Indústria brasileira prefere importar lixo a investir em coleta seletiva local

Reprodução - Carta Capital
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O mito da reciclabilidade: quando a teoria encontra o aterro

No Brasil, existe um abismo entre o que é tecnicamente reciclável e o que é reciclado de fato. Muitos produtos ostentam símbolos de reciclagem, mas, na prática, são rejeitados pelas cooperativas e indústrias por falta de viabilidade econômica. Um exemplo emblemático são os plásticos de uso único e os polímeros mistos, classificados sob o número 7 (Outros). Itens como hastes de cotonetes, talheres de festa e embalagens de acrílico possuem demanda comercial quase nula. Mesmo o Polipropileno Biorientado (BOPP), presente em embalagens metalizadas de batata frita e ovos de Páscoa, enfrenta barreiras severas: a fusão de camadas de plástico e alumínio torna a separação extremamente custosa, resultando em um material que, apesar de nobre em sua função original, acaba sobrecarregando os aterros sanitários.

Além dos plásticos, o vidro apresenta um paradoxo nacional. Embora seja o único material 100% e infinitamente reciclável, menos de um quarto da produção anual brasileira é reaproveitada. Os obstáculos não são técnicos, mas logísticos: o vidro é pesado, tem baixo valor de mercado por quilo e o custo do transporte muitas vezes supera o ganho com a venda do material. Sem uma infraestrutura de coleta seletiva robusta em todas as cidades, toneladas de vidro são descartadas incorretamente, perdendo-se a oportunidade de economizar energia e extração de matéria-prima virgem.

Papel térmico e o perigo invisível do Bisfenol

Um dos erros mais comuns no descarte doméstico é destinar recibos de banco, extratos e cupons fiscais aos cestos de papel reciclável. Esses papéis, conhecidos como papéis térmicos, não devem ser reciclados sob nenhuma circunstância. O motivo é químico: eles contêm altas concentrações de Bisfenol A (BPA) ou S (BPS), substâncias que atuam como disruptores endócrinos no corpo humano. Quando esses papéis entram no processo de reciclagem, eles contaminam todo o lote, fazendo com que produtos finais — como o papel higiênico e o papel toalha reciclados — carreguem traços dessas toxinas que entrarão em contato direto com a pele dos consumidores.

Trabalhadores catando lixo em um lixão, com uma cidade ao fundo.
Coleta informal de lixo em um lixão.

A recomendação das autoridades ambientais e de saúde é clara: o papel térmico deve ser descartado no lixo comum (rejeitos). Essa medida visa retirar o bisfenol de circulação, impedindo que ele permaneça na cadeia produtiva. É um caso raro onde o “não reciclar” é a atitude mais sustentável e segura para a saúde pública. A conscientização sobre esse material é vital, especialmente em um país onde a triagem manual nas cooperativas expõe os trabalhadores diretamente a esses resíduos químicos sem a devida proteção.

Barreiras estruturais e o custo da “conveniência”

A crise da reciclagem no Brasil também é alimentada por decisões puramente financeiras da indústria. Um dado alarmante revela que muitas empresas brasileiras optam por importar resíduos de papel, plástico e vidro de outros países. O motivo? É mais barato e prático comprar fardos de resíduos limpos e padronizados do exterior do que investir na estruturação de uma logística reversa eficiente que apoie as cooperativas locais. Essa prática desestimula o mercado interno e deixa os catadores — responsáveis pela maior parte da coleta no país — à mercê de materiais de baixo valor e difícil processamento.

Estudos realizados em grandes centros urbanos, como o Rio de Janeiro, reforçam essa fragilidade: mais da metade (64%) dos plásticos que chegam às cooperativas são inviáveis para reciclagem devido a composições multicamadas ou pigmentações que impossibilitam a triagem. Materiais como o PVC e o Poliestireno (PS) sofrem com a baixa demanda, enquanto têxteis sintéticos de maiôs e roupas esportivas ainda aguardam soluções tecnológicas em larga escala. Para mudar esse cenário, o Brasil precisa ir além da educação do consumidor e exigir o ecodesign — a criação de produtos que já nasçam pensados para serem facilmente desmontados e reincorporados à economia.

Três mulheres trabalhando na coleta de lixo reciclável, vestindo uniformes e luvas, em frente a um monte de garrafas e sacolas plásticas.
Coleta de lixo reciclável.

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O caminho para uma reciclagem real e eficiente

Superar os gargalos da reciclagem exige um compromisso que une governo, indústria e sociedade. Não basta separar o lixo; é preciso entender o que o mercado local é capaz de absorver. O fortalecimento das cooperativas de catadores é um pilar essencial, pois são eles que garantem que o material chegue com qualidade às indústrias. Ao mesmo tempo, é urgente a implementação de políticas que tributem o uso de matéria-prima virgem e incentivem o uso de conteúdo reciclado, tornando a coleta nacional competitiva frente à importação de resíduos.

Enquanto as mudanças estruturais não ocorrem, o cidadão pode adotar a estratégia dos “R”s que precedem a reciclagem: Reduzir e Recusar. Optar por embalagens de material único (monomateriais), evitar plásticos de uso único e dar preferência a marcas que comprovadamente investem em logística reversa são formas eficazes de pressão. A reciclagem no Brasil não pode continuar sendo um conceito teórico; ela precisa se tornar uma engrenagem econômica real que proteja a saúde das pessoas e a integridade dos nossos biomas contra a asfixia por resíduos descartados de forma evitável.

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