Prevenção climática no Brasil consome apenas 1% do PIB: por que os gastos emergenciais com desastres são dez vezes maiores que os investimentos estruturais?

Miguel Schincariol/AFP
Foto: Miguel Schincariol/AFP

A conta salgada da inércia ambiental no Brasil

O cenário econômico brasileiro enfrenta um gargalo que não nasce nas mesas de negociação financeira, mas na instabilidade dos céus e na exaustão do solo. Um diagnóstico detalhado apresentado no relatório Impactos Econômicos de Eventos Extremos no Brasil, produzido pelo Centro Internacional Celso Furtado de Políticas para o Desenvolvimento em colaboração com o Instituto Clima e Sociedade (iCS), revela uma realidade alarmante: o país já sacrifica anualmente cerca de cento e dez bilhões de reais do seu Produto Interno Bruto em virtude de catástrofes naturais. No entanto, o esforço financeiro para evitar essas perdas é desproporcional, com apenas 1% do PIB destinado à prevenção e adaptação.

Neste artigo
  1. A conta salgada da inércia ambiental no Brasil
  2. O mapa da desigualdade climática e o PIB municipal
  3. Contradições fiscais e o desafio do orçamento verde
  4. Da resposta emergencial à soberania climática

Essa disparidade entre o dano real e o investimento preventivo expõe uma fragilidade estrutural na gestão das finanças públicas. Enquanto os termômetros e os índices pluviométricos registram recordes sucessivos, a resposta estatal permanece aprisionada em um ciclo de remediação. Gastar com a reconstrução de pontes, estradas e o socorro a vítimas é fundamental, mas pesquisadores do Instituto de Economia da UFRJ alertam que essa estratégia reativa é dez vezes mais custosa do que a implementação de infraestruturas resilientes. O Brasil, na prática, paga o preço de uma “taxa de inação” que corrói o crescimento de longo prazo e compromete a estabilidade das contas da União.

O mapa da desigualdade climática e o PIB municipal

A crise climática no Brasil não possui uma face única, mas manifesta-se de formas distintas conforme a geografia, aprofundando as desigualdades regionais. O estudo demonstra que as secas extremas são o carrasco das cidades pequenas e do interior, especialmente naquelas dependentes da agropecuária, onde o valor adicionado do setor pode sofrer quedas superiores a 7,5%. Nessas localidades, o impacto é persistente: a perda média de 2% no PIB municipal pode levar até cinco anos para ser recuperada, drenando a capacidade de investimento local e gerando um ciclo de empobrecimento difícil de romper.

Se tratássemos os dados climáticos como tratamos os relatórios financeiros, o pânico se instalaria após cada atualização terrível. No entanto, embora os governos rotineiramente mudem de atitude quando confrontados com uma crise econômica, eles têm sido muito mais lentos para responder ao que os principais indicadores climáticos - os sinais vitais da Terra - estão nos dizendo
Se tratássemos os dados climáticos como tratamos os relatórios financeiros, o pânico se instalaria após cada atualização terrível. No entanto, embora os governos rotineiramente mudem de atitude quando confrontados com uma crise econômica, eles têm sido muito mais lentos para responder ao que os principais indicadores climáticos – os sinais vitais da Terra – estão nos dizendo

Por outro lado, os grandes centros urbanos sofrem com o impacto imediato e traumático das chuvas intensas. Inundações e deslizamentos provocam uma queda instantânea de cerca de 1% no PIB das cidades atingidas, acompanhada por uma desarticulação da arrecadação tributária e pela necessidade de deslocamentos populacionais em massa. A perda de patrimônio privado e a destruição de ativos públicos criam um passivo que as prefeituras, já asfixiadas, raramente conseguem gerir sem auxílio federal emergencial. Essa dinâmica transforma o orçamento municipal em uma ferramenta de sobrevivência, em vez de um motor de desenvolvimento social.

Contradições fiscais e o desafio do orçamento verde

Um dos pontos mais críticos levantados pelos relatórios é a esquizofrenia da política fiscal brasileira. Ao mesmo tempo em que o governo ensaia os primeiros passos em direção a um orçamento verde, o sistema tributário nacional ainda sustenta incentivos e subsídios para atividades que aceleram o aquecimento global. Essa desarticulação reduz drasticamente a eficácia de qualquer política de mitigação. É como se o Estado estivesse tentando apagar um incêndio com uma mão enquanto despeja combustível com a outra. A ausência de uma reforma que alinhe a arrecadação aos compromissos climáticos globais mantém o país em uma zona de risco econômico permanente.

Para os autores do relatório Orçamento Climático Nacional, a transição para uma economia de baixo carbono exige mais do que intenções políticas; requer uma reestruturação profunda da resposta fiscal. Em um cenário onde o aquecimento global atinja dois graus Celsius acima dos níveis pré-industriais, as perdas anuais do Brasil podem saltar para cento e quarenta e quatro bilhões de reais. A lacuna orçamentária entre o tamanho do problema e a capacidade de resposta não é apenas uma questão ambiental, mas um risco de solvência para o próprio Estado, que verá seus gastos emergenciais escalarem de forma insustentável caso a prevenção continue sendo tratada como um gasto secundário.

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Foto: Max Peixoto/DiaEsportivo/Folhapress

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Da resposta emergencial à soberania climática

A superação desse impasse passa pela transformação da agenda climática em um pilar central da estratégia econômica. Tratar a adaptação como investimento, e não como despesa, é a chave para reduzir as externalidades negativas que hoje punem a saúde pública e a produtividade nacional. Iniciativas que foquem na infraestrutura verde, no manejo sustentável de bacias hidrográficas e no planejamento urbano resiliente possuem um efeito multiplicador positivo, protegendo o PIB e salvando vidas antes que o próximo evento extremo atinja as manchetes.

O diagnóstico está quantificado e as soluções técnicas são conhecidas. O que falta ao Brasil é a coragem política para romper com a lógica do socorro a curto prazo e investir na estabilidade de longo prazo. A inação tem um custo crescente e mensurável que já está sendo pago por cada cidadão, seja no preço dos alimentos afetados pela seca ou nos impostos drenados para reconstruir o que poderia ter sido protegido. A soberania econômica do país no século vinte e um dependerá, fundamentalmente, da sua capacidade de se adaptar a um planeta em mutação, transformando o 1% de prevenção em uma base sólida para um desenvolvimento verdadeiramente sustentável.

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