Além dos relatórios brilhantes há 5 verdades inconvenientes sobre os dados de emissões de carbono corporativos


A névoa das promessas climáticas corporativas

Nos últimos anos, promessas empresariais de zerar emissões líquidas e adotar práticas sustentáveis se multiplicaram como um novo idioma do capitalismo. De multinacionais da tecnologia a gigantes do consumo, poucas ousam ficar de fora da corrida verde. Mas, por trás do brilho dos relatórios e das campanhas de marketing, uma pergunta persiste: até que ponto esses compromissos são construídos sobre dados confiáveis?

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Este texto expõe cinco verdades inesperadas e muitas vezes desconfortáveis sobre o universo da contabilidade de carbono empresarial.

  1. O relatório da sua marca favorita provavelmente está errado

Pesquisas conduzidas por Ethan Rouen, professor da Harvard Business School, revelam que 58% das empresas de capital aberto nos EUA revisaram, sem alarde, seus dados climáticos após a publicação. Para efeito de comparação: no caso de dados financeiros, a taxa de revisão gira em torno de 2%. A diferença revela um abismo metodológico entre o que é obrigatório e o que ainda é tratado como opcional.

Mais grave ainda: 85% dessas revisões ocorreram sem qualquer explicação. Isso se deve, em grande parte, à ausência de regras vinculantes nos EUA para a divulgação de dados climáticos. Um projeto da SEC para tornar essa prática obrigatória foi arquivado, deixando o país num cenário que pesquisadores descrevem como um “Velho Oeste” da transparência corporativa. Até os próprios estudiosos se disseram surpresos com a escala do problema.

  1. Para poluir menos, é preciso primeiro declarar mais

Pode parecer contraditório, mas empresas que contratam auditorias independentes relatam, em média, 13,7% mais emissões do que as que não auditam seus dados. O dado vem de um estudo do MIT Sloan. Mas a surpresa não para aí: essas mesmas empresas auditadas são as únicas que apresentam reduções significativas e consistentes de emissões ao longo do tempo – uma queda média de 7,5% ao ano.

O que parece, à primeira vista, uma má performance (relatar mais emissões), revela-se, na verdade, um sinal de maior precisão e compromisso. Quem mede melhor, age melhor. E quem se dispõe a ser auditado envia um recado claro ao mercado: estou levando a sério minha transição climática.

  1. Quando a economia trava, o clima agradece (temporariamente)

O Reino Unido vem sendo celebrado por sua suposta liderança na redução de emissões. O governo atribui o feito a uma migração da matriz energética do carvão para fontes renováveis. Mas um estudo da Universidade de Westminster traz uma explicação menos conveniente: parte expressiva dessa queda está ligada à retração nos investimentos corporativos.

Entre 2013 e 2018, o Capex médio das empresas britânicas caiu 53%, e as emissões, 39%. A conexão é direta. Menos investimento em infraestrutura significa menos operações industriais e, portanto, menos emissões. Isso não significa uma transição estrutural, mas sim um efeito colateral da estagnação econômica. O risco é que, com a retomada do crescimento, as emissões voltem a subir se os novos investimentos não forem verdes desde a origem.

Foto: Greenwash Gureilla
Foto: Greenwash Gureilla

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  1. Empresas revelam muito porque temem ainda mais o que esconderiam

Por que uma empresa reportaria voluntariamente suas altas emissões? A resposta é pragmática. O mercado tende a punir mais severamente a omissão do que o mau desempenho ambiental. Assim, para muitas companhias, divulgar é uma estratégia de dano controlado. Se o cenário é ruim, melhor contar logo antes que descubram.

Essa lógica cria um estranho incentivo à transparência, movido não por ética, mas por cálculo. E ela ganha força quando combinada com o impacto positivo das auditorias. Juntas, essas duas forças – pressão do mercado e validação independente – formam um binômio capaz de separar quem está realmente comprometido daquelas que apenas encenam responsabilidade ambiental.

  1. O Velho Oeste está com os dias contados

A era da divulgação vaga e voluntária está sendo substituída por uma nova ordem regulatória. A União Europeia está na vanguarda com a chamada “Green Claims Directive”, que exige que qualquer afirmação ambiental seja previamente verificada por entidades credenciadas.

Sob as novas regras, expressões como “neutro em carbono” ou “ecológico” só podem ser usadas com base em comprovação científica. As penalidades são duras: multas de ao menos 4% do faturamento anual e exclusão de contratos com o setor público.

A diretiva também proíbe o uso exclusivo de compensações de carbono para sustentar discursos verdes. Só será permitido mencionar offsets quando a empresa já tiver reduzido o máximo possível suas próprias emissões. Como afirmou o eurodeputado Cyrus Engerer: “Chegou a hora de acabar com o greenwashing.”

A transição da opacidade à responsabilização

Estamos diante de um ponto de inflexão. A transição de um sistema baseado em estimativas vagas para outro ancorado em auditoria, transparência e obrigação legal já está em curso. Os dados ainda são imperfeitos, mas as condições para avançar existem: novas ferramentas analíticas, regulações mais sólidas e, acima de tudo, uma nova disposição à vigilância.

O que se impõe agora é uma pergunta decisiva: com os olhos finalmente ajustados para enxergar a realidade climática corporativa, estaremos prontos para agir à altura do que vemos?