacto na Europa, onde 36% da tecnologia eólica importada vem da China. Já nos EUA, essa dependência é de 17%. A previsão é de redução de 6% na capacidade instalada de energia eólica (onshore e offshore) até 2035, caso o protecionismo se mantenha. Mesmo assim, o estudo projeta crescimento expressivo da eólica terrestre na Europa (cerca de 50%) e nos EUA (40%) no melhor cenário. Para a energia eólica offshore, o crescimento europeu poderia chegar a quase três vezes a capacidade atual.
Já os sistemas de armazenamento por bateria (BESS), fundamentais para a estabilidade das redes que operam com fontes intermitentes como sol e vento, também sentirão o impacto das tarifas. A McKinsey estima que a capacidade instalada cairia 4% nos EUA e até 10% na Europa, em relação ao cenário mais otimista. A China é atualmente o maior exportador desses sistemas, mas a disponibilidade de matérias-primas críticas como lítio e cobalto em países como Chile, Argentina, Austrália e República Democrática do Congo abre espaço para novas rotas comerciais e investimentos em processamento local.
As barreiras tarifárias também impactam diretamente a transição da frota automotiva para veículos elétricos. A União Europeia, por exemplo, tem o objetivo de proibir a venda de novos carros a combustão (gasolina e diesel) a partir de 2035. Contudo, com tarifas elevadas sobre veículos elétricos chineses, o ritmo dessa substituição pode ser comprometido.
No cenário tarifário atual (35% sobre os elétricos chineses), a participação dos carros elétricos nas vendas da UE poderia chegar a 50% até 2030. No cenário de escalada de tensões, esse índice cairia para 41%. Nos EUA, embora o estudo não traga projeções específicas para a penetração dos veículos elétricos, observa-se que o país também depende das importações do México, Canadá e da própria Europa para abastecer seu mercado — o que significa que o impacto das tarifas pode ser similar.
Atualmente, 30% das vendas de veículos elétricos na União Europeia são de modelos importados, sobretudo da China. Nos EUA, as importações representam cerca de 35% do mercado. Embora a capacidade de produção de elétricos esteja se expandindo localmente, ela ainda não é suficiente para suprir a demanda de forma competitiva sem os insumos e componentes asiáticos.
Na brecha aberta pela desaceleração da transição energética, o gás natural pode ganhar protagonismo como fonte de geração. Mais barato e com infraestrutura já consolidada, ele tende a ocupar o espaço que seria destinado à solar e à eólica no curto e médio prazos. Segundo a McKinsey, a participação do gás natural na matriz energética dos EUA pode chegar a 31% até 2035, caso as tarifas continuem elevadas.
A tendência é semelhante na Europa, onde os custos crescentes das tecnologias limpas — somados ao aumento dos gastos com defesa — criam um ambiente desfavorável ao avanço mais rápido das renováveis. A substituição de carvão por gás natural pode representar um ganho relativo em emissões, mas está longe de ser compatível com os compromissos de neutralidade de carbono firmados no Acordo de Paris e reafirmados nas COPs recentes.
O estudo da McKinsey também contextualiza os impactos tarifários dentro de um cenário geopolítico mais amplo. Com a escalada das tensões entre China e Estados Unidos, e o possível retorno de Donald Trump à presidência americana, o foco político tem migrado da pauta climática para outras prioridades estratégicas. Entre elas, o avanço da inteligência artificial, o aumento dos orçamentos de defesa, novas alianças comerciais e a disputa por liderança tecnológica.
Os países europeus, por exemplo, têm revisado seus orçamentos para destinar mais recursos às Forças Armadas, especialmente após ameaças de Trump de cortar o apoio militar à Ucrânia e se retirar da OTAN. Diante desse quadro, a ONU chegou a emitir alertas pedindo que a Europa não troque a proteção climática pela corrida armamentista.
A desaceleração da transição energética nos países centrais tem efeitos indiretos sobre o restante do mundo, inclusive o Brasil. As metas definidas na COP28, realizada em Dubai, exigem um triplo aumento da capacidade global de energias renováveis para manter o aquecimento global abaixo de 1,5°C.
A China, os EUA e a Europa concentraram mais de 90% da nova capacidade instalada em 2024, segundo dados da Agência Internacional de Energias Renováveis (IRENA). Isso significa que qualquer atraso nesse grupo impacta diretamente o ritmo global da descarbonização.
A IRENA calcula que, para atingir os objetivos climáticos, a taxa de crescimento da capacidade renovável precisa chegar a 16,6% ao ano — acima dos 15% registrados em 2024. O Brasil, embora tenha posição estratégica na produção de energias limpas, pode sofrer efeitos indiretos com o aumento nos custos de tecnologias importadas, como módulos solares e sistemas de baterias.
Outro fator preocupante é o desmonte de políticas públicas de incentivo à energia limpa nos Estados Unidos. Desde que reassumiu o poder, Donald Trump tem promovido ações que enfraquecem o marco regulatório da transição energética. No último 4 de julho, sancionou o One Big Beautiful Bill (BBB), que revoga incentivos previstos na Lei de Redução da Inflação (IRA), considerada uma das principais políticas climáticas da história americana.
Entre os programas afetados está o Solar for All, que previa US$ 7 bilhões para financiar a instalação de painéis solares em cerca de 900 mil residências de baixa e média renda. Apesar de todo o recurso já ter sido alocado pela Agência de Proteção Ambiental (EPA), apenas US$ 53 milhões foram efetivamente investidos, segundo a Atlas Public Policy.
A nova legislação amplia os subsídios aos combustíveis fósseis e à energia nuclear, revertendo o avanço conquistado nos últimos anos. Para a McKinsey, essa mudança de postura, somada ao tarifaço, poderá colocar os EUA em rota contrária às metas globais de descarbonização — especialmente se outros países seguirem a mesma direção.
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