Governo amplia apoio financeiro à aquicultura sustentável

Foto: Jade Vieira Plastina
Foto: Jade Vieira Plastina

Aquicultura brasileira entre crédito, planejamento e sustentabilidade

A aquicultura deixou de ocupar posição secundária na agenda produtiva brasileira. Nos últimos anos, o setor passou a integrar um conjunto articulado de políticas públicas que combinam crédito rural, ordenamento territorial, inovação tecnológica e metas ambientais. O resultado é uma estratégia que busca consolidar o país como potência na produção de pescado, sem abrir mão da sustentabilidade e da inclusão social.

No centro dessa reorganização está o Plano Safra, política anual que direciona recursos para o campo e que inclui a aquicultura entre suas prioridades. Operado sob coordenação do Governo Federal, o plano oferece linhas de financiamento com juros subsidiados, prazos estendidos e instrumentos adaptados à realidade de pequenos, médios e grandes produtores. Para a aquicultura familiar, o principal canal de acesso é o Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar, o PRONAF, que permite financiar tanto o custeio da produção quanto investimentos estruturais.

Ordenamento e segurança jurídica como base da expansão

O crescimento da aquicultura depende não apenas de crédito, mas de regras claras sobre o uso da água. É nesse ponto que o Programa Nacional de Desenvolvimento Sustentável da Aquicultura, o ProAqui, instituído pelo Decreto nº 11.852/2023, assume papel estratégico. Coordenado pelo Ministério da Pesca e Aquicultura (MPA), o programa organiza a ocupação de reservatórios e demais corpos hídricos de domínio da União.

A ampliação das cessões de uso das Águas da União garante previsibilidade a quem deseja investir. Ao formalizar contratos e regularizar áreas de produção, o Estado reduz inseguranças jurídicas que antes afastavam investimentos. Em 2025, foram celebrados 163 contratos de cessão, ampliando a capacidade produtiva estimada em mais de 170 mil toneladas anuais de pescado. Para o produtor, a regularização abre portas para o crédito e consolida a atividade como empreendimento formal.

O ProAqui também conduz a elaboração do Plano Nacional de Desenvolvimento Sustentável da Aquicultura, instrumento que projeta metas até 2032. O processo envolve escutas qualificadas com representantes da piscicultura, carcinicultura, malacocultura e algicultura. Ao incorporar diretrizes internacionais, como as recomendações da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura, o planejamento busca alinhar produtividade e conservação ambiental.

Crédito rural e modernização tecnológica

No campo financeiro, a aquicultura encontra no Plano Safra e no PRONAF mecanismos concretos de fortalecimento. O PRONAF Mais Alimentos permite ao produtor familiar financiar até R$ 450 mil por ano agrícola para investimentos, valor que supera o teto de diversas atividades rurais tradicionais. As taxas de juros variam entre 0,5% ao ano, para grupos específicos como jovens e agricultores de menor renda, até 6% ao ano para projetos mais amplos de investimento e agroindustrialização.

Os recursos podem ser aplicados na construção de viveiros, aquisição de tanques-rede, sistemas de aeração e automação, além da compra de ração, alevinos e medicamentos. Ao financiar infraestrutura e tecnologia embarcada, o programa estimula ganhos de produtividade e eficiência ambiental. Linhas como o MODERAGRO e o INOVAGRO ampliam esse movimento ao incentivar modernização e inovação, especialmente em práticas que conservem recursos naturais.

A presença de fundos constitucionais regionais também reforça o fomento. O Fundo Constitucional de Financiamento do Nordeste (FNE), o Fundo Constitucional de Financiamento do Norte (FNO) e o Fundo Constitucional de Financiamento do Centro-Oeste (FCO) operam linhas específicas para empreendimentos pesqueiros e aquícolas, respeitando as características regionais. Já o Fundo da Marinha Mercante apoia infraestrutura e reparos navais, fortalecendo a logística e a frota vinculada à cadeia do pescado.

Foto: Envato Elements
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Sustentabilidade, rastreabilidade e Economia Azul

A expansão da aquicultura ocorre em paralelo a uma pressão crescente por responsabilidade ambiental. A agenda climática e o conceito de Economia Azul passaram a orientar decisões estratégicas. Sistemas de produção de baixo carbono, como a algicultura, ganham espaço por capturar carbono e não competir por terra ou água doce.

Parcerias com a Embrapa Territorial introduzem ferramentas de sensoriamento remoto e análise espacial no planejamento aquícola. O uso de dados aprimora estatísticas, identifica áreas aptas e reduz conflitos ambientais. Ao mesmo tempo, incentivos à adoção de energia solar e manejo hídrico eficiente diminuem custos operacionais e pegada ambiental.

A rastreabilidade tornou-se outro eixo central. A Plataforma Nacional da Indústria do Pescado busca modernizar certificações e garantir transparência ao consumidor. No mercado internacional, selos como o Marine Stewardship Council (MSC), o Friend of the Sea e o Dolphin Safe ampliam competitividade, especialmente na União Europeia, onde exigências ambientais são rigorosas.

Gov.br
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Inclusão produtiva e justiça socioambiental

A política pública voltada à aquicultura também incorpora dimensão social. O Programa Povos da Pesca Artesanal busca proteger territórios e modos de vida de comunidades ribeirinhas, indígenas e quilombolas. Ao reconhecer especificidades culturais e produtivas, o Estado sinaliza que crescimento econômico não deve ocorrer às custas da exclusão.

Linhas específicas como PRONAF Mulheres e PRONAF Jovens incentivam autonomia feminina e sucessão rural. Ao facilitar acesso ao crédito para novas gerações, a política combate o êxodo rural e estimula renovação tecnológica no campo. Projetos de aquaponia e aquicultura familiar em comunidades vulneráveis ampliam segurança alimentar e diversificam renda.

A aquicultura brasileira, portanto, atravessa momento de reorganização estrutural. Combinando crédito acessível, planejamento territorial, inovação e compromisso ambiental, o país busca consolidar uma cadeia produtiva capaz de gerar renda, proteína de qualidade e inserção competitiva no mercado global. O desafio reside em manter equilíbrio entre expansão e conservação, garantindo que a água, recurso central dessa atividade, permaneça fonte de vida e desenvolvimento para as próximas gerações.