Erosão em Atafona transforma casas em memórias submersas

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Atafona, distrito de São João da Barra, no norte do estado do Rio de Janeiro, consolidou-se como um dos casos mais emblemáticos de erosão costeira no Brasil. O avanço contínuo do mar, associado a alterações na dinâmica do Rio Paraíba do Sul e à elevação do nível oceânico, redesenhou o território de forma dramática nas últimas décadas. O que antes eram ruas consolidadas e áreas residenciais tornou-se faixa instável, marcada por escombros, dunas e estruturas parcialmente destruídas.

Mais do que um fenômeno ambiental, a erosão em Atafona representa um processo de deslocamento interno gradual, que atinge a organização social, a estabilidade econômica e, sobretudo, a saúde mental da população. A expressão “luto das paredes” sintetiza essa dimensão subjetiva da perda: quando uma casa desaparece, não se trata apenas de dano material, mas da ruptura de vínculos simbólicos e afetivos que estruturam a identidade territorial.

Território em retração, pertencimento em risco

A erosão costeira em Atafona caracteriza-se como um desastre lento. Diferentemente de enchentes súbitas ou deslizamentos instantâneos, o mar avança centímetro a centímetro, produzindo um estado prolongado de incerteza. Essa temporalidade dilatada transforma o risco em rotina. A cada ressaca, a cada maré mais alta, renova-se a percepção de ameaça.

O território desempenha papel central na construção da identidade coletiva. Ele organiza práticas culturais, atividades econômicas e redes de sociabilidade. Quando o espaço físico é corroído, ocorre também uma desestruturação simbólica. Moradias, igrejas, comércios e vias públicas funcionam como marcos de memória. Sua destruição compromete o senso de continuidade histórica.

A erosão impõe deslocamentos sucessivos. Famílias precisam reconstruir suas vidas em áreas mais afastadas da orla, muitas vezes rompendo laços de vizinhança consolidados por décadas. Esse processo fragiliza a coesão comunitária e produz sensação de desenraizamento. O pertencimento passa a depender menos do espaço concreto e mais da memória, o que amplia o sentimento de instabilidade.

Para gerações mais velhas, a perda territorial pode significar a dissolução de um projeto de vida. Para crianças e jovens, o crescimento ocorre em meio a ruínas e incertezas, naturalizando a ideia de que o lugar onde vivem pode desaparecer. A erosão, assim, atravessa diferentes fases da vida, produzindo impactos específicos, mas convergentes na sensação de perda.

Fotos: Thiago Freitas
Fotos: Thiago Freitas

Saúde mental e luto territorial

O conceito de luto territorial ajuda a compreender os efeitos psicológicos da erosão. Trata-se da reação emocional diante da perda de um espaço significativo. Quando a ameaça é contínua e previsível, instala-se o luto antecipado: vive-se a despedida antes da perda efetiva.

A convivência permanente com rachaduras, interdições e risco de colapso estrutural gera estado de alerta constante. Ansiedade, insônia e apreensão tornam-se frequentes. A erosão não é apenas um evento externo; ela se infiltra na rotina doméstica e na imaginação coletiva.

Outro fator agravante é a banalização do sofrimento. Quando a destruição passa a ser tratada como algo inevitável ou naturalizado, consolida-se a percepção de abandono. A ausência de políticas amplamente estruturadas de apoio psicológico reforça a ideia de que o enfrentamento da crise é responsabilidade individual. Nesse contexto, redes comunitárias, práticas culturais e religiosidade tornam-se mecanismos centrais de sustentação emocional.

A erosão, portanto, atua como agente de estresse prolongado. Ao corroer o território, também desgasta a sensação de segurança e previsibilidade que sustenta o equilíbrio psíquico. O impacto não se limita a diagnósticos clínicos; manifesta-se na qualidade das relações sociais e na confiança no futuro.

Omissão institucional e limites da resposta pública

A gestão da erosão envolve o município de São João da Barra, o Governo do Estado do Rio de Janeiro e instâncias federais. Entretanto, a percepção predominante é de que as respostas institucionais não acompanharam a dimensão do problema. Auxílios financeiros pontuais e intervenções emergenciais não substituem políticas de longo prazo voltadas à adaptação climática e ao reassentamento planejado.

A erosão costeira exige abordagem integrada. Obras de contenção, estudos técnicos e planejamento urbano precisam dialogar com políticas de assistência social e saúde mental. Sem essa articulação, as ações tornam-se fragmentadas e insuficientes.

A legislação ambiental brasileira prevê responsabilização por danos à saúde humana decorrentes de degradação ambiental, bem como a obrigatoriedade de medidas de precaução diante de riscos graves. Contudo, a efetividade dessas normas depende de fiscalização contínua, coordenação administrativa e celeridade judicial. A morosidade processual e a limitação de recursos técnicos enfraquecem a capacidade de resposta do Estado.

A ausência de escuta estruturada da comunidade contribui para a sensação de invisibilidade. Quando o desastre se prolonga sem solução concreta, consolida-se o entendimento de que a erosão é um destino inevitável, e não um desafio que demanda políticas públicas consistentes.

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Erosão ampliada: impactos sanitários e sociais

Os efeitos da erosão ultrapassam a esfera emocional. O deslocamento forçado pode levar famílias a ocupar áreas com infraestrutura precária, ampliando riscos relacionados a saneamento, abastecimento de água e qualidade habitacional. A instabilidade econômica decorrente da perda de imóveis e da alteração de atividades produtivas compromete o acesso a serviços essenciais.

Em escala nacional, relatórios internacionais apontam o Brasil entre os países com elevados índices de violência contra defensores ambientais. A fragilidade institucional na proteção de territórios e na implementação de políticas ambientais amplia conflitos e vulnerabilidades. Embora a erosão em Atafona tenha características próprias, ela se insere em um contexto mais amplo de desafios climáticos e sociais.

A erosão deixa claro que fenômenos ambientais não são neutros. Eles interagem com desigualdades pré-existentes e com limitações institucionais, transformando riscos naturais em crises humanas. O avanço do mar expõe a necessidade de políticas integradas que articulem engenharia costeira, planejamento territorial, proteção social e cuidado psicológico.

Atafona tornou-se símbolo de um desastre que não explode, mas corrói. Enfrentar a erosão implica reconhecer sua dimensão multidimensional: física, social, econômica e psíquica. Sem planejamento de longo prazo e compromisso político consistente, o território continuará a recuar — e, com ele, a sensação de estabilidade de toda uma comunidade.