
A hegemonia do ouro marrom: Pará consolida liderança global em produtividade
O solo amazônico reafirma sua vocação como o grande celeiro da cacauicultura contemporânea. A mais recente edição do relatório de Previsão de Safra de Cacau no Estado do Pará, elaborado pela Secretaria de Estado de Desenvolvimento Agropecuário e da Pesca com o suporte técnico da Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira, revela um cenário de pujança sem precedentes. O estado não apenas mantém a dianteira no volume nacional, alcançando a marca de 141.452 toneladas, como também registra índices de eficiência que o colocam no topo do ranking mundial. Enquanto a média do continente africano — o maior produtor em volume absoluto — gira em torno de 500 kg por hectare, o Pará ostenta uma produtividade média de quase 900 kg por hectare, pulverizando a média brasileira de 483 kg.
Esse salto qualitativo e quantitativo é fruto de uma combinação entre condições edafoclimáticas singulares e o aprimoramento técnico das famílias que vivem do campo. O estudo, financiado pelo Fundo de Apoio à Cacauicultura do Estado do Pará (Funcacau), aponta que a excelência paraense reside no rigor dos tratos culturais. O controle minucioso de pragas, a precisão no calendário de podas e o aproveitamento máximo de cada colheita transformaram a lavoura em um modelo de alta performance. Em cidades como Placas, Brasil Novo e Uruará, situadas na estratégica região da Transamazônica, a produtividade rompeu a barreira dos mil quilos por hectare, um feito que redefine os parâmetros da indústria global.
O triunfo da agricultura familiar e a genética da qualidade
A história por trás desses números é escrita por mãos que conhecem o tempo da terra. O produtor Gilmar Souza, de Uruará, personifica essa evolução. Recentemente laureado com a Medalha de Ouro no Cacao of Excellence 2025 em Amsterdã, na Holanda, Souza representa a transição do manejo tradicional para o pioneirismo técnico com o uso de cacau enxertado. Essa técnica, aliada à dedicação herdada de gerações, permitiu que a amêndoa paraense fosse reconhecida como a melhor do mundo. O sucesso individual reflete uma tendência coletiva: o fortalecimento da agricultura familiar como motor econômico e guardiã da sustentabilidade ambiental.

Giovanni Queiroz, titular da Sedap, enfatiza que o profissionalismo do pequeno produtor é o verdadeiro diferencial competitivo do estado. O modelo paraense demonstra que é possível aliar alta produtividade à preservação, criando um ciclo de desenvolvimento que valoriza a origem e a qualidade do produto final. Esse reconhecimento internacional não apenas eleva o valor de mercado da amêndoa, mas atrai investimentos para a cadeia produtiva, consolidando o Pará como uma referência ética e técnica no fornecimento de matéria-prima para o mercado de chocolates finos e de alta escala.
Radiografia da safra: os polos que sustentam o crescimento
O relatório técnico funciona como uma bússola para a gestão pública e para a iniciativa privada, mapeando detalhadamente as áreas de maior influência. A região da Transamazônica permanece como o coração pulsante da cultura, respondendo por impressionantes 86,3% da produção estadual. Municípios como Medicilândia, líder isolado com mais de 37 mil toneladas, e Uruará formam a espinha dorsal desse ecossistema. O Sudeste paraense e o Nordeste do estado também apresentam participações relevantes, demonstrando a capilaridade da cultura por diferentes zonas de integração.
Para chegar a esses dados, a Ceplac implementou uma metodologia rigorosa de amostragem. Foram aferidas 55 propriedades em 11 municípios altamente representativos, totalizando 275 pontos amostrais. O processo envolve a contagem física de milhares de frutos em diferentes estágios de maturação durante três períodos do ano — março, julho e outubro. Essa análise estatística permite prever com precisão o que chegará efetivamente ao mercado, considerando variáveis como a idade das plantações e a influência climática, além de monitorar ameaças como a podridão parda e o microácaro.

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Estratégia e futuro: superando os gargalos do setor
Apesar dos números recordes, o diagnóstico do setor não ignora os desafios que ainda permeiam a cacauicultura paraense. O relatório identifica gargalos logísticos e a necessidade contínua de assistência técnica especializada para equacionar perdas relacionadas a fungos e insetos. A coordenação do Programa de Desenvolvimento da Cadeia Produtiva da Cacauicultura no Pará destaca que a transparência dos dados é fundamental para a tomada de decisões. Com informações concretas, o governo e os parceiros privados podem direcionar recursos para as áreas de maior risco ou potencial, garantindo que o crescimento seja sustentado e inclusivo.
O compromisso do Pará com a transparência estatística e o apoio ao produtor sinaliza um futuro de liderança perene. A integração entre pesquisa científica, política pública e o saber prático dos agricultores familiares cria um ambiente de segurança jurídica e econômica. Enquanto o mundo volta os olhos para a Amazônia em busca de modelos de produção que respeitem a floresta, o cacau paraense se apresenta como a resposta mais sofisticada: uma cultura que gera riqueza, distribui renda e mantém o bioma em pé, entregando ao mercado global uma amêndoa com sabor de vitória e preservação.









