O preço oculto da tecnologia limpa: A exploração mineral no sul global


As veias abertas da transição energética: O Sul Global na rota dos minerais críticos

A promessa de um futuro descarbonizado, movido por veículos elétricos silenciosos e redes de energia solar reluzentes, carrega consigo um custo invisível do consumo mineral para tecnologia nas metrópoles do Norte Global. Sob a superfície dessa narrativa de salvação climática, desenrola-se uma nova geopolítica que reedita velhas lógicas coloniais. A corrida por minerais críticos como lítio, cobalto, nióbio e terras raras está redesenhando o mapa da exploração, transformando vastas áreas da América Latina, África e Ásia no que especialistas chamam de zonas de sacrifício. Nestes territórios, a preservação do planeta parece ter um preço: o esgotamento dos recursos hídricos e a precarização da vida das populações locais.

Foto: Mbrickn

O espectro das zonas de sacrifício

A lógica por trás da transição energética atual fundamenta-se em uma racionalidade de alteridade. Para que cidades europeias ou norte-americanas possam desfrutar de ar limpo e mobilidade elétrica, é aceitável que o subsolo de países distantes seja exaurido. Este conceito de zona de sacrifício não é fruto do acaso, mas de uma escolha política e econômica que rotula territórios habitados por camponeses e povos originários como espaços vazios ou atrasados. No Triângulo do Lítio, que abrange regiões da Argentina, Bolívia e Chile, a extração do metal branco é, na verdade, uma mineração de água. Para cada tonelada de carbonato de lítio produzida, cerca de dois milhões de litros de água são evaporados em uma das regiões mais áridas do globo, comprometendo a subsistência de comunidades milenares em nome das baterias de alta performance.

a seca da Vila de Ribeirinhos Boarazinho

Enquanto isso, na República Democrática do Congo, que detém a maior fatia das reservas globais de cobalto, o cenário é de conflito e abusos. Milhares de crianças e trabalhadores informais operam em minas artesanais perigosas para alimentar a cadeia de suprimentos de gigantes da tecnologia. O paradoxo é flagrante: a tecnologia que visa salvar a humanidade das mudanças climáticas é frequentemente erguida sobre a violação sistemática dos direitos humanos e a degradação ambiental aguda. O que se observa é uma convergência entre o neoextrativismo de governos em desenvolvimento e o capitalismo verde do Norte, ambos elegendo o Sul Global para absorver os detritos ecológicos da modernidade.

A reação do BRICS+ e a soberania mineral

Diante desse cenário de dependência, o bloco dos BRICS+ surge como um contrapeso estratégico sem precedentes na história moderna. Pela primeira vez, um grupo de nações detém simultaneamente as reservas minerais, a capacidade de refino e o mercado consumidor necessários para desafiar o eixo tradicional dominado por Estados Unidos e Europa. O Brasil, com seu domínio sobre o nióbio e vastas reservas de terras raras, une-se à China, que hoje controla o gargalo do processamento global desses materiais. O objetivo é claro: romper o modelo colonial de exportar minério bruto e importar tecnologia de alto valor agregado.

O Novo Banco de Desenvolvimento, conhecido como Banco dos BRICS, tem desempenhado um papel crucial ao financiar infraestruturas de transição energética sem as exigências políticas austeras do Fundo Monetário Internacional. A estratégia passa pela criação de uma cadeia de valor ponta a ponta dentro do próprio bloco. A ideia de que o mineral extraído na África ou na América Latina seja processado localmente e transformado em produtos acabados na Índia ou na Rússia visa garantir que o lucro e a inovação permaneçam no Sul. Mais do que uma aliança comercial, o bloco busca autonomia financeira através de sistemas de pagamento que contornam o dólar, protegendo suas economias de sanções e pressões externas.

Mineral - Foto: Reinhard Jahn
Foto: Reinhard Jahn

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Tropicalização do verde e o dilema brasileiro

O Brasil ocupa uma posição singular e complexa nesta balança. O país possui uma das matrizes elétricas mais limpas do mundo e um programa de biocombustíveis, liderado pelo etanol de cana-de-açúcar, que é referência global há décadas. No entanto, o governo brasileiro enfrenta o desafio de equilibrar a exploração de hidrocarbonetos na Margem Equatorial com a ambição de ser uma potência ambiental. A estratégia nacional passa por questionar o que diplomatas chamam de contabilidade climática enviesada. Atualmente, o petróleo é tributado no consumo, favorecendo quem extrai, enquanto o alimento é penalizado na origem pelo manejo da terra, sobrecarregando países tropicais.

A proposta brasileira de tropicalização do verde sugere que o mercado internacional reconheça o estoque de carbono das florestas preservadas e o manejo profissional do solo como ativos econômicos. Para o Brasil, a descarbonização não pode ser um pacote fechado vindo do Norte, focado exclusivamente na eletrificação. O país defende a rota dos motores híbridos-flex e do biodiesel, tecnologias que aproveitam a infraestrutura existente e geram menos emissões totais quando se considera o ciclo de vida completo da energia. Essa visão exige que o país não apenas aceite padrões estrangeiros, mas construa suas próprias métricas científicas para validar sua produção sustentável.

Por uma transição justa e circular

Para evitar que a transição energética se torne uma nova era de pilhagem, é imperativo que o conceito de justiça seja aplicado em todas as suas dimensões. A justiça distributiva exige que os benefícios da mineração cheguem às comunidades locais, e não apenas aos acionistas de empresas transnacionais. A justiça processual garante que povos indígenas e populações tradicionais tenham voz ativa e poder de veto sobre projetos em seus territórios, respeitando tratados internacionais como os da Organização Internacional do Trabalho. Além disso, a justiça restaurativa obriga as empresas a planejar o fechamento das minas desde o primeiro dia, garantindo a recuperação ambiental dos solos e águas.

A transição deve, enfim, abraçar a economia circular de forma genuína. Isso inclui o investimento em mineração urbana, onde a reciclagem de eletrônicos substitui a necessidade de novas e destrutivas escavações. Instituições como a Organização das Nações Unidas e blocos regionais como o Mercosul têm o papel de mediar essa transição, garantindo que o direito ao desenvolvimento sustentável não seja um privilégio de poucos. Se o século XX foi marcado pela dependência do petróleo, o século XXI não pode ser definido pela escravidão aos minerais críticos. A verdadeira sustentabilidade só será alcançada quando o progresso de uma região não exigir o sacrifício de outra.