
Uma aliança inédita para fortalecer a ciência na região
Criada em junho de 2022, a Iniciativa Amazônia+10 nasceu com um propósito claro: mudar o eixo do financiamento científico no Brasil e garantir que a produção de conhecimento sobre a Amazônia seja conduzida, cada vez mais, por pesquisadores e instituições da própria região. Três anos depois, os números confirmam que a estratégia ganhou escala e densidade.
Articulada no âmbito do Conselho Nacional das Fundações Estaduais de Amparo à Pesquisa, a Amazônia+10 reúne agências estaduais de fomento à ciência, tecnologia e inovação em uma coalizão inédita. No Pará, a coordenação local e a ampliação dos recursos ocorrem com apoio do Governo do Estado, por meio da Fundação Amazônia de Amparo a Estudos e Pesquisas.
O desenho da iniciativa busca enfrentar desigualdades históricas no acesso a financiamento científico. Durante décadas, centros de pesquisa localizados fora da Amazônia concentraram a maior parte dos recursos. A Amazônia+10 inverte essa lógica ao estimular liderança amazônida em projetos estratégicos, ampliando o protagonismo regional e fortalecendo instituições locais.
Até o momento, foram mobilizados R$ 162,9 milhões por meio de sete chamadas públicas, incluindo três coordenadas diretamente pela iniciativa e quatro lançadas com parceiros internacionais. O investimento resultou no apoio a 61 projetos de pesquisa e na realização de 25 workshops internacionais, envolvendo 1.265 pesquisadores e 171 instituições, das quais 133 são instituições científicas e tecnológicas.
Protagonismo regional e redes de colaboração
O mapeamento recente dos resultados revela um dado simbólico: 43% dos pesquisadores envolvidos nasceram na Amazônia Legal. Entre eles, destacam-se belenenses e manauaras, sinalizando que a produção científica começa a refletir, de forma mais concreta, a diversidade humana da região.
Atualmente, pesquisadores vinculados à Amazônia+10 estão conectados a instituições de todas as unidades federativas do Brasil e de outros seis países. Cerca de 17,2% estão ligados a instituições paraenses, 14,7% a instituições paulistas e 12,7% a instituições amazonenses. Das dez instituições com maior número de pesquisadores participantes, seis pertencem à Amazônia Legal.
A Universidade Federal do Pará concentra 124 pesquisadores vinculados à iniciativa, enquanto a Universidade Federal do Oeste do Pará reúne 41. A presença expressiva dessas universidades reforça o papel do Pará como eixo estruturante da rede científica amazônica.
As conexões interestaduais também se destacam. Os principais fluxos de cooperação envolvem Pará e São Paulo, Amazonas e Pará, além de Pará e Paraná. Essa articulação amplia o intercâmbio de conhecimento e consolida uma rede que ultrapassa fronteiras regionais sem perder o foco territorial.

Pesquisa aplicada e impactos concretos
Mais do que produzir artigos, a Amazônia+10 tem buscado gerar evidências capazes de influenciar políticas públicas e decisões estratégicas. Pelo menos dez projetos já apresentam impactos verificáveis nesse campo.
Um dos exemplos é o estudo sobre partilha da água e resiliência do sistema socioecológico da Volta Grande do Xingu, coordenado por pesquisadores da Universidade Federal do Pará, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia e da Universidade de São Paulo. Com base em dados de monitoramento realizados por comunidades locais, o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis considerou insuficiente a vazão de água liberada por uma barragem na região e determinou ajustes operacionais à empresa Norte Energia, além de exigir novos estudos de impacto ambiental.
O episódio ilustra como a ciência produzida em rede pode influenciar decisões regulatórias e mitigar impactos socioambientais.
Outro destaque é o projeto BIORE-AMAZONIA, coordenado por pesquisadora da UFPA, voltado ao desenvolvimento de processos sustentáveis para extração de óleos essenciais e moléculas bioativas de frutos amazônicos. A proposta articula universidades, empresas, produtores e comunidades em torno de uma biorrefinaria de cadeias produtivas regionais. Entre as duas patentes já registradas no âmbito da iniciativa, uma é resultado direto desse projeto.
Além das patentes, o balanço parcial contabiliza 243 artigos científicos, 89 dissertações de mestrado, 27 teses de doutorado, 165 equipamentos científicos adquiridos e mais de 365 produtos acadêmicos e tecnológicos. Esses números refletem não apenas produção intelectual, mas também fortalecimento de infraestrutura nas instituições participantes.

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Expedições, inclusão e formação de novos pesquisadores
A primeira chamada da Amazônia+10 financiou 39 projetos, mobilizando cerca de R$ 54 milhões e envolvendo mais de 1.200 pesquisadores. Com execução prevista até 2026, essas pesquisas se concentram nas interações entre natureza e sociedade, buscando soluções para desenvolvimento sustentável e inclusivo.
Já a segunda chamada, dedicada a Expedições Científicas, apoiou 22 projetos com aproximadamente R$ 95 milhões. As atividades, iniciadas em 2025, priorizam áreas remotas e pouco estudadas, ampliando o conhecimento sobre biodiversidade e sociobiodiversidade. A participação de representantes de povos indígenas, quilombolas e outras comunidades tradicionais como pesquisadores nas equipes foi requisito obrigatório.
Essa exigência marcou uma inflexão metodológica importante: reconhecer e integrar sistemas de conhecimento tradicionais ao fazer científico. Além disso, os materiais coletados devem ser catalogados e depositados em acervos regionais, reforçando a autonomia institucional da Amazônia Legal.
No campo da formação, a iniciativa concedeu 102 bolsas de iniciação científica, 104 de mestrado, 80 de doutorado e 119 de pós-doutorado. O perfil dos participantes revela avanços em diversidade: 52,8% dos pesquisadores são mulheres, e 43,2% se autodeclaram pretos, pardos ou indígenas. Entre bolsistas, esses percentuais chegam a 57% de mulheres e 51,5% de pretos, pardos e indígenas.
A cooperação internacional também ganhou força. Foram realizados 20 workshops bilaterais entre Brasil e Reino Unido e cinco workshops trilaterais envolvendo Brasil, França e Guiana Francesa, além do financiamento de 12 fellowships para pesquisadores da Amazônia Legal no Reino Unido.
Para Marcel Botelho, presidente da Fapespa e do Confap, a Amazônia+10 representa o maior conjunto coordenado de financiamento científico já realizado na região. Mais do que resultados acadêmicos, a iniciativa teria fortalecido redes, estimulado internacionalização e ampliado o sentimento de pertencimento dos pesquisadores em relação aos desafios amazônicos.
Ao consolidar dados, monitorar impactos e ampliar conexões, a Amazônia+10 sinaliza que investir em ciência regional não é apenas questão de equidade, mas de estratégia nacional. A Amazônia, frequentemente tratada como objeto de estudo externo, passa a ser também sujeito ativo da produção de conhecimento sobre seu próprio futuro.










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