
Carbono azul e manguezais: infraestrutura climática invisível
O conceito de carbono azul redefine a maneira como o mundo enxerga os ecossistemas costeiros. Ele se refere ao carbono capturado e armazenado por ambientes marinhos e estuarinos como manguezais, marismas e pradarias marinhas. Embora ocupem uma extensão territorial relativamente pequena quando comparados às florestas terrestres, esses ecossistemas exercem um papel desproporcionalmente grande na regulação do clima global.
Entre eles, os manguezais destacam-se como verdadeiras usinas naturais de captura de carbono azul. Estudos indicam que podem sequestrar de três a cinco vezes mais carbono por hectare do que florestas tropicais continentais. No Brasil, estima-se que os manguezais armazenem cerca de 1,9 bilhão de toneladas de CO₂, sendo aproximadamente 75% desse estoque concentrado na costa amazônica, especialmente nos estados do Amapá, Pará e Maranhão.
A singularidade dos manguezais está na forma como retêm carbono azul. Diferentemente das florestas terrestres, onde grande parte do carbono fica acumulada na biomassa aérea, nos manguezais dois terços ou mais do estoque estão no solo. A lama encharcada, pobre em oxigênio, desacelera a decomposição da matéria orgânica. O resultado é um cofre subterrâneo que pode guardar carbono por milhares de anos.
Essa característica transforma os manguezais em ativos estratégicos no enfrentamento das mudanças climáticas. Quando preservados, funcionam como sumidouros estáveis. Quando degradados, tornam-se fontes de emissões, liberando para a atmosfera o carbono azul acumulado ao longo de séculos.
Serviços ecossistêmicos e segurança territorial
O valor do carbono azul não se restringe ao clima. Manguezais são infraestruturas naturais multifuncionais. Suas raízes entrelaçadas amortecem o impacto das marés, reduzem erosão costeira e protegem comunidades contra tempestades e elevação do nível do mar. Funcionam como barreiras vivas, muitas vezes mais eficientes e menos onerosas que estruturas artificiais.
Esses ecossistemas também são berçários marinhos. Estima-se que cerca de 80% de diversas espécies de peixes, crustáceos e moluscos dependam dos manguezais em alguma fase de seus ciclos de vida. A produtividade pesqueira costeira está diretamente ligada à integridade desses ambientes.

Há ainda a função de filtro natural. As raízes capturam sedimentos e absorvem poluentes antes que atinjam mar aberto, contribuindo para qualidade da água e equilíbrio dos ecossistemas marinhos.
Quando se considera o carbono azul nesse contexto ampliado, percebe-se que sua preservação sustenta cadeias produtivas, segurança alimentar e estabilidade territorial. Comunidades extrativistas, pescadores artesanais e quilombolas dependem desses ambientes não apenas como fonte de renda, mas como base de identidade cultural e organização social.
Mercado carbono azul e Sistema Brasileiro Comércio Emissões
A crescente valorização do carbono azul impulsionou o desenvolvimento do mercado de créditos de carbono. Cada crédito corresponde à neutralização ou não emissão de uma tonelada de CO₂. Projetos que conservam ou restauram manguezais podem gerar créditos negociáveis, transformando conservação em ativo econômico.
Para que o carbono azul se torne comercializável, é necessário processo rigoroso de certificação que valide a capacidade de sequestro e armazenamento do ecossistema. Organizações como a Verra estabeleceram metodologias internacionais para esse fim, enquanto iniciativas nacionais começam a estruturar certificações adaptadas à realidade brasileira.
No Brasil, a maior parte das transações ocorre no mercado voluntário, onde empresas compram créditos por iniciativa própria para compensar emissões e cumprir metas ambientais. O valor médio da tonelada de CO₂ nesse segmento gira em torno de US$ 4,60. No entanto, projeções indicam que, em cenário de economia de baixo carbono, a precificação pode alcançar US$ 100 por tonelada, ampliando exponencialmente o valor econômico do carbono azul.
A regulamentação avança com o Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões (SBCE), instituído pela Lei nº 15.042/2024. O SBCE estabelece bases para mercado regulado, no qual limites de emissão são definidos e excedentes precisam ser compensados por meio de compra de créditos. Essa estrutura oferece maior segurança jurídica e previsibilidade para investimentos de longo prazo.
O estoque de carbono azul nos manguezais brasileiros é estimado em R$ 48,9 bilhões no mercado voluntário atual, podendo ultrapassar R$ 1 trilhão em cenário de valorização robusta. Esses números evidenciam que conservação não é apenas imperativo ambiental, mas oportunidade econômica estratégica.

SAIBA MAIS: Manguezais têm potencial de gerar R$ 49 bilhões em crédito de carbono
Comunidades tradicionais, salvaguardas e ameaças
A expansão do mercado de carbono azul traz potencial transformador para comunidades costeiras. Projetos estruturados podem gerar renda direta para pescadores, extrativistas e quilombolas que atuam como guardiões dos manguezais. Modelos de certificação agrupada permitem que pequenas comunidades se unam para diluir custos técnicos e alcançar escala comercial viável.
No entanto, a monetização do carbono azul exige salvaguardas socioambientais rigorosas. O princípio do Consentimento Livre, Prévio e Informado assegura que comunidades participem das decisões e recebam repartição justa dos recursos gerados. Sem esses mecanismos, há risco de reprodução de desigualdades históricas.
A conservação do carbono azul também enfrenta ameaças persistentes. O Brasil já perdeu cerca de 25% da vegetação original de manguezais. Urbanização desordenada, pressão imobiliária, aquicultura intensiva e desmatamento comprometem a integridade desses ecossistemas. Na costa amazônica, onde se concentra a maior parte do estoque nacional, a degradação representa risco climático significativo.
Quando manguezais são aterrados ou convertidos para outras atividades, a decomposição da matéria orgânica acelera e o carbono azul acumulado é liberado. O que era sumidouro torna-se fonte de emissão. Além do impacto climático, há perda de biodiversidade, redução da produtividade pesqueira e aumento da vulnerabilidade costeira.
O debate sobre carbono azul, portanto, transcende métricas de carbono. Ele envolve soberania territorial, justiça social, segurança alimentar e planejamento climático. Preservar manguezais significa proteger uma das defesas naturais mais eficientes contra aquecimento global e, simultaneamente, fortalecer economias locais.
O futuro do carbono azul no Brasil dependerá da convergência entre ciência, regulação, mercado e protagonismo comunitário. Se bem estruturado, o país poderá transformar seus manguezais em exemplo global de como natureza e economia podem caminhar juntas na transição para sociedade de baixo carbono.











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