Ciência oceânica ganha impulso com projetos do PROASA


Quando ciência vira estratégia: o Atlântico Sul e a Antártica no centro da pesquisa

A divulgação dos resultados do primeiro ciclo do Programa FAPESP para o Atlântico Sul e Antártica marca um momento simbólico para a ciência brasileira. Ao selecionar cinco projetos de pesquisa entre as propostas submetidas até 30 de abril de 2025, a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) reafirma uma aposta estratégica em dois sistemas planetários profundamente conectados, mas ainda cercados de lacunas científicas: o Atlântico Sul e a Antártica.

Foto: Marinha do Brasil

Mais do que uma chamada temática, o Programa FAPESP para o Atlântico Sul e Antártica (PROASA) nasce como uma resposta estruturada aos grandes desafios ambientais do século XXI. Mudanças climáticas, perda de biodiversidade, poluição marinha e transições energéticas exigem conhecimento integrado, capaz de ultrapassar fronteiras disciplinares e geográficas.

Ao anunciar os projetos contemplados no 1º Ciclo, a FAPESP sinaliza que compreender os oceanos deixou de ser um exercício acadêmico isolado e passou a ocupar um lugar central na formulação de políticas públicas, compromissos internacionais e estratégias de desenvolvimento sustentável.

Uma chamada alinhada ao mundo e aos desafios do século

Lançada em fevereiro de 2025, a chamada do PROASA foi estruturada em dois ciclos de submissão, com prazos em 30 de abril e 4 de agosto. O foco esteve voltado a temas da pesquisa oceânica que representam obstáculos históricos à comunidade científica paulista e nacional, especialmente aqueles ligados a limitações metodológicas, tecnológicas e de infraestrutura.

O programa dialoga diretamente com compromissos globais assumidos pelo Brasil, como a Agenda 2030 das Nações Unidas para o Desenvolvimento Sustentável e a Década das Nações Unidas da Ciência Oceânica para o Desenvolvimento Sustentável (2021–2030). Ao fomentar pesquisas no Atlântico Sul e na Antártica, o PROASA contribui para inserir a produção científica brasileira em debates estratégicos sobre clima, oceanos e sustentabilidade.

Esses dois sistemas planetários, embora interligados por correntes oceânicas, fluxos biogeoquímicos e dinâmicas climáticas, ainda são pouco compreendidos em sua complexidade. Investir em conhecimento sobre essas regiões significa ampliar a capacidade do país de responder a fenômenos extremos, prever impactos ambientais e participar de decisões internacionais com base científica sólida.

Imagem: PROANTAR/Wikimedia Commons
Imagem: PROANTAR/Wikimedia Commons

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Os cinco projetos que traduzem desafios globais em pesquisa aplicada

As cinco propostas selecionadas no primeiro ciclo do PROASA revelam a diversidade temática e a ambição científica do programa. Juntas, elas abordam desde mudanças climáticas e biodiversidade até poluição emergente e geração de energia renovável.

O projeto Dinâmicas da biodiversidade das algas sob os efeitos das mudanças climáticas, coordenado por Pio Colepicolo no Instituto de Química da Universidade de São Paulo (USP), investiga como organismos fundamentais para os ecossistemas marinhos respondem ao aquecimento global e a alterações ambientais. As algas desempenham papel-chave na produção primária dos oceanos e na regulação do carbono, tornando seu estudo essencial para entender os impactos climáticos em larga escala.

Já o estudo Fashiontox, sob responsabilidade de Paloma Kachel Gusso Choueri, da Universidade Santa Cecília (UNISANTA), lança luz sobre um problema emergente: os riscos ecológicos das microfibras têxteis nos ecossistemas marinhos. O projeto conecta ciência ambiental, indústria da moda e poluição oceânica, ampliando o debate sobre fontes invisíveis de contaminação.

Na Antártica, o projeto CARBOANTAR, liderado por Cesar de Castro Martins no Instituto Oceanográfico da USP, investiga mudanças ambientais e o ciclo do carbono na Baía do Almirantado ao longo do Holoceno Tardio. A pesquisa busca evidências climáticas e geoquímicas capazes de reconstruir a história ambiental recente do continente gelado, contribuindo para modelos climáticos mais precisos.

Outro projeto selecionado se dedica a revelar a diversidade de Ophiuroidea, um grupo de equinodermos pouco conhecido, em localidades remotas. A pesquisa é coordenada por Michela Borges, do Instituto de Biologia da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), e reforça a importância da taxonomia e da biologia evolutiva em ambientes extremos.

Por fim, o projeto liderado por Eduardo Galembeck, também da UNICAMP, explora o potencial bioeletroquímico de comunidades incrustantes marinhas para geração de energia renovável. A proposta conecta biologia, engenharia e inovação, apontando aplicações práticas em sinalização e monitoramento marítimo.

Ciência oceânica como investimento no futuro

O conjunto de projetos selecionados no 1º Ciclo do PROASA revela uma visão clara: compreender o oceano é compreender o futuro do planeta. Ao articular pesquisas no Atlântico Sul e na Antártica, o programa amplia a capacidade científica brasileira de dialogar com temas globais como segurança climática, conservação da biodiversidade e transição energética.

A escolha de instituições como USP, UNICAMP e UNISANTA demonstra a força do sistema paulista de ciência e tecnologia, mas também reforça a vocação do PROASA para gerar impactos que ultrapassam fronteiras regionais. Os resultados dessas pesquisas tendem a alimentar bases de dados internacionais, subsidiar políticas públicas e fortalecer a presença do Brasil em fóruns científicos globais.

Em um cenário de mudanças rápidas e incertezas climáticas, programas como o PROASA transformam pesquisa em estratégia. Ao investir em ciência oceânica de ponta, a FAPESP sinaliza que o conhecimento não é apenas uma resposta ao presente, mas uma ferramenta essencial para antecipar riscos, orientar decisões e construir caminhos sustentáveis para as próximas décadas.