O drama dos 70% de produtores sem internet que deixa o campo em silêncio


Enquanto o agronegócio brasileiro ganha as manchetes mundiais com recordes de produtividade e frotas de tratores autônomos dignos de ficção científica, uma barreira invisível e silenciosa mantém a maioria dos produtores rurais ancorada no século passado. O chamado abismo digital no campo não é apenas uma estatística incômoda; é uma dívida social que isola mais de setenta por cento dos estabelecimentos rurais do país, privando-os da conexão básica que hoje define quem sobrevive no mercado. Para o pequeno agricultor, o sinal de internet no celular deixou de ser um luxo para se tornar o insumo mais escasso e desejado da lavoura.

Foto: TIM/Divulgação

A agonia do isolamento na era da precisão

A desigualdade tecnológica no interior do Brasil desenha um mapa de exclusão perverso. Enquanto grandes latifúndios operam com Agricultura 5.0, quase oitenta por cento dos produtores da agricultura familiar vivem no que os especialistas chamam de áreas sombrias. No Norte e no Nordeste, o cenário é de deserto digital, com índices de desconexão que ultrapassam os oitenta por cento. Esse isolamento tem um custo prático imediato: sem rede, tecnologias de baixo carbono e sensores de solo tornam-se sucata tecnológica, pois não conseguem processar ou enviar os dados coletados.

O impacto humano desse silêncio digital é profundo. A assistência técnica, fundamental para corrigir manejos ou combater pragas, torna-se lenta e burocrática. Onde um problema poderia ser resolvido em minutos com o envio de uma foto via mensagem instantânea para um técnico da Emater, a falta de sinal obriga o produtor a esperar semanas por uma visita física ou a se deslocar até a cidade mais próxima. Esse tempo perdido e o gasto com combustível corroem a rentabilidade das pequenas propriedades, transformando a exclusão digital em um motor de pobreza rural.

Foto: TIM/Divulgação
Foto: TIM/Divulgação

O despertar do FUST e a nova arquitetura financeira

Diante desse cenário de urgência, o governo brasileiro começou a destravar mecanismos financeiros que dormiam nas contas públicas. O Fundo de Universalização dos Serviços de Telecomunicações, o FUST, historicamente contingenciado para fechar contas fiscais, está sendo reposicionado como o coração financeiro da inclusão digital. A nova diretriz é clara: os recursos devem financiar infraestrutura em áreas onde as operadoras comerciais não enxergam lucro, garantindo que o sinal chegue a escolas rurais e comunidades quilombolas e indígenas.

Para que esse dinheiro chegue à ponta, o BNDES assumiu um papel protagonista, elevando limites de crédito para cooperativas. A estratégia é a união de forças: ao financiar cooperativas, o banco permite que pequenos produtores alcancem a escala necessária para negociar com grandes operadoras ou até criar suas próprias redes privadas. É a coletividade servindo de ponte para a modernização, utilizando linhas de crédito como o Inovagro para transformar o sonho da agricultura de precisão em uma realidade acessível para quem planta em pequena escala.

ATER Digital: o conhecimento que viaja pela fibra

A democratização da internet no campo abre as portas para uma revolução no conhecimento: a extensão rural digital. Instituições como a Embrapa estão redesenhando sua forma de dialogar com o campo através de plataformas como o e-Campo. A ideia não é apenas levar o sinal, mas promover o letramento digital. Não basta ter conexão se o produtor não souber como utilizar os dados do mercado ou as previsões climáticas em tempo real para proteger sua renda.

O apoio técnico remoto permite que o agricultor tome decisões preditivas, antecipando-se a crises climáticas ou ataques de insetos. Essa agilidade é o que define a permanência do jovem no campo. Quando a tecnologia chega, a propriedade rural deixa de ser vista como um lugar de esforço braçal isolado e passa a ser um centro de inovação. A meta do Plano Diretor da Embrapa até 2030 é transformar o pequeno produtor em um protagonista ambiental, conectando-o a mercados de crédito de carbono e certificações de sustentabilidade que hoje são inacessíveis sem rastro digital.

Foto: Wenderson Araujo/CNA
Foto: Wenderson Araujo/CNA

VEJA TAMBÉM: Calcário substitui fogo no campo e fortalece agricultura sustentável no Amazonas

Políticas públicas e o direito à cidadania digital

O desafio da conectividade está sendo tratado em Brasília com a mesma importância histórica da universalização da energia elétrica. O Plano Diretor 2024-2030 e o Projeto de Lei 1.069/2024 buscam unificar as ações de ministérios e da Anatel para mapear e iluminar as zonas rurais cegas. A Política Nacional de Conectividade da Agricultura Familiar foca não apenas na infraestrutura, mas na compra de equipamentos nacionais e na criação de canais de venda on-line para que o pequeno produtor possa fugir dos atravessadores.

Essa cooperação interministerial visa garantir que a tecnologia não seja um novo fator de concentração de renda. Ao levar a banda larga para o interior profundo, o governo espera criar um atalho para a justiça social. A meta é que, até o fim desta década, a imagem do agricultor isolado seja substituída pela de um gestor conectado, capaz de emitir notas fiscais de dentro de sua casa e monitorar sua produção com a mesma eficiência de um grande conglomerado. A internet no campo deixou de ser um fio de cobre ou um sinal de satélite; tornou-se o novo caminho para a soberania alimentar do país.