Agricultura regenerativa muda cálculo de risco no campo


Do solo degradado ao ativo estratégico

Durante décadas, a expansão agrícola brasileira foi guiada por produtividade crescente e forte dependência de insumos químicos. O modelo entregou escala, mas também expôs produtores a margens apertadas, volatilidade de preços internacionais e perdas recorrentes em anos de seca ou excesso de chuva. Nesse cenário, a agricultura regenerativa deixou de ser discurso ambiental para se tornar estratégia econômica.

Sistema agroflorestal - Reprodução/Ecoagri

Ao priorizar práticas como plantio direto, rotação de culturas e uso intensivo de plantas de cobertura, o produtor passa a tratar o solo como infraestrutura viva. A matéria orgânica aumenta, a microbiologia se restabelece e a capacidade de retenção de água cresce de forma significativa. Na prática, isso significa menos estresse hídrico nas lavouras e maior estabilidade produtiva.

Estudos apontam que sistemas regenerativos podem reduzir em até 40% a variabilidade interanual da produtividade quando comparados a modelos convencionais. Em um setor em que a receita depende diretamente do clima, essa previsibilidade altera o perfil de risco da atividade. Safras menos erráticas significam fluxo de caixa mais estável e menor necessidade de capital emergencial para recompor perdas.

Em sistemas de sequeiro, o manejo conservacionista tem potencial para evitar quedas de rendimento de até 12% em anos de déficit hídrico moderado. A diferença entre colher pouco e colher o suficiente para honrar compromissos financeiros pode definir a sobrevivência de um produtor.

Redução de custos e fortalecimento das margens

Se a estabilidade produtiva protege a receita, a redução de custos protege a margem. A agricultura regenerativa aposta na ciclagem natural de nutrientes e no fortalecimento biológico do solo para diminuir a dependência de fertilizantes sintéticos e defensivos químicos, insumos sujeitos a variações cambiais e choques geopolíticos.

O uso de plantas de cobertura, consórcios agrícolas e bioinsumos permite reduzir substancialmente o volume de adubos e agrotóxicos. Em operações de grande escala, como as conduzidas pela SLC Agrícola, há estimativas de economia entre R$ 600 e R$ 1.200 por hectare apenas com fertilizantes, graças à liberação gradual de nutrientes promovida pelas culturas de cobertura.

Além da economia direta, a menor exposição a insumos importados reduz o impacto de oscilações do dólar e de crises internacionais sobre o custo de produção. Em um ambiente global cada vez mais instável, essa blindagem operacional ganha peso na análise de risco feita por bancos e investidores.

A substituição parcial de químicos por biodefensivos e biofertilizantes também traz ganhos ambientais e reputacionais. Reduzir até 50% do uso de fertilizantes sintéticos e até 70% de agrotóxicos não apenas diminui custos, como mitiga riscos jurídicos e regulatórios associados a contaminações e passivos ambientais.

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Valorização da terra e acesso a capital verde

A transformação do solo em ativo estratégico começa a repercutir no mercado financeiro. Investidores têm incorporado critérios ESG na avaliação de empresas e propriedades rurais, e a resiliência climática passou a influenciar diretamente o valuation das terras agrícolas.

Solos com maior teor de carbono, melhor estrutura física e menor risco de erosão são vistos como ativos mais robustos no longo prazo. Ao demonstrar capacidade de enfrentar extremos climáticos com menor volatilidade produtiva, o produtor reduz o prêmio de risco embutido na taxa de desconto aplicada aos seus fluxos de caixa.

Essa percepção abre portas para instrumentos financeiros diferenciados. Empresas alinhadas a práticas regenerativas encontram mais facilidade para acessar empréstimos verdes, emitir green bonds e captar recursos com condições mais favoráveis. No Brasil, o Programa RenovAgro, coordenado pelo Ministério da Agricultura e Pecuária, oferece linhas de crédito voltadas a práticas de baixa emissão de carbono e adaptação climática. Informações oficiais estão disponíveis no site do Ministério da Agricultura e Pecuária.

O RenovAgro apoia iniciativas como integração lavoura-pecuária, recuperação de pastagens degradadas, manejo hídrico e sequestro de carbono no solo. O programa também incorpora mecanismos de mensuração, relato e verificação, alinhados às exigências internacionais de transparência climática.

No mercado privado, a emissão de títulos verdes e a adesão a padrões reconhecidos internacionalmente fortalecem a credibilidade das empresas. Organizações como a Science Based Targets initiative, ajudam companhias a estruturar metas alinhadas ao Acordo de Paris. Já a International Union for Conservation of Nature (IUCN), desenvolve parâmetros para soluções baseadas na natureza que podem orientar projetos de restauração associados à atividade agrícola.

Foto: Ministério do Desenvolvimento SocialSítio Araúna, de produção agroecológica. Denircia da Costa Lima e seu esposo Vilmar de Almeida, proprietários, agricultores familiares e fornedeores do PAA.
Foto : Sergio Amaral/MDS

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Diversificação de renda e nova lógica de mercado

A agricultura regenerativa também amplia as fontes de receita dentro da própria propriedade. Sistemas agroflorestais e silvopastoris permitem a produção simultânea de grãos, frutas, madeira, mel e outros produtos florestais. Essa diversificação dilui riscos e cria múltiplas linhas de receita na mesma área.

Além da produção tradicional, cresce o interesse pela monetização de serviços ecossistêmicos. A captura de carbono no solo e na biomassa pode gerar créditos comercializáveis em mercados voluntários. Pagamentos por serviços ambientais tornam-se complemento de renda, especialmente em regiões com forte pressão por conservação.

O acesso a mercados internacionais mais exigentes também depende cada vez mais de comprovação de práticas sustentáveis. A União Europeia avança na regulamentação contra importação de produtos associados ao desmatamento, e empresas brasileiras que adotam políticas de desmatamento zero associadas à agricultura regenerativa fortalecem sua licença para operar.

Certificações e selos de produção responsável ampliam a confiança de compradores e favorecem contratos de longo prazo. Produtos associados a práticas regenerativas tendem a capturar prêmios de preço em nichos específicos, reforçando a estabilidade comercial.

No plano jurídico, a gestão responsável reduz a exposição a multas, embargos e litígios que podem comprometer severamente a reputação e o valor de mercado de empresas listadas em bolsa. Em um ambiente em que a rastreabilidade é cada vez mais exigida, antecipar-se às normas se torna diferencial competitivo.

A agricultura regenerativa, portanto, redefine o papel do produtor rural. Em vez de depender exclusivamente de volume e expansão de área, o foco desloca-se para eficiência biológica, gestão de risco e criação de valor de longo prazo. O solo deixa de ser apenas suporte físico e passa a ser infraestrutura financeira, capaz de amortecer choques climáticos e proteger margens.

Ao integrar estabilidade produtiva, redução de custos, acesso a capital verde e diversificação de receitas, a agricultura regenerativa consolida-se como resposta estratégica a um cenário marcado por incertezas ambientais e econômicas. Mais do que tendência, ela se afirma como vetor de competitividade no agronegócio do século XXI.