150 países admitem que foco no PIB prejudica biodiversidade


Biodiversidade fora do preço: 150 países reconhecem falha do modelo econômico

Mais de 150 países chegaram a uma conclusão incômoda: a forma como o mundo mede crescimento econômico está corroendo silenciosamente os sistemas naturais dos quais depende. A decisão foi formalizada na aprovação de um amplo relatório da Plataforma Intergovernamental sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos, a IPBES, elaborado ao longo de três anos por cerca de 80 cientistas e especialistas do setor produtivo.

Reprodução - NATGEO

O diagnóstico é direto. A obsessão pelo crescimento medido pelo Produto Interno Bruto não reflete os custos reais da destruição ambiental. O resultado é uma economia que prospera no papel enquanto enfraquece sua própria base biológica. Florestas são derrubadas, rios poluídos, estoques pesqueiros exauridos — e tudo isso aparece nas estatísticas como geração de riqueza.

A aprovação do relatório ocorreu durante a cúpula da IPBES em Manchester, no Reino Unido, consolidando um consenso científico e diplomático de que o sistema atual falha ao incorporar riscos ligados à biodiversidade nas decisões de investimento e nas políticas públicas.

Capital natural em queda livre

A biodiversidade está em declínio global. Segundo o relatório, o chamado capital natural — que inclui ecossistemas, florestas, oceanos, solos e recursos hídricos — encolheu quase 40% nas últimas décadas. Trata-se de uma perda silenciosa, muitas vezes invisível nas planilhas financeiras, mas profundamente sentida nas cadeias produtivas.

Empresas dependem de serviços ecossistêmicos básicos, como polinização, fertilidade do solo e filtragem de água. Ainda assim, o mercado raramente precifica esses benefícios. Como consequência, o custo da degradação não recai sobre quem a provoca. A lógica dominante permite que atividades que destroem natureza permaneçam lucrativas, enquanto iniciativas de preservação enfrentam barreiras econômicas.

O desequilíbrio é evidente nos fluxos financeiros globais. De acordo com o relatório State of Finance for Nature da Organização das Nações Unidas, cerca de US$ 7,3 trilhões foram destinados em 2023 a atividades consideradas negativas para a natureza, enquanto apenas US$ 220 bilhões financiaram iniciativas favoráveis à conservação. A disparidade revela que o sistema recompensa degradação em escala massiva.

Captura de tela 2024 09 06 102417
Sequenciamento genético da biodiversidade brasileira

A falsa neutralidade do crescimento

O estudo da IPBES reforça que a concentração no PIB como principal indicador de sucesso distorce prioridades. Crescimento econômico pode coexistir com perda acelerada de espécies, erosão de solos e aumento da vulnerabilidade climática. Quando mercados não incorporam o valor da biodiversidade, o incentivo é claro: explorar ao máximo no curto prazo.

Stephen Polasky, professor de economia ambiental da University of Minnesota e copresidente do relatório, destacou que não basta apelar para a boa vontade corporativa. É necessário criar mecanismos concretos que alinhem interesses empresariais à preservação ambiental. Sem incentivos adequados, proteger a natureza tende a ser visto como custo adicional, não como investimento estratégico.

Organizações da sociedade civil e pesquisadores defendem há anos que conservar biodiversidade é também proteger negócios. Eventos climáticos extremos, como ondas de calor e inundações, têm impactos diretos sobre infraestrutura, agricultura e cadeias logísticas. A perda de espécies vegetais e animais ameaça setores que dependem de alimentos, medicamentos e matérias-primas naturais.

Ainda assim, governos e empresas continuam priorizando projetos com retorno financeiro imediato, mesmo quando implicam danos ecológicos significativos. A racionalidade econômica vigente permanece orientada pelo curto prazo.

PIB

SAIBA MAIS: O dia em que os algoritmos começaram a proteger a biodiversidade urbana

Economia em transição ou colapso anunciado

A IPBES cumpre papel semelhante ao do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, o IPCC, no campo do clima. Ambas as instituições oferecem avaliações científicas periódicas que orientam políticas globais. No entanto, enquanto os relatórios climáticos já influenciam debates públicos há décadas, a crise da biodiversidade só recentemente ganhou visibilidade comparável.

A cúpula em Manchester foi aberta pela ministra do Meio Ambiente do Reino Unido, Emma Reynolds, que leu mensagem do rei Charles III defendendo uma transição para uma economia que prospere em harmonia com a natureza. O gesto simbolizou a crescente centralidade do tema nas agendas políticas.

Contudo, o cenário geopolítico adiciona complexidade. Os Estados Unidos anunciaram recentemente sua retirada tanto do processo da IPBES quanto do IPCC, movimento que pode enfraquecer esforços multilaterais e reduzir o peso político das recomendações científicas.

Apesar disso, o consenso entre mais de 150 países sinaliza que o debate ultrapassou fronteiras ideológicas. A questão central é econômica: como reorganizar incentivos para que proteger biodiversidade deixe de ser exceção e se torne regra.

O relatório não propõe apenas ajustes técnicos, mas uma reconfiguração estrutural das métricas de valor. Incorporar riscos ambientais às análises financeiras, reformar subsídios prejudiciais e direcionar investimentos para soluções baseadas na natureza são algumas das medidas sugeridas.

A biodiversidade não é apenas patrimônio ecológico; é infraestrutura invisível que sustenta agricultura, indústria farmacêutica, abastecimento de água e estabilidade climática. Ignorar seu declínio equivale a corroer a base produtiva global.

O reconhecimento formal de que o foco exclusivo no PIB prejudica natureza representa um marco simbólico importante. Porém, a efetividade dependerá da capacidade de governos e mercados traduzirem o diagnóstico em ação concreta. Sem mudanças nos mecanismos de precificação, tributação e financiamento, a tendência é que a destruição continue sendo economicamente atraente.

A escolha diante da comunidade internacional é clara: persistir em um modelo que externaliza custos ambientais até o limite do colapso ou reformular a arquitetura econômica para refletir a realidade biofísica do planeta. A biodiversidade deixou de ser tema periférico; tornou-se variável estratégica para estabilidade financeira e prosperidade de longo prazo.