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Bioeconomia amazônica: renda, floresta em pé e os gargalos que ainda travam o desenvolvimento

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Floresta em pé como estratégia econômica

A bioeconomia na Amazônia deixou de ser apenas um conceito acadêmico ou uma promessa de discurso internacional. Ela se consolidou como eixo estratégico para conciliar geração de renda, conservação da biodiversidade e redução do desmatamento. No centro dessa agenda estão as chamadas Atividades Produtivas Sustentáveis (APS), que procuram estruturar cadeias econômicas capazes de manter a floresta em pé, recuperar áreas degradadas e consolidar uma fronteira agrícola mais eficiente e menos predatória.

Entre essas atividades, o manejo florestal comunitário e familiar ocupa posição-chave. Ele envolve populações tradicionais, indígenas e agricultores familiares na gestão planejada dos recursos naturais. No campo madeireiro, o desafio é agregar valor à madeira extraída legalmente, competindo com o mercado ilegal que historicamente pressionou os territórios amazônicos. Já no extrativismo não madeireiro, produtos como açaí, castanha-do-brasil, borracha nativa, óleos de copaíba e andiroba, fibras e resinas sustentam milhares de famílias ribeirinhas e seringueiras.

Essas cadeias não representam apenas renda. Elas são mecanismos de proteção territorial. Ao gerar valor econômico a partir da floresta conservada, reduzem a pressão por conversão para pastagens ou monoculturas extensivas.

Sistemas produtivos que regeneram

Outra frente decisiva da bioeconomia amazônica são os Sistemas Agroflorestais (SAFs). Ao consorciar espécies arbóreas com cultivos agrícolas e, em alguns casos, criação de animais, os SAFs recriam dinâmicas ecológicas próximas às da floresta original. Café e cacau cultivados sob sombra, combinados com cupuaçu, banana ou pupunha, formam arranjos produtivos que reforçam a segurança alimentar e restauram áreas degradadas, incluindo APPs e Reservas Legais.

Na pesca artesanal, base da subsistência de inúmeras comunidades ribeirinhas, a manutenção dos ecossistemas aquáticos é condição de sobrevivência econômica. Já a aquicultura, especialmente a piscicultura de tambaqui, surge como alternativa para áreas já abertas, oferecendo opção produtiva menos impactante do que a pecuária extensiva.

Falando em pecuária, a bioeconomia não ignora o peso desse setor na Amazônia. O esforço se concentra na transição para modelos sustentáveis, com intensificação produtiva em áreas já desmatadas e recuperação de pastagens degradadas. A meta é clara: produzir mais sem expandir a fronteira.

No campo da sociobiodiversidade, cooperativas passaram a processar e comercializar produtos com maior valor agregado. O açaí já ultrapassou o estágio de commodity regional e alcança mercados internacionais em forma de polpa e pó. No Maranhão, as mulheres quebradeiras de coco-babaçu transformaram o extrativismo em símbolo de organização social e protagonismo feminino. Castanha e cupuaçu avançam com unidades de beneficiamento e acesso a mercados diferenciados, incluindo comércio justo.

Essa engrenagem conta com apoio financeiro e técnico de instituições como o Fundo Amazônia, gerido pelo BNDES, o Sebrae, a Conab e programas federais como o PPCDAm e o Plano Nacional de Promoção da Sociobiodiversidade (PNPSB). O objetivo é superar gargalos históricos de logística, infraestrutura e acesso a crédito, tornando os produtos da floresta competitivos diante de cadeias globais.

Amazônia
Bioeconomia na Amazônia

Parcerias que podem transformar territórios

A bioeconomia também se apoia em parcerias entre empresas e comunidades tradicionais. Quando bem estruturadas, essas relações ultrapassam a simples compra e venda de insumos. Elas envolvem transferência de tecnologia, capacitação administrativa e fortalecimento organizacional.

Um caso emblemático é a parceria entre a Cooperacre e a empresa Veja, que remunera a borracha nativa por valores até cinco vezes superiores à média nacional. Esse tipo de arranjo reduz a dependência de atravessadores e amplia o acesso a mercados diferenciados, especialmente nos setores de cosméticos e alimentos.

Certificações como FSC e Orgânico agregam valor e garantem rastreabilidade, condição cada vez mais exigida por consumidores internacionais. Em alguns casos, além do preço do produto, há pagamento por serviços ambientais. No Acre, seringueiros recebem bônus adicionais por quilo de borracha entregue quando cumprem critérios de preservação ambiental e compromissos sociais.

As empresas também investem em infraestrutura local, financiando galpões de beneficiamento e equipamentos que reduzem a penosidade do trabalho. Esse tipo de apoio permite que comunidades agreguem valor antes da comercialização, capturando parcela maior da renda.

Entretanto, as parcerias exigem salvaguardas. Dependência excessiva de um único comprador, endividamento ou contratos desiguais podem comprometer a autonomia das comunidades. Por isso, mediação técnica e assessoria jurídica são essenciais, sobretudo no caso de povos indígenas, onde impactos culturais e desafios organizacionais tornam as negociações mais sensíveis.

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Licenciamento ambiental: o nó da governança

Se a bioeconomia representa um caminho promissor, o licenciamento ambiental ainda é um dos principais gargalos para sua consolidação. O sistema é frequentemente descrito como excessivamente burocrático e pouco adaptado às especificidades das atividades de pequeno porte.

Órgãos ambientais enfrentam carência de recursos humanos e infraestrutura tecnológica. Processos acumulam-se, especialmente porque a capacidade de análise está concentrada nas capitais, distante das comunidades rurais e ribeirinhas. A ausência de sistemas digitais integrados reduz transparência e eficiência.

Do ponto de vista regulatório, muitas normas tratam pequenos empreendimentos de baixo impacto como se fossem grandes obras de infraestrutura. O pluralismo legal — com variações entre estados e diferentes tipos de unidade fundiária — aumenta a insegurança jurídica. Além disso, o licenciamento frequentemente depende de anuências de órgãos como o INCRA e o ICMBio, o que amplia a complexidade.

Para o pequeno produtor, o custo do processo pode ser proibitivo. Estudos ambientais mal elaborados atrasam aprovações, e a falta de regularização fundiária se torna obstáculo quase intransponível. Sem comprovação da posse ou do direito de uso da terra, não há licença. Sem licença, não há crédito.

A descontinuidade de políticas públicas também fragiliza o ambiente institucional. Mudanças de gestão podem interromper programas de apoio, minando a confiança das comunidades. Em assentamentos, a ausência de regularidade ambiental coletiva impede o licenciamento individual dos lotes.

Entre as soluções propostas estão a criação de balcões comunitários de atendimento, o fortalecimento da digitalização dos sistemas e apoio técnico-jurídico permanente às comunidades tradicionais. Sem essas medidas estruturantes, a bioeconomia corre o risco de ficar restrita a iniciativas pontuais.

A Amazônia vive uma encruzilhada histórica. A bioeconomia oferece alternativa concreta ao modelo baseado na expansão predatória. Mas sua consolidação depende de governança eficiente, inclusão social e segurança jurídica. Manter a floresta em pé não é apenas uma escolha ambiental. É uma estratégia econômica que pode redefinir o papel da região no Brasil e no mundo.