
A bioeconomia voltou ao centro da agenda científica brasileira com o lançamento de uma nova chamada pública articulada entre a FAPESP a Fapeam. A iniciativa, terceira no âmbito do acordo de cooperação entre as duas fundações estaduais, pretende financiar projetos colaborativos que unam pesquisadores do Amazonas e de São Paulo na criação de soluções tecnológicas ancoradas na sociobiodiversidade amazônica.
Mais do que um edital técnico, a chamada sinaliza um movimento estratégico: transformar biodiversidade em desenvolvimento, ciência em valor agregado e conhecimento tradicional em vetor econômico de baixo carbono. O prazo para submissão das propostas vai até 23 de março, com previsão de apoio a até dez projetos com duração máxima de 36 meses.
A articulação entre os dois sistemas estaduais de ciência e tecnologia evidencia um entendimento crescente de que a bioeconomia exige integração territorial, capacidade científica robusta e mecanismos de governança que transcendam fronteiras regionais.
Bioeconomia como eixo estruturante de um novo modelo de desenvolvimento
A chamada nasce em um momento em que a bioeconomia é vista não apenas como conceito ambiental, mas como estratégia econômica. O foco está na criação e no aprimoramento de tecnologias, processos e produtos capazes de valorizar a sociobiodiversidade amazônica, promovendo a transição para uma economia de baixo carbono e ampliando oportunidades de inclusão social.
A cooperação entre FAPESP e Fapeam opera sobre uma lógica de complementaridade. De um lado, São Paulo concentra parte significativa da infraestrutura científica nacional e acesso consolidado a cadeias produtivas e mercados. De outro, o Amazonas abriga um dos maiores patrimônios biológicos e culturais do planeta, com enorme potencial para geração de bioprodutos, bioprocessos e biotecnologias.
A proposta não se limita à pesquisa básica. O objetivo é fomentar inovações com potencial real de inserção mercadológica, estimulando cadeias de valor sustentáveis e fortalecendo mecanismos de certificação e rastreabilidade — elementos cada vez mais exigidos por mercados nacionais e globais atentos à origem e à sustentabilidade dos produtos.
Quatro frentes estratégicas para consolidar a bioeconomia amazônica
Os projetos submetidos devem se enquadrar em uma das quatro linhas temáticas definidas pela chamada, cada uma estruturando um eixo estratégico para consolidar a bioeconomia como motor de desenvolvimento regional.
A primeira linha aborda governança, instrumentos regulatórios e modelos de negócios sustentáveis. O desafio aqui é estruturar um ambiente bioeconômico competitivo, com segurança jurídica, marcos regulatórios adequados e modelos empresariais viáveis. Trata-se de criar as condições institucionais para que a bioeconomia deixe de ser promessa e se torne política pública estruturante.
A segunda linha concentra-se em descarbonização, energias renováveis e economia circular na Amazônia. Nesse eixo, o foco está no impacto ambiental e energético das tecnologias propostas. A intenção é impulsionar soluções capazes de reduzir emissões, otimizar uso de recursos e integrar princípios circulares à produção regional, conectando inovação tecnológica à agenda climática.
A terceira linha trata do desenvolvimento de bioprodutos, bioprocessos e biotecnologias derivados da sociobiodiversidade amazônica. Aqui reside o núcleo científico da chamada: transformar ativos biológicos em soluções tecnológicas inovadoras, respeitando marcos legais de acesso ao patrimônio genético e repartição de benefícios. O potencial inclui desde novos insumos farmacêuticos até biomateriais e alimentos funcionais.
A quarta linha amplia o olhar para além da tecnologia estrita, incorporando valorização do capital humano e economia criativa. A bioeconomia é compreendida como fenômeno cultural e social. Identidades amazônicas, saberes tradicionais e empreendedorismo social passam a ser vistos como vetores estratégicos, capazes de gerar renda e fortalecer comunidades locais.
Esse desenho revela uma compreensão sistêmica: a bioeconomia exige ciência, mercado, governança e cultura atuando de forma integrada.

Modelo de cooperação científica interestadual
Para participar da chamada, as propostas devem ser elaboradas conjuntamente por dois coordenadores, um vinculado a instituição de ensino superior ou pesquisa de São Paulo e outro do Amazonas. Cada pesquisador deverá submeter o projeto à fundação de seu respectivo estado — no caso amazonense, por meio do SIGFapeam, e no lado paulista, pelo Sistema de Apoio à Gestão (SAGe).
Esse modelo reforça a natureza bilateral da iniciativa. Não se trata de financiamento isolado, mas de construção de consórcios científicos que combinem competências, infraestrutura e conhecimento territorial.
A Fapeam destinará R$ 2 milhões ao conjunto dos projetos selecionados. A FAPESP reservou R$ 6 milhões, aplicando as normas da modalidade Auxílio à Pesquisa Regular. A diferença de valores reflete a dimensão dos respectivos orçamentos, mas o desenho conjunto garante alinhamento estratégico e corresponsabilidade.
O limite de até dez projetos selecionados indica foco em qualidade e profundidade, privilegiando iniciativas com alto potencial de impacto científico, econômico e social.

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Bioeconomia como política de futuro
Ao priorizar bioeconomia, descarbonização e inovação socioterritorial, a chamada evidencia uma mudança de paradigma. O desenvolvimento da Amazônia passa a ser pensado não como expansão predatória de fronteiras, mas como ativação inteligente de ativos biológicos e culturais.
O desafio central é equilibrar exploração econômica com conservação ambiental e justiça social. Para isso, ciência e tecnologia tornam-se ferramentas fundamentais. A parceria entre FAPESP e Fapeam demonstra que a bioeconomia pode ser estruturada como política de Estado, articulando diferentes regiões e fortalecendo redes de pesquisa.
Se bem-sucedidos, os projetos apoiados poderão gerar novos produtos, startups de base biotecnológica, modelos de certificação inovadores e cadeias produtivas sustentáveis. Mais do que resultados acadêmicos, espera-se impacto territorial.
A bioeconomia amazônica, nesse contexto, deixa de ser discurso e assume contornos práticos: financiamento, cronograma, metas e articulação institucional. A ciência passa a operar como ponte entre floresta, mercado e sociedade.











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