O Brasil começa a dar passos mais firmes no enfrentamento ao tráfico de animais silvestres, um dos crimes ambientais mais lucrativos e cruéis do planeta. Em um intervalo de poucas semanas, o país avançou tanto no campo legislativo quanto na atuação prática e no planejamento estratégico, sinalizando que a proteção da fauna começa a ocupar um espaço mais central na agenda pública nacional.

A aprovação, na Câmara dos Deputados, de um projeto que endurece as penas para caça, captura e comércio ilegal de animais silvestres, somada ao início da construção de um Plano de Ação Nacional de Combate ao Tráfico de Vida Silvestre e a ações concretas de resgate realizadas em estados como o Amazonas, revela um movimento articulado que vai além da repressão pontual e busca estruturar uma política de longo prazo.
Um novo marco legal contra o tráfico de fauna
O projeto aprovado pela Câmara tipifica o tráfico de animais silvestres como crime específico e amplia significativamente as punições previstas na Lei de Crimes Ambientais. Pela nova proposta, quem capturar, transportar ou comercializar ilegalmente animais silvestres poderá cumprir pena de dois a cinco anos de reclusão, além de multa. Em circunstâncias agravantes — como morte do animal, prática reiterada ou atuação interestadual — a pena pode chegar a oito anos de prisão.
A proposta, que segue agora para análise do Senado Federal, foi aprovada por ampla maioria, refletindo um raro consenso político em torno da gravidade do problema. O tráfico de fauna é apontado por organismos internacionais como o quarto maior comércio ilegal do mundo, atrás apenas do tráfico de drogas, armas e pessoas. No Brasil, estima-se que apenas uma fração dos animais capturados sobreviva até o destino final, evidenciando um sistema marcado por sofrimento extremo, mortalidade elevada e perda irreversível de biodiversidade.
Além de endurecer penas, o texto também atualiza dispositivos relacionados à caça e perseguição de animais silvestres, elevando punições que antes eram consideradas brandas e pouco dissuasivas.
Resgates e educação ambiental no cotidiano das cidades
Enquanto o Congresso discute leis mais rigorosas, estados e órgãos ambientais lidam diariamente com os efeitos concretos da pressão humana sobre a fauna. Em Manaus, o Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (Ipaam) resgatou 389 animais silvestres ao longo de 2025, entre aves, répteis e mamíferos encontrados em áreas urbanas, residências e empreendimentos.
Embora o número represente uma redução em relação ao ano anterior, técnicos do órgão avaliam que o dado pode refletir avanços em educação ambiental e maior conscientização da população sobre como conviver com a fauna silvestre. Espécies como periquitos, mucuras, jiboias e iguanas figuram entre os animais mais frequentemente resgatados, revelando como o avanço urbano e a fragmentação de habitats continuam empurrando a vida silvestre para o convívio forçado com humanos.
Após o resgate, os animais são encaminhados ao Centro de Triagem de Animais Silvestres (Cetas) do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), onde passam por avaliação veterinária, reabilitação e, sempre que possível, retorno à natureza. Esse trabalho, embora silencioso, é uma das linhas de frente no combate aos efeitos do tráfico e da ocupação desordenada.

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Um plano nacional para enfrentar um crime organizado
A repressão isolada, no entanto, tem se mostrado insuficiente diante da complexidade das redes criminosas que exploram a fauna. Por isso, o Brasil iniciou, em dezembro de 2025, a construção do Plano de Ação Nacional de Combate ao Tráfico de Vida Silvestre. A oficina inaugural, realizada na Bahia, reuniu representantes de governo, sociedade civil, pesquisadores e instituições internacionais.
O processo é coordenado pela WCS Brasil e pela Conservare Wild Consulting, em parceria com o Espaço Baleia Jubarte, e dá continuidade a debates iniciados no Fórum Vozes pela Fauna. A proposta é organizar ações em eixos como fiscalização, governança, educação, financiamento e uso de tecnologias de monitoramento.
A construção coletiva do plano busca superar décadas de iniciativas fragmentadas e criar uma estratégia nacional integrada, capaz de enfrentar o tráfico não apenas como crime ambiental, mas como atividade econômica ilegal sofisticada, conectada a outras cadeias ilícitas.
Um caminho possível para proteger a biodiversidade
O endurecimento da legislação, o fortalecimento da fiscalização, os resgates urbanos e a articulação nacional indicam que o Brasil começa a tratar o tráfico de animais silvestres com a dimensão que o problema exige. Embora os desafios permaneçam enormes — da vastidão territorial à escassez de recursos —, há sinais de que o país avança rumo a uma política mais madura e integrada de proteção da fauna.
Iniciativas apoiadas por organizações como a Log Nature reforçam esse movimento, ao engajar o setor privado e a sociedade civil em uma agenda comum. A mensagem que emerge é clara: proteger a vida silvestre não é apenas uma obrigação ambiental, mas uma escolha ética, social e estratégica para o futuro do Brasil.












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