Estados zeram imposto sobre propriedade para atrair motoristas de carros a bateria

A engenharia tributária para popularizar o carro elétrico

A estratégia para colocar mais plugues nas garagens brasileiras passa, obrigatoriamente, por uma revisão profunda da cadeia de impostos. O custo de aquisição ainda é apontado como a principal barreira para o consumidor comum, realidade que o poder público tenta combater por meio de renúncias fiscais e programas de incentivo à eficiência. O foco deixou de ser apenas a importação de veículos prontos e passou a ser a atração de fábricas para o território nacional.

No âmbito federal, as diretrizes do programa de mobilidade verde estabelecem bilhões em créditos financeiros para as montadoras que investirem em pesquisa e desenvolvimento no país. O mecanismo do imposto sobre produtos industrializados verde premia os veículos que emitem menos poluentes com alíquotas reduzidas, criando uma competição saudável por eficiência energética. Essa política tenta equilibrar a balança comercial no momento em que as taxas de importação para veículos trazidos de fora voltam a subir gradativamente.

A verdadeira diferença para o bolso do cidadão, no entanto, tem sido desenhada nas secretarias de fazenda dos estados. A gestão do imposto sobre a propriedade de veículos automotores virou uma ferramenta de disputa para atrair frotas elétricas. Enquanto algumas unidades da federação optam pela isenção total para modelos puramente elétricos, outras aplicam travas de valor venal ou oferecem descontos agressivos na alíquota para frotas de táxis, pessoas com deficiência e produtores rurais.

O peso das baterias e a modernização da legislação de trânsito

A invasão dos utilitários esportivos e das grandes picapes movidas a eletricidade esbarrou em um limite físico inesperado da legislação brasileira: o peso bruto total permitido para condutores comuns. As baterias que garantem autonomias de centenas de quilômetros são componentes extremamente pesados, elevando a massa final dos veículos para patamares que a lei atual considera como caminhões de pequeno porte.

Para evitar que o comprador de um utilitário elétrico de luxo seja obrigado a passar por todo o processo de habilitação profissional (exigido para caminhões e ônibus), o Congresso Nacional analisa uma manobra regulatória específica. A proposta visa elevar o teto de peso da categoria B exclusivamente para veículos com tração predominantemente elétrica. Trata-se de uma compensação técnica direta para o peso extra do conjunto de armazenamento de energia.

Essa mudança de entendimento preserva a lógica de segurança do trânsito — já que as dimensões e a dirigibilidade desses utilitários continuam semelhantes às de um carro de passeio convencional —, ao mesmo tempo em que remove uma barreira burocrática pesada para a comercialização de modelos de grande porte no país. Veículos pesados que queimam diesel ou gasolina continuarão exigindo a habilitação profissional.

foto: Jaime Souzza/Norte Energia
foto: Jaime Souzza/Norte Energia

O desafio da infraestrutura e o carregamento em tempo recorde

De nada adianta baratear o custo do veículo se o motorista viver sob a constante ansiedade de ficar sem energia no meio de uma rodovia ou não ter onde plugar o carro ao chegar em casa. A consolidação da eletromobilidade depende umbilicalmente de uma rede de recarga capilar, veloz e confiável. É nesse ponto que a engenharia de materiais e a tecnologia de semicondutores entram em cena para tentar replicar a experiência de um posto de combustível tradicional.

A grande aposta para eliminar o tempo de espera nas viagens longas reside em estações de altíssima potência que operam sob tensões na casa de um milhar de volts. Essa tecnologia consegue injetar energia nas células em um ritmo brutal, completando a maior parte da carga em uma fração de minutos. Para que isso seja possível sem derreter os componentes ou degradar a vida útil do veículo, os cabos utilizam sistemas internos de refrigeração líquida e as baterias adotam químicas avançadas que facilitam o tráfego interno de íons.

O grande trunfo dessa nova geração de eletropostos para contornar as limitações da nossa rede de distribuição elétrica tradicional é o uso de baterias de armazenamento internas na própria estrutura do totem. O equipamento funciona como uma caixa d’água: ele puxa energia da rede da rua de forma lenta e contínua durante as horas em que ninguém está usando e, quando um veículo estaciona, despeja toda essa potência acumulada de uma só vez. Isso evita picos de demanda que poderiam derrubar a luz de um bairro inteiro.

ônibus
Ônibus elétrico

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A integração com o mercado de carbono e o futuro das cidades

O avanço da eletromobilidade não deve ser enxergado como um fenômeno isolado da indústria automotiva, mas como parte de uma engrenagem maior de descarbonização da economia. A recente regulamentação do mercado de créditos de carbono no Brasil abre um horizonte financeiro inédito para as empresas de transporte e frotistas que decidirem migrar para a matriz elétrica.

A substituição de frotas logísticas pesadas e de ônibus urbanos por modelos de emissão zero passará a gerar ativos ambientais que podem ser comercializados na bolsa de valores com grandes indústrias poluentes que precisam compensar suas pegadas ecológicas. Essa dinâmica cria um subsídio econômico indireto que acelera a renovação das frotas públicas e privadas, melhorando a qualidade do ar nos grandes centros urbanos.

As cidades começam a se adaptar também na esfera privada. Leis municipais e estaduais passam a exigir que novos condomínios residenciais e comerciais já nasçam com a infraestrutura elétrica preparada para a instalação de carregadores individuais nas vagas de garagem. O carro elétrico deixa de ser apenas um meio de transporte e passa a ser integrado como um eletrodoméstico inteligente conectado à rede das nossas casas.

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