Relatório global alerta: clima será maior ameaça até 2036


Eventos extremos deixam de ser exceção e passam a definir o risco global

Ondas de calor, enchentes, secas prolongadas, tempestades violentas e oscilações bruscas de temperatura deixaram de ser eventos isolados para se tornarem o principal vetor de risco global nas próximas décadas. Essa é a conclusão central do Relatório de Riscos Globais 2026, divulgado pelo Fórum Econômico Mundial, que projeta os eventos climáticos extremos como a maior ameaça ao planeta até 2036, superando conflitos geopolíticos, crises econômicas e instabilidades tecnológicas.

Foto: Departamento Florestal do Oregon

O relatório indica que a crise climática, hoje já presente no cotidiano de bilhões de pessoas, avançará rapidamente no ranking de ameaças globais. Em apenas dez anos, os impactos diretos das mudanças no clima devem ocupar o primeiro lugar entre os riscos capazes de comprometer economias, desestruturar sociedades e pressionar sistemas políticos e de saúde pública. O dado não surge isolado: ele dialoga com evidências científicas acumuladas por organismos internacionais, universidades e centros de pesquisa ao redor do mundo.

Aquecimento global intensifica extremos, inclusive ondas de frio

Ao contrário do senso comum explorado por discursos negacionistas, episódios de frio intenso não contradizem o aquecimento global — eles o reforçam. Estudos publicados pela revista Nature Climate Change mostram que a elevação da temperatura média do planeta altera padrões atmosféricos, redistribuindo massas de ar frio e quente de forma mais caótica.

Pesquisadores da Universidade de Exeter, da Universidade de Groningen e do Centro Canadense para Análise Climática explicam que o aquecimento acelerado do Ártico enfraquece correntes atmosféricas que antes mantinham o frio concentrado na região polar. Como resultado, ondas de frio mais intensas podem atingir a Europa e a América do Norte, mesmo em um planeta globalmente mais quente.

Os dados mostram que, desde os anos 1980, recordes de temperaturas máximas superam amplamente os de temperaturas mínimas em todas as regiões do mundo. Segundo o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, vinculado à Organização das Nações Unidas, a Terra já aqueceu cerca de 1,1°C em relação ao período pré-industrial, tornando eventos extremos mais frequentes, intensos e imprevisíveis.

Foto: Victor Salazar
Foto: Victor Salazar

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Impactos diretos na saúde, na economia e na segurança alimentar

As consequências desse novo regime climático extrapolam o campo ambiental. Pesquisas da Fundação Oswaldo Cruz indicam que extremos de temperatura elevam significativamente o risco de mortalidade, sobretudo entre idosos, crianças e populações vulneráveis. Ondas de calor aumentam casos de desidratação, hipertermia e doenças cardiovasculares, enquanto o frio extremo pode levar à hipotermia e colapsos respiratórios.

Oscilações térmicas abruptas, cada vez mais comuns em cidades brasileiras, também agravam doenças circulatórias, infecciosas e respiratórias. Ao mesmo tempo, secas prolongadas e chuvas intensas comprometem a produção agrícola, elevam preços de alimentos e ampliam a insegurança alimentar. Estimativas da ONU apontam que até 3,6 bilhões de pessoas vivem hoje em contextos altamente vulneráveis às mudanças climáticas.

Os oceanos, que absorvem grande parte do excesso de calor, tornam-se mais quentes e volumosos, acelerando o derretimento de geleiras e a elevação do nível do mar. Esse processo ameaça zonas costeiras densamente povoadas e ecossistemas inteiros, intensificando a perda de biodiversidade — outro risco que figura entre os três mais graves do relatório do Fórum Econômico Mundial.

Mitigar e adaptar: o desafio político e social da próxima década

Diante desse cenário, especialistas apontam que enfrentar a crise climática exige uma combinação urgente de mitigação e adaptação. A mitigação envolve reduzir drasticamente as emissões de gases de efeito estufa por meio da transição energética, do fim do desmatamento e da substituição de combustíveis fósseis. Já a adaptação busca preparar cidades, sistemas produtivos e comunidades para conviver com impactos já inevitáveis.

No Brasil, o Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional atua por meio da Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil, alinhada ao Marco de Sendai, fortalecendo a resiliência de municípios frente a enchentes, secas e deslizamentos. A segurança hídrica tornou-se eixo central dessa estratégia, com investimentos em irrigação eficiente, gestão da água e convivência com o semiárido.

No setor privado, empresas como a Neoenergia vêm ampliando investimentos em fontes renováveis, descarbonização de frotas e eficiência energética, alinhando-se às metas do Acordo de Paris. Embora iniciativas corporativas sejam relevantes, especialistas alertam que ações individuais e empresariais só terão impacto real se acompanhadas de políticas públicas robustas e cooperação internacional.

A realização da COP30 em Belém, em 2025, marca um momento simbólico: pela primeira vez, a maior conferência climática do planeta ocorrerá na Amazônia, epicentro de decisões que definirão o futuro climático global. Até lá, o alerta é claro: eventos extremos não são mais projeções distantes, mas sinais de um presente que exige respostas imediatas.