
Capacitação como ponte entre deslocamento e autonomia
A mobilidade humana impulsionada por crises ambientais, políticas e econômicas deixou de ser um fenômeno episódico para se tornar uma característica estrutural do século 21. No Brasil, esse movimento se expressa na chegada de venezuelanos, haitianos e pessoas vindas de países africanos, do Oriente Médio e da América Central. Embora o termo “refugiado climático” ainda não possua reconhecimento jurídico formal e seja alvo de debate acadêmico — muitos especialistas preferem a expressão mobilidade humana induzida pelas mudanças climáticas — o país já convive com fluxos migratórios que combinam degradação ambiental, colapso institucional e vulnerabilidade socioeconômica.
Nesse cenário, a capacitação profissional emerge como eixo central de inclusão social e econômica. Mais do que oferecer cursos, trata-se de criar condições reais para que migrantes e refugiados reconstruam trajetórias, conquistem autonomia financeira e participem ativamente da vida urbana. Capacitação, nesse contexto, não é política acessória: é estratégia de dignidade.
Interiorização e protagonismo das cidades médias
A chamada estratégia de interiorização tem redistribuído parte significativa dos recém-chegados para cidades médias brasileiras. Esses centros intermediários, geralmente com população entre 100 mil e 1 milhão de habitantes, desempenham papel regional relevante e apresentam mercado de trabalho menos saturado que as grandes capitais. Indústrias, setor de serviços e construção civil frequentemente absorvem mão de obra com menor exigência inicial de qualificação formal, facilitando a inserção dos migrantes nos primeiros meses.
Ao mesmo tempo, o fortalecimento das capacidades locais tornou-se prioridade. O Ministério das Cidades selecionou 12 municípios para participar do curso “Urgência Climática – Implementando Soluções em Territórios Urbanos Vulneráveis”. A iniciativa envolve cidades como Abaetetuba (PA), Caruaru (PE), Rio Branco (AC), Franco da Rocha (SP), Pelotas (RS), Rio Grande (RS), São Lourenço do Sul (RS), Betim (MG), Osasco (SP), Juiz de Fora (MG), Jundiaí (SP) e Dourados (MS).

O objetivo imediato é capacitar equipes técnicas municipais para lidar com desafios climáticos em áreas vulneráveis. No entanto, o impacto vai além da gestão ambiental. Ao fortalecer a governança urbana, cria-se um ambiente institucional mais preparado para acolher populações deslocadas, articular políticas habitacionais e promover integração econômica. Em cidades médias que crescem rapidamente, investir em planejamento e adaptação climática também significa evitar que migrantes sejam empurrados para novas periferias de risco.
Fronteira Digital e a aposta na inclusão tecnológica
Entre as experiências mais emblemáticas de capacitação voltadas a refugiados está o projeto Fronteira Digital, implementado em Boa Vista (RR). A iniciativa é liderada pela International Finance Corporation (IFC), braço do Grupo Banco Mundial voltado ao setor privado, em parceria com a Microsoft Brasil, o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR) e a AVSI Brasil.
O projeto nasceu com foco claro: ampliar a empregabilidade de refugiados e migrantes que vivem em abrigos na capital roraimense. O programa-piloto, com duração de quatro meses, prevê a formação de 30 participantes em ferramentas como Microsoft 365 e Power Platform. O processo combina aprendizagem online individual, acompanhamento de monitores, preparação para certificações e apoio contínuo.
A meta é ambiciosa: empregar ao menos 60% dos participantes. Para isso, o projeto articula empresas integrantes do Fórum Empresas com Refugiados e identifica vagas tanto em companhias de tecnologia quanto em funções que exijam conhecimentos básicos de softwares corporativos. A estratégia inclui ainda a montagem de laboratório de informática próximo aos abrigos, suporte técnico permanente e auxílio no deslocamento dos candidatos para cidades onde oportunidades de trabalho forem confirmadas.
Mais do que transmitir habilidades digitais, o Fronteira Digital busca romper um ciclo de dependência. Ao inserir refugiados em cadeias produtivas formais, a iniciativa demonstra que diversidade e inclusão podem fortalecer negócios e gerar impacto social concreto. A capacitação, nesse caso, funciona como catalisador de autossuficiência.
Organizações da sociedade civil e formação para o mercado
O ecossistema de capacitação não se limita a projetos pontuais. Diversas organizações da sociedade civil atuam de forma contínua na preparação de migrantes para o mercado brasileiro. O Instituto Cyrela desenvolve programas voltados à construção civil, setor que historicamente absorve grande contingente de trabalhadores estrangeiros. A formação inclui tanto competências técnicas quanto habilidades comportamentais, ampliando as chances de permanência no emprego.
O Instituto Adus concentra esforços no ensino de língua portuguesa e na orientação profissional, reconhecendo que o domínio do idioma é requisito básico para inserção qualificada e segurança cotidiana. Já a Toti Diversidade atua com foco em tecnologia, preparando refugiados para atuar em áreas digitais de maior valor agregado.
O aprendizado da língua portuguesa atravessa praticamente todas as iniciativas. A comunicação não é apenas ferramenta de trabalho, mas condição de pertencimento. Sem idioma, a integração social se fragiliza; com ele, ampliam-se redes de contato, acesso a serviços públicos e oportunidades formais.

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Desafios estruturais e horizonte regulatório
Apesar das iniciativas, persistem obstáculos estruturais. A ausência de marco regulatório específico para refugiados climáticos gera insegurança jurídica e limita a formulação de políticas direcionadas. A revalidação de diplomas estrangeiros continua sendo barreira significativa para profissionais qualificados, que muitas vezes acabam inseridos em funções abaixo de sua formação original.
Transformar mobilidade climática em estratégia de adaptação exige planejamento de longo prazo. Investimentos em capacitação, infraestrutura urbana e coordenação federativa podem converter a chegada de migrantes em oportunidade de dinamização econômica local. Cidades médias, se bem estruturadas, têm potencial para absorver novos moradores sem reproduzir padrões de exclusão.
A experiência brasileira indica que capacitação não é apenas resposta emergencial, mas instrumento de desenvolvimento. Quando articulada com políticas urbanas sustentáveis e participação do setor privado, pode redefinir trajetórias individuais e fortalecer territórios. Em um mundo marcado por deslocamentos crescentes, investir em conhecimento, qualificação e inclusão produtiva deixa de ser opção e passa a ser imperativo estratégico.





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