
Cidades para polinizadores: biodiversidade urbana como estratégia de futuro
Durante décadas, a natureza nas cidades foi tratada como ornamento. Árvores alinhadas, gramados aparados com rigor, jardins planejados para agradar aos olhos humanos. Mas sob essa estética controlada, um processo silencioso se intensificava: o declínio de polinizadores. Abelhas, borboletas, besouros e mariposas, responsáveis por sustentar a reprodução de plantas e parte significativa da produção de alimentos, passaram a enfrentar um ambiente urbano cada vez mais hostil.
Hoje, a noção de biodiversidade urbana ganha densidade política e científica. Não se trata apenas de plantar mais árvores, mas de desenhar cidades capazes de abrigar vida diversa. Nesse contexto, o conceito de Cidades para Polinizadores emerge como uma agenda estratégica. Transformar ruas, praças e telhados em refúgios ecológicos é também uma forma de proteger a segurança alimentar, a saúde coletiva e a resiliência climática.
Polinizadores: guardiões invisíveis da alimentação
Estima-se que cerca de um terço da alimentação humana dependa diretamente da polinização animal. No Brasil, aproximadamente 60% das espécies cultivadas para uso humano e industrial necessitam desse serviço ecossistêmico. Globalmente, estudos apontam que até 70% das plantas utilizadas para consumo humano se beneficiam da ação desses insetos.
Polinizadores garantem não apenas frutas e hortaliças, mas também sementes, fibras e óleos vegetais. Em ambientes urbanos, eles cumprem função adicional: ajudam na regeneração da vegetação, ampliam a diversidade genética das plantas e contribuem para a estabilidade dos ecossistemas locais.

A relevância desse tema foi reforçada por avaliações coordenadas pela Plataforma Intergovernamental sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos, a IPBES. O órgão reúne especialistas de diferentes países para avaliar o estado da biodiversidade e propor diretrizes globais de conservação.
Entre as recomendações estão o aprimoramento de padrões regulatórios de pesticidas, o incentivo ao manejo integrado de pragas, a conservação de habitats urbanos e rurais e o fortalecimento de sistemas de monitoramento de longo prazo. O recado é claro: proteger polinizadores é proteger a base da produção alimentar.
A cidade como ameaça e oportunidade
A urbanização acelerada impôs desafios significativos a esses insetos. A expansão de áreas impermeáveis reduz habitats naturais e fragmenta paisagens. Gramados excessivamente aparados eliminam flores espontâneas que serviriam de alimento. O uso de pesticidas e herbicidas em jardins e áreas públicas elimina tanto pragas quanto espécies benéficas.
Outro fator pouco discutido é a poluição luminosa. Luzes artificiais confundem polinizadores noturnos, como mariposas, alterando padrões de alimentação e reprodução. Espécies exóticas invasoras também competem com flora e fauna nativas, afetando redes ecológicas locais.
Apesar disso, a cidade pode se tornar aliada da conservação. Áreas verdes bem planejadas funcionam como refúgios alternativos, compensando parcialmente a perda de habitats naturais. Estudos realizados em Uberlândia demonstram que fragmentos urbanos podem sustentar rica diversidade de abelhas quando há conectividade ecológica e oferta de recursos florais ao longo do ano.
A chave está no planejamento. Infraestruturas verdes e azuis, como telhados verdes, jardins de chuva, biovaletas e corredores ecológicos, ampliam a disponibilidade de alimento e abrigo. Pequenas manchas de vegetação distribuídas estrategicamente, conhecidas como stepping-stones, funcionam como trampolins ecológicos, permitindo o deslocamento entre áreas maiores.
Gestos simples também fazem diferença. Reduzir a frequência de corte de gramados possibilita a floração de dentes-de-leão e trevos, importantes fontes de néctar. Preservar manchas de vegetação espontânea em parques e bermas de estrada amplia a diversidade de recursos.

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Meliponicultura urbana: ciência e conservação na prática
Entre as estratégias mais promissoras está a meliponicultura urbana, a criação de abelhas nativas sem ferrão em quintais, escolas e espaços públicos. Essas espécies, conhecidas como meliponíneos, são fundamentais para a polinização de plantas tropicais e apresentam comportamento dócil, facilitando sua presença em áreas densamente povoadas.
Espécies como a Jataí, Tetragonisca angustula, adaptam-se facilmente a cavidades artificiais e são comuns em centros urbanos. A Arapuá, Trigona spinipes, demonstra alta resiliência em ambientes perturbados. Mirins do gênero Plebeia, Iraí, Nannotrigona testaceicornis, Canudo, Scaptotrigona aff. depilis, e Jataí-da-terra, Paratrigona subnuda, também são registradas em levantamentos urbanos.
A meliponicultura não é apenas prática produtiva, mas ferramenta de educação ambiental. Projetos como o BeeKeep aproximam cidadãos da pesquisa científica. O projeto oferece modalidades como o Cidadão ASF, no qual voluntários seguem protocolos de observação e registram vídeos de 30 segundos das abelhas, e o Fit Count Brasil, focado na contagem de polinizadores em áreas delimitadas.
Esses dados alimentam bancos de informações utilizados por pesquisadores, fortalecendo o monitoramento participativo. A chamada ciência cidadã amplia a escala de coleta de dados e democratiza o conhecimento.
Além do BeeKeep, eventos como BioBlitzes mobilizam voluntários para identificar o maior número possível de espécies em determinado local e período. O registro de ausências, conhecido como importância do zero, também é fundamental para compreender flutuações populacionais.
Experiências urbanas e políticas públicas
Exemplos concretos demonstram que a integração entre gestão pública, pesquisa e participação social é viável. Em São Paulo, o Museu Catavento mantém um jardim voltado para polinizadores, combinando pesquisa e sensibilização do público.
Na Europa, cidades como Berlim adotaram políticas de eliminação de pesticidas em áreas públicas e criaram certificações para jardins amigos das abelhas. Em Genk, na Bélgica, o Plano das Abelhas envolve moradores na criação de habitats favoráveis.
Essas iniciativas dialogam com as diretrizes propostas pela IPBES: conservar e restaurar habitats, financiar pesquisas participativas, desenvolver monitoramento contínuo e integrar a polinização como insumo essencial à agricultura.
Ao adotar a perspectiva de Cidades para Polinizadores, gestores públicos reconhecem que biodiversidade urbana não é luxo, mas infraestrutura ecológica. Ela regula microclimas, contribui para a infiltração de água, amplia o bem-estar psicológico e fortalece cadeias alimentares.
Transformar cidades em ecossistemas compartilhados exige mudança cultural. Significa aceitar que um gramado menos aparado pode ser mais saudável; que uma abelha em um parque não é ameaça, mas sinal de equilíbrio; que telhados podem florescer e muros podem abrigar ninhos.
Proteger polinizadores é, em última instância, proteger a própria cidade. Em um mundo marcado por mudanças climáticas e insegurança alimentar, cada flor urbana pode ser elo estratégico entre natureza e futuro.











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