Muito além do rótulo de “pulmão do mundo”, a Floresta Amazônia funciona como um imenso sistema circulatório. Ela bombeia umidade para o Sudeste, ajuda a resfriar as cidades e atua como barreira natural contra eventos climáticos extremos. Cientistas alertam: o avanço do desmatamento já está alterando o regime de chuvas no Brasil.

À primeira vista, a vasta mancha verde no Norte do país pode parecer distante da rotina das metrópoles do Sudeste ou das lavouras do Centro-Oeste. Mas a ciência é clara: a estabilidade climática que sustenta a agricultura, abastece reservatórios hidrelétricos e ameniza o calor urbano depende diretamente da saúde da Floresta Amazônica.
Com mais de 4 milhões de quilômetros quadrados em território brasileiro, o bioma não é apenas um santuário de biodiversidade. Ele atua como uma verdadeira “bomba biótica” e como um poderoso ar-condicionado natural. Pesquisas recentes mostram que a floresta é decisiva para evitar que o Brasil se torne mais quente e seco nas próximas décadas.
O sistema circulatório do continente
Durante anos, a Amazônia foi descrita como o “pulmão do mundo”. Hoje, pesquisadores como Leonardo Miranda, do Museu Paraense Emílio Goeldi, propõem uma metáfora mais precisa. Como os oceanos são os principais produtores de oxigênio, a floresta amazônica cumpre um papel ainda mais estratégico: funciona como o sistema circulatório da América do Sul.
O mecanismo central desse processo é a evapotranspiração — a liberação de vapor d’água pelas plantas. De acordo com Antônio Lôla, pesquisador da UFPA e do Museu Goeldi, cada metro quadrado de floresta libera cerca de quatro litros de água por dia para a atmosfera. Somados, são aproximadamente 22,4 trilhões de litros diários lançados no ar, volume suficiente para encher várias baías de Guanabara todos os dias.
Essa umidade não permanece sobre a floresta. Transportada pelos ventos, ela forma os chamados “rios voadores”, conceito difundido pelo climatologista Antônio Nobre. Essas correntes de ar carregadas de vapor se deslocam da Amazônia para o Centro-Oeste, Sudeste e Sul do Brasil, onde se transformam em chuva.
“Quando a floresta encolhe, a evapotranspiração diminui, os rios voadores enfraquecem e as chuvas que abastecem o Sudeste se tornam cada vez mais irregulares”, alerta a Revista Amazônia.
Desmatamento e aquecimento: impactos distintos
A relação entre desmatamento e redução das chuvas já foi medida com precisão inédita. Um estudo conduzido por pesquisadores brasileiros em parceria com o Instituto Max Planck de Química, da Alemanha, indica que a derrubada da floresta é o principal fator por trás da intensificação das secas regionais.
Segundo os dados, 75% da redução das chuvas durante a estação seca — uma queda média de 21 milímetros desde 1985 — está diretamente associada ao desmatamento. Para o climatologista Luiz Machado, da USP, “mesmo pequenas alterações na precipitação durante a estação seca podem provocar impactos desproporcionais na saúde da vegetação e no equilíbrio do ecossistema”.
O aumento da temperatura segue outra lógica. O estudo aponta que cerca de 84% do aquecimento de 2 °C observado na região decorre das mudanças climáticas globais, impulsionadas pelas emissões de gases de efeito estufa. O desmatamento local responde pelos 16% restantes.
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As projeções são preocupantes. Mantido o ritmo atual de destruição, a Amazônia pode registrar até 2035 um aumento adicional de 0,6 °C na temperatura média, acompanhado de uma redução ainda mais acentuada das chuvas.
Cidades, agronegócio e a “fábrica de secas”
O colapso desse equilíbrio natural não afeta apenas a floresta. Seus efeitos se espalham por todo o país. A crise hídrica que atingiu São Paulo entre 2014 e 2015, por exemplo, está diretamente relacionada à redução das chuvas influenciada pelo desmatamento amazônico.
Sem o aporte constante de umidade, as cidades enfrentam o agravamento das ilhas de calor e a piora da qualidade do ar, aumentando a incidência de doenças respiratórias. Estudos indicam que, sem a Amazônia, São Paulo poderia perder até 40% de sua precipitação anual, colocando em risco o abastecimento de água e a geração de energia.
Além da escassez, crescem os extremos climáticos. Antônio Lôla alerta para um cenário crítico, com maior frequência e intensidade de eventos severos — enchentes, tempestades violentas e longos períodos de seca — além de impactos diretos sobre a produção agrícola e a segurança alimentar.
Povos da floresta e escolhas econômicas
Preservar a Amazônia vai além de manter árvores em pé. Trata-se de proteger um sistema vivo, que inclui sua biodiversidade e os povos que historicamente cuidam do território.
“Não é possível discutir o clima do planeta sem considerar a Amazônia — e muito menos sem reconhecer o papel dos povos tradicionais”, afirma Uraan Anderson, vice-cacique geral do povo Paiter Suruí. As terras indígenas, segundo ele, são barreiras eficazes contra o desmatamento e a emissão de carbono.
O geólogo Norbert Fenzl, do Núcleo de Meio Ambiente da UFPA, lembra que a destruição da floresta é consequência de um modelo econômico que produz pobreza local antes mesmo de gerar impactos climáticos globais. Para ele, enfrentar a crise passa por repensar a base econômica que sustenta a ocupação predatória da região.
O ponto de não retorno
A Amazônia regula o termostato do Brasil. Sua conservação e o uso sustentável de sua biodiversidade são essenciais não apenas para o equilíbrio ecológico global, mas para a viabilidade econômica e social do país.
Pesquisadores alertam que o clima amazônico não reage de forma linear ao desmatamento: as mudanças mais severas ocorrem logo nas fases iniciais da perda florestal. Cada hectare preservado faz diferença. Proteger a floresta significa garantir que a chuva continue a chegar ao Sudeste, que as cidades permaneçam habitáveis e que o Brasil não se torne mais seco e vulnerável.
Como resume o biólogo Leonardo Miranda, não basta plantar árvores isoladas. É preciso manter a complexa teia de vida que faz a floresta funcionar — e que, silenciosamente, sustenta o clima de todo o país






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